Práticas de cuidado e cultivo da atenção com crianças

Autores

  • Luciana Vieira Caliman Professora Associada do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Institucional (PPGPSI/UFES). https://orcid.org/0000-0001-8558-6562
  • Janaína Mariano César Professora Adjunta do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Institucional da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGPSI/UFES).
  • Virgínia Kastrup Universidade Federal do Rio de Janeiro

DOI:

https://doi.org/10.5965/198431781642020166

Palavras-chave:

atenção, cuidado, crianças, ecologia da atenção.

Resumo

Este estudo analisa uma experiência realizada no Brasil, na qual crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outros problemas relacionais, usuárias de um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), participam de uma oficina de leitura de literatura. A proposta da Oficina da Palavra é oferecer uma alternativa ao uso da medicação como modo central de tratamento, por meio de um dispositivo grupal e participativo de leitura e também de cuidado. A oficina foi realizada como uma pesquisa-intervenção baseada no método da cartografia. Através da proposição de um dispositivo grupal de cuidado, dá-se relevo à dimensão conjunta da atenção e a importância de construir ecossistemas atencionais nos quais a atenção a si e aos outros é cultivada. A partir de uma perspectiva ecológica que ultrapassa o viés individualista e naturalista da atenção, o cuidado dos problemas atencionais surge como um trabalho de cultivo de correspondência e atenção conjunta concentrada e aberta, envolvendo a construção de ecossistemas atencionais favoráveis.

Biografia do Autor

Luciana Vieira Caliman, Professora Associada do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Institucional (PPGPSI/UFES).

 Pós-doutora pelo Centro de Estudos Sociais (CES) de Coimbra, Portugal, e pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Doutora e Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). No Brasil, integra o Núcleo de Pesquisa Cognição e Coletivos (NUCC) e a Rede de Estudos de Práticas Conectivas em Políticas Públicas (Conectus). Tem se dedicado à pesquisa da atenção e dos processos de medicalização e medicamentalização atuais, especialmente no que tange ao Transtorno do Deficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Seus estudos são orientados por uma perspectiva ecológica da atenção e pela prática de pesquisa cartográfica.

Janaína Mariano César, Professora Adjunta do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Institucional da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGPSI/UFES).

Doutora em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Mestre em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). Como pesquisadora desenvolve seu trabalho na vinculação com a Rede de Estudos de Práticas Conectivas em Políticas Públicas (Conectus). Dedica-se à atuação e estudos relacionados aos processos de produção de subjetividade, processos formativos, ética, processos grupais e clínico-institucionais.

Virgínia Kastrup, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP), Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e bolsista PQ do CNPq na área de psicologia cognitiva. Suas pesquisas se articulam em torno do problema da invenção, com desdobramentos sobre a aprendizagem, a atenção, a arte e a deficiência visual. Membro do grupo de pesquisa CNPq Cognição e Subjetividade. Suas pesquisas se articulam em torno do problema da invenção, com desdobramentos sobre a aprendizagem, a atenção, a arte e a deficiência visual. Publicou A invenção de si e do mundo (Autêntica, 2007), Políticas da cognição (Sulina, Kastrup, Tedesco e Passos, 2008), Histórias de cegueiras (Kastrup e Pozzana, CRV, 2016) e Cegueira e invenção (CRV, 2018). É uma das organizadoras de Pistas do Método da Cartografia v.1 (Passos, Kastrup e Escóssia, Sulina, 2009) e Pistas do Método da Cartografia v.2 (Passos, Kastrup e Tedesco, Sulina, 2014), Exercícios de ver e não ver: arte e pesquisa com pessoas com deficiência visual (Moraes e Kastrup, Nau, 2010) e Movimentos micropolíticos em saúde, formação e reabilitação (Kastrup e Machado, CRV, 2016) .

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Publicado

2020-10-01

Edição

Seção

COLETIVOS EM AÇÃO: PROCESSOS DE CRIAÇÃO E FORMAÇÃO NA INTERFACE ARTES, EDUCAÇÃO E SAÚDE