CHAMADA DE TRABALHOS PALÍNDROMO 23 PRORROGADA

Experimentações expositivas e estratégias de materialização da publicação em pesquisa artística

 

A materialidade na publicação pode ser pensada como aquilo que ganha corpo e evidência pela  formulação de estratégias de visualização e representação. Na publicação da pesquisa em arte selamos duas facetas que se entrelaçam como num invólucro: as práticas discursivas [aquilo que se faz] envolta de um discurso [aquilo que se escreve]. O discurso basicamente aponta e costura aquilo que já é visível, mas ainda não dito.  A possibilidade de desdobramento destas duas facetas pode ser positiva se  permitir o desnudamento da publicação como artefato visual e, objeto, revelando suas estratégias de visualização e processo de produção. 

 

Para exemplificar podemos colocar lado a lado a coleta em campo, os sketch books e os resultados científicos da pesquisa. No relato final dos resultados obtidos muito da materialidade da pesquisa por ter sido depurada se perde. Buscando na narrativa de viagens exploratórias um parâmetro, em muitas expedições o relato é delegado a um profissional hábil em usar uma retórica quase jornalística. Entretanto, nesta estratégia de delegar somente às palavras o relato da pesquisa, muitos dos dados levantados se dissolvem. Existe cada vez mais  interesse na publicação que abre  de maneira crua os dados coletados, e os expõe através de estratégias que mostram a ação da pesquisa na medida e maneira como ela se desenrola. Os sketch books de viajantes e exploradores, são um bom exemplo para pensarmos a pesquisa em arte. São vistos como relatos de viagens, coletando dados da pesquisa em campo, anotações realizadas dentro da ação. Por vezes mal acabados e sujos, surrados de tão acoplados que foram da experiência que alimentou estas anotações. Existe também relacionado a estas expedições exploratórias os Journals. Diários de viagens que detalham desde o planejamento e a logística da economia do empreendimento, com suas variáveis negociações e disputas políticas que viabilizam ou impedem a concretização da jornada, até a rotina do dia a dia, e narram até mesmo o empenho e as dificuldades psicológicas para o enfrentamento das metas, cobrindo não só a motivação da pesquisa, mas o desenrolar da pesquisa.  Ainda há as publicações de viagem realizadas como um trabalho de documentação,  cujo intuito é menos um objeto como resultado final, e mais uma aprendizagem de no estranhamento criar um espaço de confluências e condições de produção da pesquisa. Estas se dão sobretudo como um trabalho colaborativo, onde os envolvidos contribuem à sua maneira lançando mão de vários formatos e mídias, fotografias, parâmetros da coleta de dados científicos,  gráficos, desenhos, poemas de próprio punho, quando não de outros autores, relatos.

 

Na arte a publicação da pesquisa, como produção posterior à concretização do objeto artístico, seguiu o modelo “científico” de produção bibliográfica, ditada pela exigência de qualificação científica da comunidade acadêmica dos programas de pós-graduação. Como se existisse apenas pesquisa em arte dentro  da universidade. O que é de estranhar, pois muito do processo artístico, que é importante para o campo, fica aplainado ao se adequar aos rigores de uma publicação científica. Quase não há lugar para as rasuras, os caminhos bifurcados, os esboços incoerentes que foram abortados, quando a publicação da pesquisa para se legitimar como produção científica, apenas reafirma os resultados obtidos durante o processo, argumenta os conceitos utilizados, adequa às taxonomias existentes ou cria novas, e realiza um levantamento historiográfico. Entre aquilo que se faz e aquilo que se escreve, sobre as práticas artística, todo risco é neutralizado.  O que acaba por afetar o conhecimento que a publicação produz, não agregando valor à produção. Não é toda publicação que está como produção artística independente à altura de seu objeto de estudo. Seria salutar trilhar este risco e considerar a natureza do campo como relevante. Podemos legitimar formatos diversos, no caso específico da pesquisa artística, levando-se em conta os processos de produção, circulação e recepção? Destacando a pesquisa em sua materialização, e minimizando as abordagens interpretativas? Pode a publicação da pesquisa em arte ser pensada como um viés expositivo?

  

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