1
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Imagem da Capa
Projeto Gráfico
: Marcelo Pires de Araújo
Espetáculo
:
LaMalasangre
Direção
: Tefa Polidoro e Elaine Nascimento
Foto
: Luccas Oliva
Para citar este Editorial:
GISLON, Giorgio; BAUMGARTEL, Stephan; GUZZO, Marina; FRAGA,
Marina; DUENHA, Milene; PIRES, Rafaela Blanch.
Editorial Dossiê:
Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II.
Urdimento
Revista de
Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1, n. 57, abr. 2026.
10.5965/1414573101572026e0901
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
2
Comitê Editorial Este Dossiê Temático foi coordenado por:
Giorgio Gislon, Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Stephan
Baumgartel, Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); e
composto por: Marina Guzzo, Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP); Marina Fraga, Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ); Milene Duenha, Universidade Estadual do Paraná
(UNESPAR) e Rafaela Blanch Pires, Universidade Federal de Goiás
(UFG).
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
3
Editorial do Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Giorgio Gislon1 | Stephan Baumgartel2 | Marina Guzzo3 |
Marina Fraga4 | Milene Duenha5 | Rafaela Blanch Pires6
As mudanças climáticas produzem desastres ambientais e sociais cada vez
maiores e mais frequentes. Para evidenciar essas mudanças em sua interação com
o ser humano, o nome Antropoceno foi proposto como denominação de uma nova
época geológica definida pelo impacto humano na geofísica do planeta. Esse
1 Pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
Bolsista de pós-doutorado do CNPq. Doutorado em Teatro pela UDESC. Mestrado em Artes Cênicas pela Leiden University,
Holanda. Mestrado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Graduação em Teatro pela UDESC.
Graduação em Letras Português pela UFSC. Prof. Dr. da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
giorgiogislon@gmail.com http://lattes.cnpq.br/3399458434426385 https://orcid.org/0000-0003-3744-5305
2 Pós-doutorado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutorado pela Universidad Nacional de
Colômbia Bogotá (UNAL). Doutorado em Literatura da Língua inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Mestrado em Letras Inglesa pela Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU) Alemanha. Mestrado
profissional em Segundo Staatsexamen Lehramt Gymnasium - Secretaria de Educação do Estado Berlim (SECBERLIM) -
Alemanha. professor titular da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) na área de história do teatro, estética
teatral e dramaturgia. stephao08@yahoo.com.br
http://lattes.cnpq.br/8439378198120294 https://orcid.org/0000-0002-7769-1108
3 Pós-Doutorado pela Freie Universität Berlin, FUB, Alemanha. Pós-Doutorado pela
Universidade de São Paulo (USP). Doutorado e Mestrado em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC/SP). Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, (PUC-Campinas). Graduação
em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Profa. Associada da Universidade Federal de São
Paulo (UNIFESP). marina.guzzo@unifesp.br
http://lattes.cnpq.br/5559657064845007 https://orcid.org/0000-0001-5523-3037
4 Doutorado e Mestrado em Arte e Cultura Contemporânea pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ). Artista, pesquisadora e professora adjunta no Depto. de Artes Visuais Escultura da Escola de Belas
Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Colaboradora no Programa de Pós-graduação em
Artes Visuais da UFRJ, na linha Poéticas Interdisciplinares. marinafraga00@eba.ufrj.br
http://lattes.cnpq.br/2013924313703633 https://orcid.org/0000-0001-9930-2612
5 Doutorado e Mestrado em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Licenciada em Artes Visuais
pela Faculdade Claretiano, bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina (UeL). Especialização em
Artes visuais / Arte educação UeL. Graduação - Licenciatura em Artes Visuais.
Claretiano Rede de Educação, CRE, Brasil. Graduação em Artes Cênicas.
UeL. Profa. Titular no curso de Licenciatura em Dança na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) - campus Curitiba
II. miduenha@yahoo.com.br http://lattes.cnpq.br/5227467362015897 https://orcid.org/0000-0002-2316-0408
6 Doutorado em Design pela Universidade de São Paulo (USP). Mestrado em Têxtil e Moda pela USP. Graduação em
Bacharelado em Moda e Estilismo pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduação em Letras-
Alemão, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Profa. Efetiva do curso de Direção de Arte e Teatro Licenciatura,
bem como, do Programa de Pós Graduação em Artes da Cena da Universidade Federal de Goiás (UFG). Coordena também
o projeto de pesquisa AdaLab: Estudo da Forma e da Interatividade nas Artes da Cena através de Meios Digitais, além do
projeto de extensão "Trama: Caracterização, Figurino, Teatralidade e Performatividades". rafaela.pires@ufg.br
http://lattes.cnpq.br/5634631010017373 https://orcid.org/0000-0002-9260-4033
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
4
conceito ultrapassou as fronteiras dos debates científicos e circula agora nas
discussões das ciências humanas e nas notícias das mídias liberais. o termo
Capitaloceno, que ainda não é tão difundido, identifica diretamente o modo de
produção capitalista como o responsável por essa nova época geológica na qual
estamos vivendo. Diante do Capitaloceno, a ação política global urgente para
diminuir o impacto da poluição industrial sobre o planeta depende, todavia, de
acordos políticos negociados lentamente. Acordos que muitas vezes são
sabotados por governantes e corporações multinacionais cujo objetivo de gerar
lucro desmente preocupações com o futuro do planeta, com o futuro da
humanidade e com o futuro dos seres mais-que-humanos.
No ano de 2025 aconteceu a COP 30 (Conferência das Partes) da ONU
(Organização das Nações Unidas) em Belém do Pará - a primeira COP no Brasil. O
evento, que teve muitos debates interessantes sobre avanços no que seria um
possível "mapa do caminho” para a futura eliminação do uso de combustíveis
fósseis no planeta, deixa evidente a contradição estrutural entre os compromissos
climáticos globais e a permanência do poder político-econômico das grandes
empresas. Embora a conferência seja apresentada como um espaço de
negociação multilateral para limitar o aquecimento global, estudos recentes
mostram que o lobby das corporações petrolíferas têm se intensificado dentro
das COPs, moldando agendas, atrasando regulamentações e promovendo
estratégias de transição que preservam seus interesses. Na COP 28, por exemplo,
houve recorde de representantes ligados à indústria fóssil, e na COP 30 parece que
essa também foi uma tendência, dada a dependência econômica regional da
exploração de petróleo e gás na Amazônia e seu entorno. Essa presença
corporativa cria um paradoxo: enquanto os países discutem caminhos para o fim
dos combustíveis fósseis, as próprias empresas responsáveis pela maior parte das
emissões participam ativamente das decisões, promovendo soluções tecnológicas
e mecanismos de compensação que prolongam sua relevância e adiam o declínio
do setor. Por isso, é impossível pensar em tratar o tema das mudanças climáticas
sem olhar para as questões políticas e econômicas que regem o planeta. Ao
propormos como título do dossiê Artes Vivas diante do Antropoceno/Capitoloceno
nós, como pessoas editoras, gostaríamos de evidenciar essa relação da destruição
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
5
com o sistema econômico ligado ao capitalismo.
Diante do Antropoceno/Capitaloceno, colocamos na convocatória do dossiê
as seguintes questões: qual seria o papel crítico e criativo das artes vivas? Que
relações têm e podem ter as práticas do corpo e da cena com projetos que dão
visibilidade e sensibilizam sobre o Antropoceno/Capitaloceno? Quais práticas
formais, temáticas e/ou metodológicas de criação artística são realizadas em
diálogo com uma perspectiva ecológica? Quais práticas pedagógicas de artes vivas
ambientalmente implicadas estão sendo realizadas? Como imaginar e inventar
artisticamente outras relações com as vidas animais, vegetais, fúngicas e
humanas? Quais ações no campo das artes germinam outros mundos?
A partir dessas questões, o dossiê recebeu artigos, relatos e dramaturgias de
pessoas artistas, pesquisadoras e professoras. Os textos recebidos e selecionados
são provenientes de diferentes experiências, paisagens e territórios e demonstram
a diversidade e a complexidade das pesquisas nesse campo.
Pela variedade dos textos recebidos, podemos perceber que o campo de
pesquisas sobre as artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno é atravessado por
uma série de questões ontológicas. As pesquisas são caracterizadas por se
interrogarem o que é a crise climática, o que são artes vivas e o que seria o próprio
conceito de Antropoceno ou Capitaloceno. Inclusive, com questionamentos das
lógicas coloniais e propostas de aprofundamento da crítica através de conceitos
como Plantationceno, que implica a monocultura da colonização como fundante
da catástrofre climática, e Negroceno, que implica a lógica escravista como
fundante do desastre ambiental. A partir desses pontos de vista, a questão do
Antropoceno/Capitaloceno não pode ser desvinculada da questão da justiça social.
Refugiados climáticos e racismo ambiental passam a se tornar conceitos de
conhecimento obrigatório para aqueles que querem discutir a questão à altura da
sua relevância histórico-geológica.
Assim, os textos publicados nos dois números de dossiê se caracterizam
por terem temáticas interdisciplinares e por terem uma multiplicidade de modos
de relatar e teorizar práticas de pesquisa implicadas com os mais-que-humanos,
com as culturas não antropocentradas e com os territórios. No segundo número
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
6
do dossiê, temos os seguintes textos:
O artigo “Sonhar em ato: proposições performativas para dançar a
profundidade onírica” é apresentado por Giovanna Malpighi e Bianca Scliar Cabral.
As autoras investigam a experiência do sonho a partir de uma abordagem
transdisciplinar que articula artes performativas, filosofia e neurociência. O texto
parte de um laboratório em movimento dedicado às enunciações do sonhar e
dialoga com a teoria neurofenomenológica de Solomonova e Wei (2016), bem como
com as reflexões de María Zambrano sobre a dimensão onírica da razão. A partir
dessas referências, as autoras desenvolvem uma pesquisa voltada à criação de
proposições performativas para corpos sonhantes, explorando o sonho como um
campo de investigação estética e corporal. A profundidade onírica é compreendida
como protagonista de processos criativos que emergem do afeto corporificado,
sugerindo modos de dançar e pensar o sonho para além de sua dimensão
exclusivamente mental.
Em “Aparições: estudos estranhos e corpos emergentes frente às violências
do Antropoceno”, André Bocchetti propõe pensar o estudo como uma prática
especulativa capaz de criar e desmontar corpos, abrindo espaço para modos de
vida que resistem à insensibilidade produzida pelo Antropoceno. Mais do que um
procedimento intelectual, estudar aparece no texto como uma prática de
emaranhamento, um modo de construir socialidades entre humanos e outros-
que-humanos. A partir de uma abordagem de pesquisa-criação, o autor investiga
as condições de surgimento das chamadas aparições criaturas fabuladas que
emergem da relação entre corpos, vestígios e narrativas. Essas figuras não são
apenas imagens ou personagens, mas formas de presença que carregam estórias
e experiências capazes de deslocar percepções sobre o mundo contemporâneo.
Ao acompanhar esses processos de emergência, o artigo sugere que as aparições
funcionam como dispositivos sensíveis para imaginar e experimentar outras
maneiras de existir em meio às ruínas de nosso tempo. Entre práticas vestigiais,
fabulações e experimentações corporais, o estudo torna-se, assim, um campo de
invenção compartilhada, onde novas formas de relação entre corpo, memória e
ambiente podem surgir como gestos de resistência diante das violências
ecológicas e políticas do presente.
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
7
O artigo “Compostagem para um solo fértil: processo e poética no
espetáculo galhada” de Alice Stefânia Curi apresenta aspectos do processo de
criação da peça solo galhada, em tempos de fissura, desenvolvida a partir de um
trabalho colaborativo que articulou diferentes campos da cena, como dramaturgia,
visualidade, atuação, movimento e sonoridade. A autora propõe a metáfora da
compostagem para pensar essa criação coletivizada, na qual as funções artísticas
deixam de ser estanques e passam a se misturar, permitindo que matérias,
perspectivas e alteridades inventivas e críticas se atritem e se transformem em
uma espécie de “humosidade cênica”. Essa imagem dialoga diretamente com a
temática do espetáculo, que aborda os processos de devastação em curso no
Antropoceno. Em cena, a obra mobiliza princípios de dramaturgia atorial e
elementos da peça-palestra, configurando uma poética performativa que coloca
em fricção pesquisa corporal, música ao vivo, sons pré-gravados e imagens em
vídeo, compondo um dispositivo cênico híbrido que articula reflexão, presença e
experimentação sensorial.
“Jeroky: gesto de um corpo filosófico”, de Irene Milhomens, parte da reflexão
sobre o termo guarani jeroky, frequentemente traduzido como dança, mas que
carrega um sentido mais amplo e complexo do que aquele presente nas
concepções ocidentais de movimento. A autora investiga jeroky como um gesto
que articula pensamento, corpo e conhecimento, propondo o amor pelo saber
como uma postura simultaneamente filosófica e poética, marcada pela abertura
ao espanto, à surpresa e à experiência da queda. Nesse horizonte, emerge a noção
de corpopensamento, entendido como uma forma de pensamento encarnado que
produz movimento e criação. Assim, jeroky aparece como um broto que se faz
surgir, um movimento flexível e vivo que nasce da relação entre corpo,
sensibilidade e mundo, configurando uma prática que desloca fronteiras entre
filosofia, dança e experiência existencial.
“O que dizem as aranhas: educação somática e presença vital”, de Dani Lima,
propõe uma reflexão sobre a importância de uma educação somática capaz de
reconectar o corpo com seus próprios saberes, considerando suas materialidades
e sensibilidades como fontes de conhecimento. A autora argumenta que essa
reconexão pode ativar um erotismo vital, entendido como uma força criadora
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
8
capaz de abrir novos modos de existência para além daqueles estabelecidos pela
tradição civilizatória moderna. O texto desdobra questões desenvolvidas em sua
tese de doutorado, investigando como uma poética performativa da matéria
corpórea pode contribuir tanto para o pensamento quanto para a arte
contemporânea. Dani Lima propõe uma abordagem que articula anatomia,
corporalização e saber celular como caminhos para uma educação somática
comprometida com a transformação das formas de presença e de atuação do
corpo no mundo. O artigo sugere que práticas corporais e artísticas podem operar
como gestos micropolíticos capazes de reconfigurar as relações entre corpo,
ambiente e modos de vida, tanto no campo da cena quanto nas experiências
cotidianas.
Em “Corpo-território em denúncia: artes vivas de insurgência Amazônida
contra o Antropoceno/Capitaloceno”, José Raphael Brito dos Santos e Karina
Mateus da Silva analisam o processo de criação da performance Aparição
Vomitada, realizada na cidade de Itaituba (PA). Situada no contexto da chamada
“cidade pepita” e do discurso recorrente “garimpeiro não é bandido, é trabalhador”,
a pesquisa investiga as tensões entre corpo e cidade na Amazônia urbana,
evidenciando como práticas artísticas podem operar como formas de denúncia e
resistência diante das dinâmicas extrativistas que marcam o território. Vomitar
emerge como uma ação estética e política de recusa, capaz de tensionar as
narrativas hegemônicas que sustentam o imaginário do progresso associado ao
garimpo. Essa contribuição evidencia como as artes da cena amazônidas podem
produzir formas de pensamento e sensibilidade que denunciam os impactos da
devastação ambiental e afirmam outras possibilidades de relação entre corpo e
território.
Em “Quando a chuva passou: enchentes no Rio Grande do Sul e
desdobramentos curriculares”, Eriam Roberto Schoenardie traz um relato reflexivo
diante de sua atuação junto a estudantes de ano do Ensino Fundamental no
cenário específico pós-enchentes no Rio Grande do Sul. A discussão trazida
entrelaça as escolhas curriculares e o contexto atual abordando questões como
hierarquias de classe, desigualdades sociais e justiça ambiental. A partir da
apresentação e reflexão de práticas desenvolvidas em sala de aula, o autor reforça
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
9
a necessidade de investimento pedagógico para ampliar a compreensão e visão
crítica das/os estudantes acerca de sua própria condição social, do contexto em
que se inserem e das reverberações da ação humana em relação às desigualdades
sociais e prejuízos ambientais.
No artigo “Imaginando corporeidades vulneráveis no Capitaloceno: a criação de
2415 e Movimentos Tentaculares”, Marcela Pereyra Páez e Juliana M. R. de Moraes
discorrem sobre estes processos de pesquisa e criação em dança relacionados
com não humanos. Movimentos Tentaculares é uma pesquisa em prática de
movimento a partir das minhocas e das referências de Klauss Vianna, Martha
Graham e Zélia Monteiro. 2415 é o espetáculo criado a partir da pesquisa de
movimento que se caracterizou pelo uso de um cenário com grandes mantas
plásticas e pelo figurino com doze tentáculos acoplados ao corpo da performer.
O relato intitulado “Práticas performativas para perceber e responder ao
Antropoceno no ensino fundamental”, de Giorgio Zimann Gislon, expõe uma
experiência de estágio que utilizou como metodologia a concepção triangular de
ensino da arte, de Ana Mae Barbosa, e diferentes referências artísticas, a exemplo
de Francis Alÿs. As atividades desenvolvidas levantaram as perguntas sobre as
potencialidades e os problemas de refazer performances na escola e como
conciliar a transgressão inerente à prática de performance com as regras do
ambiente escolar.
Em “Perceber-fazer florestas com mesas de trabalho em tempos de ruínas e
precariedades”, Susana Oliveira Dias, Tiago Amaral Sales, Emanuely Miranda e
Mariana Vilela nos apresentam o relato de uma experiência artística que busca
aguçar nossa percepção do funcionamento de florestas para criar propostas
cênicas performativas chamadas “mesas de trabalho”. Estas mesas propõem
experimentar um funcionamento simbiótico em uma proliferação de múltiplos
modos de existir junto a partir de contextos cotidianos. O relato leva os leitores
para uma vivência artística que documenta as possibilidades artísticas nela
vivenciadas como tentativas de borrar a fronteira entre ser humano e o mundo
animal e vegetal, num gesto ao mesmo tempo lúdico e reflexivo.
Em “Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno”,
Editorial
Dossiê Artes vivas e o Antropoceno/Capitaloceno II
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-10, dez. 2026
10
Francisco de Paulo D’Avila Junior apresenta o Projeto Respiradores, como prática
artístico-pedagógica voltada a estudantes do Ensino Fundamental II. O projeto tem
a importância de propor práticas que integram arte, educação e sustentabilidade
para o público específico de estudantes e para o espaço específico das escolas. A
metodologia da pesquisa é qualitativa, delineada como estudo de caso,
fundamentada em registros audiovisuais e observações do professor-artista. O
referencial teórico integra a ecosofia de Félix Guattari e os estudos da performance
de Richard Schechner e Gilberto Icle. O projeto possibilita que grupos de
estudantes tenham uma experiência de artes ciências com sensibilidade crítica,
consciência ecológica e engajamento coletivo.
A dramaturgia
Jasão Vegetal Corpo Adubo”
, de Stephan Baumgärtel,
apresenta uma releitura do mito grego de Jasão, que na concepção clássica narra
a jornada patriarcal de Jasão em busca da conquista de uma relíquia, o Velocino
de Ouro, para ascender a um trono real ocupado pelo seu tio, Pélias. Na releitura
apresentada pelo autor, Jasão possui características de coach redpill pós-
moderno e as elucubrações dúbias desse homem são comentadas por uma
dimensão Vegetal, que observa o debater-se e justificar-se do herói com o
distanciamento de quem apenas espera seu corpo morto virar adubo.
Recebido em: 15/04/2026
Aprovado em: 15/04/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br