1
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira
em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado
Maria Brígida de Miranda
Para citar este artigo:
MACHADO, Kauana; MIRANDA, Maria Brígida de. Labirinto
Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina
com Meredith Monk e Ellen Fisher. Urdimento Revista
de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.1, n.57,
abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0208
Este artigo passou pelo
Plagiarism Detection Software
| iThenticate
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
2
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e
Ellen Fisher1
Kauana Machado2
Maria Brígida de Miranda3
Resumo
Este artigo relata a experiência da atriz e mestranda do Programa de Pós-Graduação em
Artes nicas (PPGAC/UDESC) Kauana Machado no workshop Voice as Practice”,
conduzido pelas artistas Meredith Monk e Ellen Fisher. A residência artística de quatro
dias ocorreu em dezembro de 2025, na cidade de Garrison, Nova Iorque (EUA). A
experiência envolveu meditação, canto, dança e dinâmicas de criação coletiva. O texto
escrito por Machado e Miranda articulou descrição da rotina de exercícios a conceitos
como extended vocal technique e shadow play”, questionando como experiências
corporais e vocais impactam os sentimentos de pertencimento comunitário e identidade
cultural.
Palavras-chave: Prática vocal. Escuta. Linguagem. Experiência artística.
Sound Labyrinth: a Brazilian actress’s experience in a workshop with Meredith Monk and
Ellen Fisher
Abstract
This article reports the experience of actress and PPGAC/UDESC master’s student
Kauana Machado in the workshop “Voice as Practice”, led by Meredith Monk and Ellen
Fisher. The four-day artistic residency took place in December 2025 in Garrison, New
York (USA). The experience combined meditation, singing, dance, and collective creation
dynamics. Written by Machado and Miranda, the text connects the exercise routine to
concepts such as “extended vocal technique and “shadow play,” asking how bodily and
vocal experiences shape feelings of community belonging and cultural identity.
Keywords: Vocal practice. Listening. Language. Artistic experience.
Laberinto sonoro: La experiencia de una actriz brasileña en un taller con Meredith Monk
y Ellen Fisher
Resumen
Este artículo relata la experiencia de la actriz y estudiante de maestría del Programa de
Posgrado en Artes Escénicas (PPGAC/UDESC), Kauana Machado, en el taller "La voz como
práctica", dirigido por las artistas Meredith Monk y Ellen Fisher. La residencia artística de
cuatro días tuvo lugar en diciembre de 2025 en Garrison, Nueva York (EE. UU.). La
experiencia incluyó meditación, canto, danza y dinámicas de creación colectiva. El texto
escrito por Machado y Miranda describió la rutina de ejercicios con conceptos como
"técnica vocal extendida" y "juego de sombras", cuestionando cómo las experiencias
corporales y vocales influyen en los sentimientos de pertenencia a la comunidad y la
identidad cultural.
Palabras clave: Práctica vocal. Escucha. Lenguaje. Experiencia artístic.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual gramatical do artigo por Denize Gonzaga.
2 Mestranda em Artes Cênicas na Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). Bolsista CAPES de agosto de 2024 a
agosto de 2026. Graduada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
kauanamac@outlook.com http://lattes.cnpq.br/1974854963303646 https://orcid.org/0000-0002-4820-7751
3 Professora Titular do Departamento de Artes Cênicas (DAC) e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas,
Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGAC/UDESC). Coordenadora do Projeto de Pesquisa CURARTE - Práticas
cênicas para o bem-viver: estudos de gênero e feminismos nas artes da cena (CNPq e UDESC), Grupo de Pesquisa Imagens
Políticas (CNPq/UDESC), Linha de Pesquisa Imagens Políticas. maria.miranda@udesc.br
http://lattes.cnpq.br/6580699080518678 https://orcid.org/0000-0002-0828-8585
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
3
Introdução por Brígida Miranda
O campo das artes da cena tem um histórico de combinar práticas
psicofísicas de diferentes contextos culturais na formação de atores e atrizes. Em
diversas obras (Miranda, 2010; 2021) discorri sobre como neste processo algumas
disciplinas de ordens monásticas ou esferas militares despertaram o interesse de
diretores/as e atores/atrizes e foram paulatinamente sendo adotadas em métodos
de treinamento atoral ao longo do século XX.
Neste artigo, Kauana Machado nos revela a rotina da oficina Voice as
Practice”, ministrada em dezembro de 2025, no Garrison Institute, localizado em
Nova Iorque, e conduzida pelas inovadoras artistas estadunidenses Meredith Monk
e Ellen Fisher. Para realizar a pesquisa neste evento, a mestranda foi financiada
por meio de recursos do PROAP-CAPES n. 4026/2025, via Programa de s-
Graduação em Artes nicas (PPGAC/UDESC). Importa observar aqui que o
referido instituto é uma organização educacional que promove práticas holísticas
e vincula-se à filosofia do budismo tibetano.
Por certo, a investigação sobre meditação como dinâmica nas práticas de
preparão atoral pode ser mapeada em graduações nas artes da cena desde a
década de 1960 (Miranda, 2010), mas neste caso é interessante considerar de que
maneira tanto a instituição quanto as artistas condutoras da oficina fortalecem
laços entre as artes da cena e as práticas de si”, entre a ideia de treinamento
atoral e ascese” (Quilici; Fischer, 2015 e Miranda, 2015).
Nesse aspecto, após nos presentear com uma perspectiva impressionista da
grande artista Meredith Monk, Machado revela o passo a passo de como chegou
ao evento internacional e faz uma breve contextualização da obra de Monk e de
Fischer. Na sequência, a mestranda dedica-se ao relato de um dia de aula, por
meio do qual rememora os estímulos e as sensações de cada etapa da experiência.
Momentos de descoberta e de desconforto, em que a voz e a palavra ecoam de
formas diferentes quando uma mulher se percebe como estrangeira” em uma
outra terra, quando a ngua não é materna. O texto é particularmente estimulante
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
4
para artistas e professores/as de prática teatral, pois detalha a estrutura da aula,
descreve os exercícios e jogos, e revela as sensações da atriz ao participar das
dinâmicas de grupo.
Uma memória afetiva sobre o ícone
Começo este artigo com uma das últimas e mais fortes imagens que tenho
da artista Meredith Monk, para então adentrar a descrição da experiência da oficina
Voice as Practice”, cujo título pode ser traduzido como Voz como Prática”.
Era dia 15 de dezembro de 2025, e a neve cobria os caminhos e telhados
de Garrison, município no estado de Nova Iorque, Estados Unidos, onde o Garrison
Institute está sediado.
Figura 1 - Garrison Institute - pórtico principal do antigo mosteiro franciscano4.
Foto: Kauana Machado.
4 Site oficial "Garrison Institute”: https://www.garrisoninstitute.org/about-us/.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
5
Em seu amplo e iluminado estúdio de prática, eu aguardava em uma pequena
fila a hora de bater uma foto com Meredith Monk.
Figura 2 - Sala de meditação do Garrison Institute. Foto: Kauana Machado.
Depois de quatro dias de práticas vocais e corporais, o grupo de participantes
do
workshop
ansiava por um momento de proximidade com um dos mais
importantes nomes da história da música ocidental. Sobre esse episódio, pensei:
uma fotografia abraçada a Monk ou algumas palavras trocadas seriam o suficiente
para selar uma imagem icônica com o que seria o meu” objeto de pesquisa? De
fato, algo aconteceu que tocou profundamente o grupo de artistas.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
6
Na fila, entre participantes de diferentes nacionalidades, gêneros e idades,
havia uma mulher alta, de cabelos curtos e bem escuros, que estava visivelmente
grávida com aproximadamente seis meses de gestação. Na sua vez, ela se
aproximou de Meredith Monk e agradeceu pela experiência, ao que a artista sorriu
e agradeceu de volta pela presença especial. De forma delicada e gentil, pediu
licença e se aproximou da mulher, fez um carinho com as mãos sobre sua barriga,
inclinou sua cabeça, encostou a orelha para ouvir o bebê, sorriu fechando os olhos
e começou a cantar.
Monk cantou baixinho uma melodia suave, como se estivesse contando algo
que apenas o bebê entenderia, passando calma, tranquilidade, alegria e amor.
É essa imagem cheia de sons, luz e deslumbramento que sempre guardarei
de Meredith Monk: uma mulher que aprecia a vida, aprecia as pessoas, tem prazer
em sorrir e em compartilhar momentos.
Figura 3 - Meredith Monk e Kauana Machado no
hall
do Garrison Institute, 15 de dezembro
de 2025. Foto: Nadine Mongeard.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
7
Início da jornada
No início de minha trajetória na s-graduação, em 2024, cursei a disciplina
Introdução ao Teatro Feminista”, ministrada pela Prof. Dra. Maria Brígida de
Miranda, no Programa de s-Graduação em Artes nicas (PPGAC/UDESC). A
disciplina possibilitou que eu me aproximasse da artista e pesquisadora Dra.
Luciana Aires de Mesquita5, que na época realizava seu s-doutorado, intitulado
Mitoludens Entre Deuses e Sambaquis”, sob supervisão de Miranda. Ao
compartilhar meu interesse no trabalho da artista Meredith Monk, Luciana relatou
que havia tido uma experiência com a artista e me incentivou a encontrá-la.
Entusiasmada, acessei o site oficial de Meredith Monk/The House
Foundation6, onde encontrei, na aba Education”, cursos online e presenciais. Após
ver que o workshop Voice as Practice” estava anunciado para ocorrer no Garrison
Institute em dezembro de 2025, eu comecei a sonhar com a possibilidade de
participar.
Figura 4: Divulgação do workshop Voice as Practice”; na esquerda, fotografia de Meredith
Monk e, na direita, de Ellen Fisher. Site oficial do Garrison Institute.
5 Para conhecer o trabalho da Dra. Luciana Aires de Mesquita, acesse: https://mitoludens.com.br/portfolio-
luciana/.
6 Para mais informações, acesse: https://www.meredithmonk.org/education/workshops-3.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
8
O Garrison Institute é um espaço destinado a retiros e práticas
contemplativas que se dedica a promover encontros interdisciplinares articulando
arte, espiritualidade, ecologia e transformação social7. Localizado às margens do
rio Hudson, em meio à natureza, cria condições propícias para processos que se
relacionam com práticas sensíveis e experiências que buscam integrar corpo e
mente. Voice as Practicese propunha a ser um encontro para autodescoberta,
criatividade, escuta de si e do ambiente, e foi conduzido pelas artistas pioneiras
da música ocidental contemporânea Meredith Monk e Ellen Fisher.
Precisando apresentá-las, pensei em como descrever aclamadas artistas do
Ocidente, com trajetórias internacionalmente reconhecidas e premiadas no campo
da música, dos espetáculos teatrais, dos filmes e das performances. No site do
evento8, as biografias o sintéticas, mas mesmo assim compartilho-as aqui:
Meredith Monk é uma compositora, cantora, diretora/coreógrafa, cineasta
e criadora de novas óperas, obras de teatro musical, filmes e instalões.
Reconhecida como uma das artistas únicas e influentes do nosso tempo,
ela é pioneira no que hoje se chama de cnica vocal estendida e
performance interdisciplinar”. Celebrada internacionalmente, seu
trabalho, workshops e palestras sobre Arte como Prática têm sido
apresentados em importantes espaços ao redor do mundo.
Ellen Fisher é uma artista da performance baseada no movimento, cujo
trabalho integra ações gestuais com elementos visuais, como filme e teatro de
sombras. Ela começou a se apresentar com Meredith Monk/The House na cada
de 1970. Ellen também ensina e ministra regularmente palestras sobre dança,
tanto em âmbito nacional quanto internacional.9
7 Para mais informações, acesse: https://www.garrisoninstitute.org/.
8 Link oficial para inscrição no evento: https://www.garrisoninstitute.org/event/voice-as-practice-with-
meredith-monk-ellen-fisher-december-2025/. Último acesso em: 17 mar. 2026.
9 Meredith Monk is a composer, singer, director/choreographer, filmmaker, and creator of new opera, music-
theater works, films and installations. Recognized as one of the most unique and influential artists of our
time, she is a pioneer of what is now called “extended vocal technique” and “interdisciplinary performance”.
Celebrated internationally, her work, workshops, and lectures on Art as Practice have been presented at
major venues throughout the world. Ellen Fisher is a movement-based performance artist whose work
integrates gestural actions with visual elements such as film and shadow play. She began performing with
Meredith Monk/The House in the 1970s. Ellen also teaches and lectures regularly on dance both domestically
and internationally. [Tradução Google Translator, revisão das autoras]
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
9
Considerando a grandeza e variedade de sua obra que abrange 60 décadas,
a opção foi trazer uma descrição da própria Monk em seu site oficial10, onde estão
destacadas suas mais aclamadas prodões:
MEREDITH MONK (nascida em 20 de novembro de 1942, na cidade de
Nova Iorque) é compositora, cantora, diretora, coreógrafa e criadora de
novas óperas, obras, incluindo teatro e música, filmes e instalações.
Reconhecida como umas das artistas mais singulares e influentes de
nosso tempo, é pioneira no que hoje chamamos de cnica vocal
estendida” e performance interdisciplinar”. Monk cria obras que
proporcionam a intersecção de música e movimento, imagem e objeto,
luz e som, descobrindo e fluindo juntos novos modos de percepção. Sua
exploração inovadora sobre a voz como um instrumento, como uma
linguagem que fala por si mesma expande os limites da composição
musical, criando paisagens sonoras que revelam sentimentos, energias e
memórias para as quais o há palavras11.
Podemos encontrar, disponível no site, uma lista de produções artísticas
realizadas desde 1964 até a atualidade. A partir dela, considerei 33 obras como
principais, considerando as criadas em intervalos curtos de um, dois ou no máximo
três anos. O catálogo demonstra o quanto Monk é constante em sua prática
artística. Além de composições de espetáculos, também estão registradas
gravações de canções, às vezes mais de uma por ano, com uma grande quantidade
de vozes e diferentes instrumentos. É possível perceber, também, que uma
variedade de linguagens em suas obras, transitando entre elas e relacionando
umas às outras. Do mesmo modo, encontramos trabalhos teatrais, composições
musicais, óperas, vídeos, filmes, dança, performance e instalação.
Na última cada, seus trabalhos artísticos têm revisitado suas criações
icônicas; além disso, Monk é frequentemente convidada como palestrante e
condutora de workshops em contextos acadêmicos e espaços artísticos. Nessas
10 Link para o site oficial "Meredith Monk”: https://www.meredithmonk.org/.
11 Trecho retirado do site "Meredith Monk", na aba Biography”. Tradução nossa de: MEREDITH MONK (b.
November 20, 1942, New York City) is a composer, singer, director/choreographer and creator of new opera,
music-theater works, films and installations. Recognized as one of the most unique and influential artists of
our time, she is a pioneer in what is now called “extended vocal technique” and “interdisciplinary
performance. Monk creates works that thrive at the intersection of music and movement, image and object,
light and sound, discovering and weaving together new modes of perception. Her groundbreaking exploration
of the voice as an instrument, as an eloquent language in and of itself, expands the boundaries of musical
composition, creating landscapes of sound that unearth feelings, energies, and memories for which there
are no words. Último acesso em: 19 mar. 2026. [Tradão Google Translator, revisão das autoras]
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
10
ocasiões, compartilha sua história e experiências com novas gerações. A citação a
seguir é um exemplo de uma autobiografia:
Celebrada internacionalmente, a obra de Monk tem sido apresentada em
importantes espaços ao redor do mundo. Ao longo das últimas seis
cadas, ela tem sido aclamada como uma maga da voz” e uma das
compositoras mais interessantes da América”. Em conjunto com a sua
50ª temporada de criação e performance, foi nomeada em 2014-2015
para a cadeira de compositora Richard and Barbara Debs, no Carnegie
Hall. Recentemente, Monk recebeu três das maiores honrarias
concedidas a um artista vivo nos Estados Unidos: entrando na American
Academy of Arts and Letters (2019), em 2017, o prêmio Dorothy and Lillian
Gish e, em 2015, a National Medal of Arts, concedida pelo presidente
Barack Obama12.
Diante da dimensão e relevância da sua trajetória e da presea de Ellen
Fisher e sua pesquisa de movimento, a proposta do workshop me pareceu ainda
mais interessante para a investigão entre corpo, voz e criação. É a partir desse
contexto que inicio o relato da viagem e da vivência no Voice as Practice”,
buscando compartilhar não apenas os acontecimentos e exercícios, mas também
as reverberações sensíveis e artísticas que surgiram durante o percurso.
Entrando no labirinto de palavras
Realizei minha inscrição para participar do workshop, solicitei apoio financeiro
ao PPGAC/UDESC e, após ser concedido, organizei minha primeira viagem
internacional. Na dissertação de mestrado (em andamento), detalho os
pormenores desse processo e da vivência de ser uma mulher estrangeira no que
percebi como um labirinto de palavras, em diversos momentos do dia a dia nos
EUA.
Ao chegar no Garrison Institute, todos os participantes foram instalados em
seus quartos e, após o jantar, nos encontramos na sala de meditação para iniciar
12 Trecho retirado do site "Meredith Monk", na aba Biography”. Tradução nossa de: Celebrated internationally,
Ms. Monk’s work has been presented at major venues throughout the world. Over the last six decades, she
has been hailed as “a magician of the voice” and “one of America’s coolest composers.” In conjunction with
her 50th Season of creating and performing, she was appointed the 2014-15 Richard and Barbara Debs
Composer’s Chair at Carnegie Hall. Recently Monk received three of the highest honors bestowed to a living
artist in the United States: induction into the American Academy of Arts and Letters (2019), the 2017 Dorothy
and Lillian Gish Prize and a 2015 National Medal of Arts from President Barack Obama. Último acesso em 19
de março de 2026. [Tradução Google Translator, revisão das autoras]
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
11
as atividades. As práticas conduzidas por Monk e Fisher articularam meditação,
movimento e voz. Para fins de recorte e aprofundamento, neste artigo, optei por
me concentrar em descrever os exercícios e as perceões especificamente do
dia 13 de dezembro, o segundo dia de workshop. A experiência total se estendeu
por quatro dias, mas as práticas apresentavam continuidade entre si, sendo
aprofundadas a cada dia.
A experiência na aula do dia 13 de dezembro
O segundo dia de workshop foi marcado por práticas vocais e dinâmicas
coletivas. Encontramo-nos na sala de meditação, às 9h, para a retomada da
prática meditativa conduzida por Meredith Monk. Sua proposta sugeriu pensar o
corpo em duas qualidades, a parte frontal suave e macia, enquanto as costas
seriam apenas uma casca, responsável por manter essa parte frontal unida.
Imaginei minhas costas como a casca de uma amêndoa: resistente, mas fina. A
frente do corpo era leve, translúcida. o era algodão, nem água, nem gelatina. Era
algo entre esses elementos; parecido, mas não igual.
Durante a meditação, outra coisa a ser considerada foram os pensamentos.
Enquanto meditamos, é muito comum que se tenha o impulso de tentar o
pensar em nada, tentar manter-se afastado dos pensamentos. Mas o fato é que
não é preciso expulsá-los, ou fingir que eles o existem; basta entender que eles
irão passar diante de nós como pássaros voando. Quer dizer, não se pode ignorá-
los; eles devem voar diante de nossos olhos, mas a sua atenção plena deve seguir
para o horizonte.
Caso seja difícil chegar ao estado meditativo, uma boa escolha pode ser
começar de novo: simplesmente abrir os olhos, movimentar o corpo levemente,
retomar a postura e reiniciar a respiração.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
12
Figura 5 - Participantes meditam no workshop Voice as Practice”. Foto: Peter Sciscioli
Depois de finalizarmos essa etapa, iniciamos nossos exercícios comandados
por Ellen Fisher. As práticas articulavam deslocamento no espaço, ativamento
corporal, ritmo, relação com o espaço e com o outro. Realizamos caminhadas que
evoluíram para a exploração de movimentos do corpo, culminando numa dança;
logo seguimos indicões de movimentação ao som de uma música de ritmo
latino, giramos em torno do nosso eixo e dançamos nos relacionando com os
colegas. Passado isso, fizemos um círculo, e Monk iniciou um exercício de
respiração, exercício este muito parecido com uma prática taoísta de que participei
em 2024, com Luciana de Carvalho13.
Ela realizou uma oficina com algumas práticas da terapêutica chinesa,
especificamente do Qi Gong: uma delas consistia em uma série de movimentos
13 Luciana de Carvalho, convidada da Dra. Valéria Bittar ministrou a oficina "Qi Gong: Sistema de Práticas
Corporais Taoistas" na VI Mostra Rosa Teatral, evento de extensão e pesquisa universitária coordenado pela
Dra. Maria Brígida de Miranda. Saiba mais em:
https://www.udesc.br/noticia/6__mostra_rosa_teatral_da_udesc_inicia_na_proxima_semana_com_palestra
s__oficinas_e_espetaculo
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
13
de massagem e visualização focados na região do umbigo e baixo ventre, lugares
considerados um reservatório de nossa energia vital nas práticas marciais e
meditativas chinesas, é chamado de Tantien”. Os exercícios de Monk
compreendiam respiração com elevação dos braços de forma lateral, num
movimento de inspirar, elevar os braços, ao mesmo tempo que dobrar levemente
os joelhos. O próximo passo consistia em soltar a respiração retomando os joelhos
de forma natural e abaixando os braços de forma frontal ao corpo. Quando
subíssemos nossos braços, deveríamos imaginar que estávamos pegando o ar do
espaço de fora para juntar esse ar nas mãos e descê-lo para deixá-lo dentro do
corpo. Quase como se estivéssemos nos enchendo do espaço. Esse é o mesmo
princípio que Luciana de Carvalho aplicava para encher de energia o Tantien”.
Em relação ao espaço, Fisher também trouxe exercícios por meio dos quais
deveríamos pegar um pouco do chão, das laterais e do teto. Quer dizer, pegar esse
espaço e colocar dentro de nosso corpo. Havia uma relação de troca de energia
entre o ambiente e entre as pessoas, mas tudo era colocado de forma
completamente orgânica e natural.
Figura 6 - Fotografia de Kauana Machado participando da oficina. Foto: Peter Sciscioli.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
14
Continuamos, então, com aquecimentos vocais. Retornamos um exercício da
noite anterior que consistia em emitir o som de mu”, transitando do mais grave
ao mais agudo, mas também exploramos esse som brincando com a musculatura
da ngua: a movemos dentro da boca, perto dos dentes, vocalizamos com ela em
diferentes lugares para encontrar novas formas de produzir sons, percebendo
como a mesma inteão sonora se transforma de acordo com o lugar ocupado
pela língua.
Aprendemos uma canção:
Coocoo
as I went walking
on a may morning
I heard a bird sing
(clap)
Cantamos todos juntos para aprender a letra e o ritmo. Dividimo-nos em
grupos, sendo que cada um iniciava em um tempo diferente. A canção era cantada,
e a finalização do trecho se dava com uma palma (clap). Seguimos cantando e
andando pelo espaço, às vezes encontrando algumas pessoas e encaixando os
sons, e outras, compondo diferentes camadas de som.
Depois de fazermos essa atividade, nos organizamos como duplas. Ficamos
de frente uns para os outros, mas organizados em duas grandes linhas pelo
espaço. Cada laba seria cantada por uma pessoa da dupla. Como destacado
abaixo:
Coocoo
as I went walking
on a may morning
I heard a bird sing
(Clap)
Nesse exercício, houve uma dificuldade dos grupos em execu-lo. Eu e
minha dupla, por exemplo, tentamos apontar uma para a outra enquanto
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
15
cantávamos, para ter a referência visual de quem ficava com cada parte, mas
ainda assim foi confuso. E, além de fazer o exercício, dividindo a letra, era
necessário pensar que estávamos dividindo o som (nós duas estávamos cantando
a mesma coisa) para parecer a mesma voz, deveríamos ter pausa entre as
sílabas das palavras maiores e encontrar o mesmo tom para que existisse
suavidade entre a mudança da voz de uma pessoa para a outra. Aqui sentimos o
quão complicado é compartilhar, pois exige escuta, ajuste, tempo. Esse é um
exemplo claro da extended vocal technique(técnica vocal estendida), que busca
pensar na voz e nascnicas que exercitam outras habilidades que o além das
notas a serem alcançadas e afinação no canto, mas exigem atenção plena ao seu
corpo, ao corpo do outro e escuta apurada14.
Figura 7 - Fotografia do exercício "canção em dupla". Foto: Peter Sciscioli.
14 Link para a performance de Meredith Monk com Theo Bleckmann, que demonstra o vel avançado da
cnica trabalhada no exercício:
https://www.youtube.com/watch?v=enbHYaF8Vas&list=RDenbHYaF8Vas&start_radio=1.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
16
Logo, seguimos em dupla, mas desta vez para um exercício de dança. Era
quase como uma dança medieval; fizemos movimentos tocando nossas os,
girando perto um dos outros, nos cumprimentando, batendo o bumbum um no
outro e depois atravessando pelo meio da fila. Gastamos bastante energia nisso e
foi superdivertido.
Finalizamos nossa manhã realizando exercícios com a sombra, o que Ellen
chamava de shadow play”, que consiste primeiro na observação da nossa sombra
no chão, para depois dançarmos com ela, encontrarmos outras sombras,
novamente dançarmos com elas, tocarmos na sombra e nos transformarmos na
sombra de alguém. Nesse exercício, a sombra foi explorada de uma forma mais
ampla, inclusive se relacionando com todas as possibilidades e perceões.
Lembro até que uma participante perguntou a Ellen sobre o conceito de shadow
play”, e a artista trouxe suas percepções subjetivas sobre a sombra e demonstrou
com seu corpo as relações que s poderíamos construir com a sombra em si,
mas também como enxergar o nosso próprio corpo como a sombra de algo ou
alguém. Essas foram as proposições, para que mais tarde nossa experimentação
com a sombra fosse mais aprofundada.
À tarde, retomamos a meditação, e a proposta foi, além de buscar a sensação
de maciez e suavidade, prestar atenção aos sons. Nesse sentido, em vez de
desligar nossos ouvidos e ignorar os sons, precisamos ouvi-los e dei-los
transitar, assim como nossos pensamentos. Desse modo, ao fim da meditação,
cada participante vocalizou o som da sua meditação: ouvimos sons graves, agudos,
de estalos, sopros, entre outros.
Trabalhamos, ainda, ressonâncias em diferentes partes do corpo: diafragma,
lvis, peito, garganta, nariz e topo da cabeça. Seguimos para exercícios de
movimentos com a voz.
O primeiro exercício propôs, de acordo com Monk, descobrir a extensão
respiratória. Com formação de grupos de seis pessoas, respiramos fundo e
atravessamos a sala caminhando com os braços abertos fazendo som de s”; caso
o fôlego acabasse, era preciso parar, respirar de novo e continuar.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
17
Seguimos com a mesma proposta, mas fazendo o som de mu”. Testamos
em diferentes velocidades, com a intenção de fazer com uma respiração ,
tentando de frente e de costas. Finalizamos esse momento com um som alto e
agudo de yupi”. O som era o nosso condutor de movimento; então precisava ser
muito alto e agudo a ponto de fazer o nosso corpo se projetar para frente e para
cima.
Realizamos, igualmente, um exercício de ecoar bem interessante. Era uma
ideia de telefone sem fio sonoro. Num rculo, uma pessoa fazia o som inicial e
tocava a pessoa da frente; essa pessoa, por sua vez, ouvia com atenção o som
que foi feito e deveria ecoá-lo, de maneira parecida, mas não exatamente igual,
porque o eco não é uma imitação do som, e sim uma ressoncia dele. Este
exercício foi muito interessante para praticar a escuta e a perceão do som15.
Demos sequência com a proposta de ecoar, mas desta vez de forma
diferente. A proposta era formar um trio e cada pessoa poderia escolher uma ação
que foi feita de forma natural neste mesmo dia, algo completamente comum.
Escolhi a ação de escovar o cabelo. Cada pessoa precisava ficar repetindo sua
ação escolhida e ir aumentando-a gradativamente, de forma repetitiva, mas
ampliando cada vez mais assim sua forma ficaria cada vez mais borrada. A
próxima indicação foi de apenas uma pessoa do trio realizar a ação, ao passo que
os outros iriam observar e depois copiar exatamente igual, para logo seguir com
essa ecoação da ação, ampliando-a cada vez mais com suas formas
começando a se perder —, mas ainda sem se perder totalmente; os outros dois
participantes continuariam imitando. Fizemos isso até todos do trio realizarem sua
ação.
Logo após, sete grupos deveriam criar uma pequena performance se
relacionando com a sombra e com o eco que haviam sido trabalhados no dia. Os
grupos precisavam se espalhar pelo espaço do prédio, encontrar um lugar e
realizar sua performance. Tínhamos 30 minutos para compor nossa performance.
15 Link de acesso a um vídeo do exercício: Exercício eco monk. Crédito de filmagem: Kauana Machado. Acervo
pessoal.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
18
Chegamos em um momento particularmente estressante para mim. O
labirinto das palavras apareceu e me perdi nele. Eu consigo me comunicar bem
em ings, mas foi um desafio muito grande estar em um grupo de nativos ou de
pessoas radicadas nos Estados Unidos alguns anos. Confesso que, em
conversas que são muito rápidas, nas quais mais de uma pessoa está falando ao
mesmo tempo, ou completando as ideias uns dos outros, acabo tendo dificuldade
de gerenciar.
Mesmo pedindo para que repetissem algumas coisas e relembrando que a
minha relação com o inglês o era tão contínua quanto a deles, não houve muito
espaço para mim. Senti-me fora do grupo e então decidi ir até Ellen e Monk
perguntar sobre a possibilidade de mudar de grupo e ir para um onde houvesse
alguém que falasse português, para que eu conseguisse me comunicar de forma
mais tranquila. Assim, caso eu não entendesse algo, essa pessoa teria como
traduzir para mim.
Troquei de grupo e, apesar de haver nele uma pessoa que falava português,
infelizmente não mudou muito o meu sentimento de estar de fora. Houve dois
momentos muito significativos em que me comuniquei em ings, dando duas
sugestões, que eu tenho plena certeza de que foram compreendidas, mas que
foram ignoradas. Desisti. Pensei então em ficar em silêncio e seguir as instruções
dos outros.
O mais interessante é que, no final de tudo, a performance aconteceu
exatamente como eu havia sugerido. Escolhemos um corredor e minha primeira
sugestão era de que ficássemos nas laterais explorando movimentos perto da
parede e que o blico ficasse bem no meio do corredor. E foi assim que
aconteceu. Minha outra sugestão é que escolhêssemos palavras; uma pessoa de
um canto do corredor iria cantá-la e seguiríamos ecoando essa palavra pelo
corredor. Quando disse isso, houve um silêncio um pouco longo e constrangedor,
e absolutamente nenhum comentário sobre minha sugestão, o que não deveria
acontecer quando pessoas estão em um grupo dando ideias. Então o grupo todo
se juntou no meio do corredor e uma das participantes disse claramente que não
queria usar linguagem, mas no fim uma outra pessoa sugeriu que ficássemos
repetindo e ecoando a palavra mamãe”, com uma voz que remetesse ao ciclo
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
19
nascimento, crescimento e morte. Uma palavra escolhida sendo repetida e ecoada
pelo corredor. Interessante!
Figura 8 - Fotografia da performance do grupo de que participei. Foto: Peter Sciscioli.
Concluindo esse episódio, não queria que as pessoas achassem que as
minhas ideias eram as melhores do mundo ou que me parabenizassem por coisas
simples, mas queria ter me sentido incluída e validada.
No final, quando o blico estava indo para outro espaço para assistir à
próxima performance, nosso grupo se reuniu no meio do corredor, falamos uns
com os outros e um dos participantes agradeceu a todos do grupo pela
performance e também agradeceu especificamente a mim. Ele disse: “Thanks for
working with us, even without understanding anything”. Anything?, pensei.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
20
À noite havia uma atividade programada para depois do jantar, mas preferi
ficar em meu quarto. Essa situação me chateou um pouco; então senti que era
melhor ficar um pouco e não em community.
Depois da oficina: o que fica no corpo?
Ao longo dos dias, os exercícios se aprofundavam progressivamente, se
organizando como camadas. A meditação ganhava níveis maiores de
complexidade, perceão e de tempo realizando a prática. De fato, esse processo
de repetição com variações e refinamentos amplia o reconhecimento da cnica
para futuras execuções, além de proporcionar uma intensificação da escuta e da
percepção do exercício.
A repetição e o aprofundamento também se aplicam nos exercícios de voz e
de movimento, exigindo uma maior relação com o grupo, envolvendo toque físico,
cantos em conjunto e propostas mais complexas de criação coletiva.
Aquecimentos vocais e canções possuíam camadas mais refinadas em relação a
ritmo, tom, sincronicidade e elementos coreográficos.
Ao final daqueles dias, percebi que não saí do labirinto das palavras, mas
aprendi a caminhar dentro dele. O labirinto deixou de ser um erro, um desvio ou
uma falha de tradução. Permitiu perder-me, compreender além das palavras, ouvir
com o corpo. Precisei repetir, pedir ajuda, silenciar: tudo isso passou a ser parte
do caminho. A língua estrangeira, a voz que procura por espaço, a ideia que não é
ouvida e até o mesmo o som do meu nome. Nada disso desaparece ao final do
workshop. Vivi um momento em que me conectei com diferentes níveis de escuta,
atenção e descoberta.
Por certo, o trabalho de práticas com a voz proposto por Meredith Monk e
Ellen Fisher desloca a voz de um lugar de performance individual para um espaço
de relação. Nesse sentido, a voz não é apenas emissão e cnica; ela é
atravessamento e subjetividade. As práticas enfatizavam que o voz sem
corpo, o há corpo sem espaço, não há espaço sem os outros.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
21
Volto desse percurso sem respostas fechadas, mas com perguntas que
seguem ecoando no corpo: como sustentar espaços onde a ngua não exclua?
Quais são as brechas de criação da minha própria língua? Onde o labirinto pode
ser reconhecido não como falha, mas como possibilidade de encontro? Qual é o
melhor caminho para perder o medo de ter uma voz?
Figura 10 - Participantes do workshop Voice as Practice”. Foto: Peter Sciscioli.
Referências
QUILICI, Cassiano Sydow; FISCHER, Kysy Amarante. Artes performativas e a
questão da ascese: o todoMarina Abramovic.
Urdimento
- Revista de Estudos
em Artes nicas, Florianópolis, v. 2, n. 25, p. 023–033, 2015. DOI:
10.5965/1414573102252015023. Disponível em:
https://revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573101242015023.
Acesso em: 13 abr. 2026.
GARRISON INSTITUTE. Garrison Institute, 2026. Site Oficial. gina inicial. Disponível
em: https://www.garrisoninstitute.org/. Acesso em: 19 mar. 2026.
Labirinto Sonoro: experiência de uma atriz brasileira em oficina com Meredith Monk e Ellen Fisher
Kauana Machado | Maria Brígida de Miranda
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
22
MEREDITH MONK. Meredith Monk, 2026. Site Oficial. Página inicial. Disponível em:
https://www.meredithmonk.org/. Acesso em: 19 mar. 2026.
MIRANDA, Maria Brígida de.
Playful Training
: towards capoeira in the physical
training of actors. Saarbrücken: LAP, 2010.
MIRANDA, Maria Brígida de. Bruce Lee nas telas O Pequeno Dragão” enlaça com
seu corpo marcial Oriente e Ocidente.
Urdimento
- Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v. 2, n. 25, p. 084099, 2015. DOI:
10.5965/1414573102252015084. Disponível em:
https://revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573101242015084.
Acesso em: 13 abr. 2026.
MIRANDA, Maria Brígida de. Corpos Dóceis: reflexões sobre métodos de
treinamento de atores e atrizes no século XX. São Paulo: Hucitec, 2021.
MEREDITH Monk-Hocket Live with Theo Bleckmann. Produzido por mmonkhouse,
7 jul. 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=enbHYaF8Vas.
Acesso em: 24 mar. 2026.
6 Mostra Rosa Teatral da UDESC inicia na próxima semana com palestras, oficina
e espetáculo. Notícia. CEART. UDESC. Postado em 8/10/2024.
https://www.udesc.br/noticia/6__mostra_rosa_teatral_da_udesc_inicia_na_proxima_sem
ana_com_palestras__oficinas_e_espetaculo Acesso em: 16 abr. 2026.
Recebido em: 25/04/2026
Aprovado em: 25/04/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br