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Quando o teatro é uma arte
Edélcio Mostaço
Para citar esta Resenha:
MOSTAÇO, Edélcio. Quando o teatro é uma arte.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v. 1, n. 57, p.1-7, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0801
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
Quando o teatro é uma arte
Edélcio Mostaço
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
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Resenha da obra
MACEDO, Manuel de.
A arte no teatro
, organização e notas de Walter Lima
Torres Neto. Curitiba: Editora da UFPR, 2021. 160 p.
Quando o teatro é uma arte
Edélcio Mostaço
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
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Quando o teatro é uma arte
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Edélcio Mostaço2
Resumo
A resenha contempla a obra
A arte do teatro
, texto de Manuel de Macedo que
detalha em pormenores as práticas e preceitos que regiam a atividade cênica em
Portugal e no Brasil na segunda metade do século 19. Ela foi publicada como o 44º
fascículo da Biblioteca dos Povos e das Escolas, em 1884, coleção de livretos
destinados a introduzir o leitor em um certo universo de conhecimento. A atual
edição, organizada por Walter Lima Torres Neto, é complementada com um prefácio
de Guilherme Felipe e um posfácio de João Roberto Faria, estudiosos que situam e
esclarecem o leitor contemporâneo sobre os pormenores do escrito original.
Palavras-chave
: Teatro. Século 19. Vida teatral. Teatro brasileiro.
When theater is an art
Abstract
This review examines the work
The Art of Theatre
, a text by Manuel de Macedo that
details the practices and precepts governing theatrical activity in Portugal and Brazil
during the second half of the 19th century. It was published as the 44th fascicle of
the Biblioteca dos Povos e das Escolas (Library of Peoples and Schools) in 1884, a
collection of booklets intended to introduce the reader to a certain universe of
knowledge. The current edition, organized by Walter Lima Torres Neto, is
complemented by a preface by Guilherme Felipe and an afterword by João Roberto
Faria, scholars who situate and clarify the details of the original text for the
contemporary reader.
Keywords
: Theatre. 19th century. Theatrical life. Brazilian theatre.
Cuando el teatro es un arte
Resumen
Esta reseña examina la obra
El Arte del Teatro
, un texto de Manuel de Macedo que
detalla las prácticas y preceptos que regían la actividad teatral en Portugal y Brasil
durante la segunda mitad del siglo XIX. Fue publicado como el fascículo 44 de la
Biblioteca dos Povos e das Escolas (Biblioteca de Pueblos y Escuelas) en 1884, una
colección de folletos destinada a introducir al lector en un universo de conocimiento.
La presente edición, organizada por Walter Lima Torres Neto, se complementa con
un prefacio de Guilherme Felipe y un epílogo de João Roberto Faria, académicos que
sitúan y aclaran los detalles del texto original para el lector contemporáneo.
Palabras clave
: Teatro. Siglo XIX. Vida teatral. Teatro brasileño.
1 Revisão ortográfica e gramatical da resenha foi realizada pelo próprio autor.
2 Professor Sênior do PPGAC-Udesc. Professor Titular aposentado da Universidade do Estado de Santa
Catarina. Pesquisador do CNPq. Entre seus últimos livros estão:
Incursões & excursões
(Teatro do Pequeno
Gesto, 2018);
Cena e ficção em Aristóteles: uma leitura da Poética
(Appris, 2020) e
Grafos: escritos nômades
sobre a cena
(Teatro do Pequeno Gesto, 2024). hateatro33@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/5151925947504672 https://orcid.org/0000-0001- 6838-338X
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Todos os que trabalham com o teatro brasileiro bem conhecem as
dificuldades em se reunir informações seguras e pormenorizadas relativas às
práticas e à vida cênica ao longo do século 19. Embora contemos com diversos
estudos realizados sobre este campo, ainda subsistem lacunas e faltam
informações mais pormenorizadas envolvendo os detalhes do dia a dia nos palcos,
as técnicas de atuação empregadas, a construção e o manejo da cenografia, os
colaboradores artísticos indispensáveis e as relações interpessoais entre a gente
de palco. Todos estes aspectos não são marginais, pois evidenciam a natureza
mesma da atividade em suas minúcias, especificam o que era a cultura teatral de
então e abarcam aquilo que os franceses designavam como
métier
os ossos e
glórias do ofício.
Com a iniciativa tomada pelo pesquisador Walter Lima Torres Neto podemos
conhecer agora, com ampla riqueza de detalhes, aspectos ainda obscuros ou
pouco explorados de tais práticas de palco, através da publicação de
A arte do
teatro
, opúsculo creditado a Manuel de Macedo e originalmente vindo a lume em
1884. O responsável pela organização da obra atualizou a grafia e acrescentou
notas muito esclarecedoras ao texto, além de um amplo prefácio preparado pelo
estudioso português Guilherme Felipe e um posfácio da autoria de João Roberto
Faria que desvendam, em pormenores, as particularidades e a agudeza das
observações contidas no escrito original e aspectos da dramaturgia em curso na
segunda metade daquele século. São razões de sobra pelas quais a publicação
deve ser saudada com entusiasmo e reconhecida como enriquecedora
contribuição à nossa historiografia teatral.
Inaugurado em 1813 por d. João VI no Largo do Rocio, no Rio de Janeiro, após
a criação do Vice-reinado do Brasil, o Real Theatro São João implicou em uma
radical mudança nas práticas cênicas até então correntes no país, com as
continuadas visitas de companhias portuguesas, francesas e italianas animando
seu palco e injetando novos hábitos de entretenimento para a corte e a população
da cidade. Considerado o primeiro ator brasileiro, João Caetano herdou muito
daqueles hábitos internacionais ali cultivados e criou em 1833, em Niterói, a
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primeira companhia cênica formada exclusivamente por artistas nacionais, ao
estrear o drama
O príncipe amante da liberdade ou a independência da Escócia
.
Em 1838 subiu à cena
O juiz de paz da roça
, de Martins Pena, recebida como
a primeira comédia de costumes e um marco romântico entre nós. Tendo visitado
a Comédie-Française e absorvido muito dos preceitos ali mantidos, João Caetano
orientou seu elenco quanto ao desenvolvimento daqueles ensinamentos,
registrados em dois escritos sobre a arte de representar:
Reflexões Dramáticas
,
de 1837, e
Lições Dramáticas
, de 1862. São as informações mais seguras sobre em
que consistia a vida teatral brasileira na primeira metade do século 19, percebidas
por um olhar de dentro dos palcos.
Manuel de Macedo (1839-1915), que não deve ser confundido com o autor de
A moreninha
, foi cenógrafo, desenhista, pintor e caricaturista português de
nomeada nos palcos de seu tempo, com formação erudita e presença ativa nas
casas de espetáculos de Lisboa e do Porto, bem como em publicações gráficas
locais. A Biblioteca do Povo e das Escolas, na qual o opúsculo foi lançado, foi uma
iniciativa editorial de David Corazzi em sintonia com as ações governamentais
conduzidas com a intenção de alargar a instrução pública e estimular o caminho
para a iniciação de qualquer um que se interessasse pelos estudos, sendo
divulgada quer em Portugal quer no Brasil. Eram livretos introdutórios que
apresentavam as linhas gerais de cada área enfocada, como a agricultura, a
indústria, o comércio e os ofícios artísticos. Para a mesma coleção, Macedo
escreveu também o volume
Arte dramática
, no ano seguinte, além de alguns
títulos de importância voltados às artes visuais.
Com o intuito de esclarecer “o público nos segredos da difícil arte de
combinar espetáculos”, o texto de Manuel de Macedo se alinha com a filosofia
positivista de Teófilo Braga que dominava a época, explorando com imagens
vívidas e pormenores técnicos todos os passos para o planejamento e a execução
de um espetáculo, iniciando pela cenografia e seus efeitos de ilusão de óptica,
através de telões, traineis, pernas e bambolinas habilmente colocados em
perspectiva e com o indispensável tratamento de pintores especializados. Tal
construção e sua operação demandavam artífices treinados nessa arte,
conformando um coletivo trabalhando em equipe. Cada fase da construção é
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esmiuçada no livreto, bem como descritas as máquinas e as manobras
coordenadas entre os maquinistas de palco.
A iluminação ocupa o capítulo seguinte. A ela estão combinados os efeitos
cenotécnicos, artifícios e ilusões cênicas responsáveis por encherem a vista do
espectador e fazê-lo deliciar-se com as surpresas e a inventividade, especialmente
quando as produções eram de mágicas e musicais. Os ruídos e os fenômenos
naturais implicam na mobilização de amplo aparato de recursos, igualmente
apontados e descritos em pormenores.
A visualidade e a caracterização dos intérpretes mereceram muitas páginas,
com observações precisas sobre as perucas, cabeleiras, barbas, maquiagem,
figurinos e calçados para atores e atrizes, além de seus adereços, próprios à
natureza de cada espetáculo apresentado. Completa o volume um apanhado
bastante atento sobre a arte da “elaboração cênica”, termo por ele traduzido para
designar a
mise-en-scène
, aquela expressão francesa que frequentava
assiduamente o vocabulário dos profissionais e que rapidamente se espalhava por
toda a Europa, capitaneada, naquela quadratura de tempo, pelo “ensaiador
dramático”, um artista hábil e preparado capaz de orquestrar toda a soma de
elementos que levassem à concretização da obra.
Os aspectos financeiros e econômicos que orbitam o universo cênico ocupam
o capítulo final, detalhando custos e dificuldades de produção, bem como
diretrizes que deveriam reger a escolha do repertório e instaurar uma verdadeira
política para a ampliação e engrandecimento da arte teatral em geral.
Como destaca o prefácio de Guilherme Felipe, “Macedo partilhava o espírito
contemporâneo de reflexão sobre a realidade pitoresca do mundo, documentada
pelo estudo científico, sociológico, etnográfico, que visava materializar na obra
escrita, musical ou pictórica uma idealização moral de valores estéticos [...] da arte
como pedagogia social”.
O raciocínio de Macedo não se esquiva de invocar duas constantes nos
assuntos atinentes aos palcos desde muito tempo: a necessidade de formar
uma plateia culta em sintonia com o progresso da civilização que o teatro almeja
e materializa; e a decadência da cena lusa que então se observava relativamente
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a outros países, nos quais o teatro gozava do mais alto prestígio. Como ecos dessas
cogitações, são bem conhecidos entre nós os reclamos que estas mesmas
advertências reverberam nas intervenções de José de Alencar, Machado de Assis
ou Arthur Azevedo.
Para os pesquisadores, é útil salientar que a Biblioteca dos Povos publicou na
área do teatro, além dos títulos de Macedo, o importante volume
Manual do
ensaiador dramático
, de Augusto de Mello, completando um panorama
testemunhal de informações e detalhes concernentes às práticas cênicas que
regeram e vigoraram em Portugal e no Brasil – no nosso caso, se estendendo até
a década de 1940.
Recebido em: 11/01/2026
Aprovado em: 12/01/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
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