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Da repetição ao laudo: arte, desempenho e
medicalização do fracasso escolar
Tiago Cruvinel
Para citar este artigo:
CRUVINEL, Tiago. Da repetição ao laudo: arte, desempenho
e medicalização do fracasso escolar.
Urdimento
Revista
de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.1, n.57,
abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0207
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Tiago Cruvinel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-16, abr. 2026
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Da repetição ao laudo: arte, desempenho e medicalização do fracasso escolar1
Tiago Cruvinel2
Resumo
O artigo analisa a vídeo-performance
Dance or Exercise on the Perimeter of a Square
(1968), de Bruce Nauman, deslocando a repetição da leitura do esgotamento para a
pulsão de vida, à luz de Freud. Em diálogo com a arte queer do fracasso, de Jack
Halberstam, a repetição improdutiva é lida como recusa aos imperativos de
progresso e desempenho. O texto articula essa perspectiva ao campo educacional,
problematizando avaliação, adoecimento psíquico e medicalização. Com apoio em
Han, Foucault e Preciado, defende o fracasso como categoria pedagógica
emancipatória.
Palavras-chave
: Fracasso. Performance. Avaliação escolar. Medicalização. Ensino de
arte.
From repetition to diagnosis: art, performance, and the medicalization of academic
failure
Abstract
This article analyzes the video performance
Dance or Exercise on the Perimeter of a
Square
(1968) by Bruce Nauman, shifting repetition from a reading centered on
exhaustion toward the life drive, in light of Freud. In dialogue with Jack Halberstam’s
queer art of failure, unproductive repetition is interpreted as a refusal of the
imperatives of progress and performance. The text articulates this perspective with
the educational field, questioning assessment, psychological distress, and
medicalization. Drawing on Han, Foucault, and Preciado, it defends failure as an
emancipatory pedagogical category.
Keywords
: Failure. Performance. School assessment. Medicalization. Art education.
De la repetición al diagnóstico: arte, desempeño y medicalización del fracaso escolar
Resumen
El artículo analiza la video-performance
Dance or Exercise on the Perimeter of a
Square
(1968), de Bruce Nauman, desplazando la repetición de una lectura centrada
en el agotamiento hacia la pulsión de vida, a la luz de Freud. En diálogo con el arte
queer del fracaso, de Jack Halberstam, la repetición improductiva es leída como una
negativa a los imperativos del progreso y del desempeño. El texto articula esta
perspectiva con el campo educativo, problematizando la evaluación, el sufrimiento
psíquico y la medicalización. Con el apoyo de Han, Foucault y Preciado, se defiende
el fracaso como una categoría pedagógica emancipadora.
Palabras clave:
Fracaso. Performance. Evaluación escolar. Medicalización. Enseñanza
del arte.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada pelo autor.
2 Pós-Doutorado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pós-Doutorado
em Artes Cênicas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Pós-Doutorado
em Teatro na École Supérieure de Théâtre - Université du Québec à Montréal (UQÀM, Canadá). Pós-
Doutorado em Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Doutorado e Mestrado
em Artes pela Universidade de Brasília (UnB). Graduação em Interpretação Teatral pela UnB. Licenciatura em
Artes Cênicas pela UnB. Professor de Artes do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). Atua também como
docente no Programa de Pós-Graduação em Artes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de
Minas Gerais (EBA-UFMG) e no Programa Mestrado Profissional em Artes (ProfArtes) da UFMG.
tiago.brito.cruvinel@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1147264803853400 http://orcid.org/0000-0002-1808-0753
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Introdução
Durante uma aula de Arte com estudantes do ensino médio, apresentei a
vídeo-performance
Dance or Exercise on the Perimeter of a Square
(
Square Dance
)
(1968), de Bruce Nauman3, obra emblemática de sua produção no final da década
de 1960, período em que o artista passa a utilizar o próprio corpo como material
de investigação estética. Inserida no contexto da arte conceitual e das experiências
performativas minimalistas, a obra desloca o foco da expressão subjetiva para
procedimentos reiterativos, ações ordinárias e restrições espaciais como motores
da experiência artística.
Na performance, Nauman inicia sua ação em um dos cantos de um quadrado
desenhado no chão e, ao som regular de um metrônomo, um passo em direção
ao centro e retorna ao vértice de origem. Esse gesto é repetido sucessivamente,
enquanto o artista percorre o perímetro do quadrado em um ciclo contínuo.
Segundo Will Gompertz (2013), essa dinâmica reiterativa pode ser lida como uma
metáfora da própria vida, marcada pela insistência, pela rotina e pela constância
temporal que estrutura a experiência cotidiana.
Embora a repetição elemento central da obra seja frequentemente
associada a processos de aprisionamento, desgaste ou exaustão, defendo aqui
uma leitura distinta dessa dinâmica. Para isso, mobilizo a psicanálise freudiana,
especialmente as reflexões apresentadas por Sigmund Freud em
Além do
princípio do prazer
(2025), texto, escrito em 1920, no qual o autor complexifica a
compreensão sobre o funcionamento do desejo, do sofrimento e da própria vida
psíquica.
Nesse ensaio, Freud observa que nem todo comportamento humano se
organiza em torno da busca do prazer e da evitação do desprazer, como ele próprio
havia proposto inicialmente. Ao analisar fenômenos como os sonhos traumáticos,
os jogos infantis de repetição e certas condutas clínicas marcadas pela insistência
no sofrimento, Freud (2025) formula a hipótese da existência de duas forças
3 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BE9Dxj5ylp0. Acesso em: 8 dez. 2025.
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pulsionais fundamentais: a pulsão de vida (Eros), ligada à preservação, à ligação, à
criação e à continuidade; e a pulsão de morte (Tânatos), associada à tendência à
destruição, à descarga absoluta de tensão e ao retorno a um estado inorgânico.
É nesse contexto que a repetição ganha um estatuto ambíguo: ela pode estar
a serviço da destruição, quando o sujeito se prende compulsivamente a
experiências traumáticas, mas também pode operar como um princípio de
organização do aparelho psíquico, funcionando como uma tentativa de dar forma,
contorno e inteligibilidade ao que é da ordem do excesso pulsional. Repetir, nesse
segundo caso, não significa sucumbir à morte, mas criar condições mínimas para
a sustentação da vida psíquica.
A repetição como experiência formativa do corpo
A partir dessa chave de leitura, proponho compreender a repetição presente
na performance de Bruce Nauman menos como expressão de uma pulsão de
morte e mais como manifestação da pulsão de vida. O gesto insistente, ritmado e
contido do artista não aponta para um colapso do corpo, mas para uma operação
de estabilização das tensões internas dentro de limites claramente definidos. Ao
submeter o movimento a uma cadência regular e a um espaço delimitado, a ação
performativa constrói uma espécie de moldura simbólica para o excesso pulsional,
revelando a disciplina e a constância não como formas de anulação da vida, mas
como dimensões possíveis de sua sustentação.
A princípio, a obra remete ao imaginário fabril consagrado em
Tempos
Modernos
(1936), de Charles Chaplin, no qual o corpo é capturado por uma lógica
mecânica e produtiva. Entretanto, diferentemente do operário chapliniano, cuja
repetição conduz ao colapso físico e psíquico, a repetição em Nauman não visa à
produtividade nem à eficiência. Ela não é acelerada, nem descontrolada ou
compulsiva. Trata-se de um gesto ritmado, deliberado, sustentado no tempo. O
artista não sucumbe à repetição: ele se mantém nela.
Em
Para além do princípio do prazer
, Freud (2025) demonstra que a repetição
não se limita a um único registro pulsional, mas constitui um campo de
ambivalência no qual tanto a pulsão de vida quanto a de morte se entrelaçam.
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Ainda assim, é possível reconhecer formas de repetição que operam como
princípio de organização, regulação e continuidade da vida psíquica. Nesse sentido,
a ação de Nauman parece situar-se nesse segundo eixo: não aceleração que
leve ao esgotamento, mas uma constância que sustenta. A ausência de progressão
não implica estagnação, mas a construção de uma estabilidade possível.
O quadrado traçado no chão pode ser interpretado, em chave metafórica,
como um campo delimitado de contenção dos impulsos, no qual os movimentos
do corpo se organizam sem transbordamento. O artista jamais ultrapassa as
bordas desse espaço, reforçando uma dinâmica de limite e de enquadramento.
Não se trata de supressão da liberdade, mas do reconhecimento de que certos
limites são justamente aquilo que torna a permanência possível. A repetição, nesse
contexto, não opera como penitência, mas como forma de submeter o impulso
espontâneo do corpo ao princípio de realidade.
Essa leitura se tensiona com uma sensibilidade contemporânea
frequentemente marcada pela valorização do excesso, do risco e da intensidade
como signos de uma vida considerada autêntica. Em muitos discursos atuais,
repetir passa a ser associado ao empobrecimento da experiência, e a constância,
à estagnação. A obra de Nauman, contudo, convida a problematizar esse
imaginário. Talvez a vitalidade não resida exclusivamente no excesso, mas também
na capacidade de sustentar ritmos, limites e continuidades.
No contexto pedagógico, a exibição da obra performática, na disciplina de
Arte/Artes Cênicas, aos estudantes produziu leituras inicialmente associadas ao
cansaço e ao aprisionamento, o que confirma a força desse imaginário cultural
sobre a repetição. A problematização dessa percepção abriu espaço para discutir
outras formas de relação entre corpo, tempo e insistência, permitindo deslocar o
entendimento da repetição do campo estritamente mortífero para um campo
também organizador da experiência.
Assim, a repetição na performance de Nauman pode ser compreendida não
apenas como um ciclo potencialmente destrutivo, mas também como uma forma
de permanência. Ao reiterar o gesto, o artista não apenas se desgasta: ele se
conserva. É nessa constância que se pode entrever uma dimensão da vida que
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não se alimenta unicamente do excesso, mas também do ritmo que torna possível
continuar.
Repetição, pulsão de vida e a arte queer do fracasso
A leitura da repetição na performance de Bruce Nauman como princípio de
sustentação da vida, e não como manifestação prioritária da pulsão de morte,
pode ser ampliada quando colocada em diálogo com o que Jack Halberstam
(2020) denomina de
a arte queer do fracasso
. Para Halberstam (2020), o fracasso
não deve ser compreendido apenas como ausência de êxito, mas como uma
recusa ativa aos roteiros normativos de sucesso, progresso, eficiência e maturação
que estruturam a lógica heteronormativa e capitalista. Fracassar, nessa
perspectiva, torna-se uma estratégia política de resistência aos regimes de
normalização que organizam corpos, tempos e desejos.
Se, na racionalidade neoliberal, repetir sem avançar é geralmente
interpretado como estagnação, improdutividade ou desperdício, a ética
queer
do
fracasso desloca radicalmente essa leitura. A repetição improdutiva, nesse
registro, pode operar como sabotagem simbólica das expectativas de
desempenho e rendimento. Em Nauman, o gesto não evolui, não se resolve, não
culmina em um resultado mensurável. O artista repete sem produzir, insiste sem
progredir, movimenta-se sem alcançar uma finalidade externa à própria ação.
Trata-se, portanto, de uma prática que falha deliberadamente em corresponder
às exigências de eficiência que regem tanto o campo do trabalho quanto, muitas
vezes, o próprio campo da arte.
Essa falha, no entanto, não é sinônimo de esvaziamento. Ao contrário, ela
instaura uma outra economia do corpo e do tempo, na qual a permanência
substitui a superação, e a constância ocupa o lugar do avanço. É nesse ponto que
a repetição em Nauman pode ser pensada como expressão de Eros em chave
dissidente: uma pulsão de vida que não se orienta pela lógica do sucesso, nem
pela compulsão ao crescimento, mas pela capacidade de sustentar a existência
em um regime de baixa intensidade, de insistência mínima e de continuidade sem
promessa de redenção.
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Diferentemente da repetição mortífera descrita por Freud (2025) como
compulsão que reconduz o sujeito aos circuitos do trauma e da destruição, a
repetição em Nauman não aponta para o retorno do mesmo como
aprisionamento. Ela opera, antes, como um modo de organização temporal que
preserva o corpo em movimento dentro de limites claramente definidos. No
registro da arte
queer
do fracasso, essa recusa ao clímax, ao objetivo final e à
progressão heroica pode ser lida como uma forma de desidentificação com os
imperativos normativos que articulam vida, sucesso e valor.
A performance de Nauman, nesse sentido, encena um corpo que insiste sem
se sacrificar ao ideal do desempenho. Ao não produzir nada além do próprio gesto
reiterado, ao não converter esforço em resultado, ao não transformar repetição
em progresso, a obra se afasta das narrativas modernas de superação e
aperfeiçoamento. O fracasso aqui não é
déficit
, mas método. Ele produz uma
suspensão das lógicas dominantes e instaura um tempo outro, um tempo queer,
no qual viver não significa triunfar, mas permanecer.
Assim, a repetição na performance pode ser compreendida simultaneamente
como organização pulsional e como gesto político. Ela conserva o corpo não
apenas biologicamente, mas simbolicamente, ao recusar submetê-lo às
engrenagens do sucesso e da produtividade. Ao falhar em avançar, a obra de
Nauman não se anula: ela instaura, no campo da arte e da experiência, uma
estética da insistência, na qual viver não é vencer, mas continuar.
A arte
queer
do fracasso na educação e no currículo
Ao deslocar a repetição da chave da exaustão para a da sustentação da vida,
e ao articulá-la com a arte
queer
do fracasso, torna-se possível estender essa
reflexão ao campo da educação e do currículo em Arte/Artes Cênicas. No regime
educacional contemporâneo, fortemente atravessado por lógicas neoliberais de
desempenho, produtividade e mensuração de resultados, o fracasso é tratado
quase exclusivamente como déficit, erro ou insuficiência. A escolarização tende a
operar sob imperativos de eficiência, progressão contínua, superação de metas e
aceleração de aprendizagens, produzindo um ambiente no qual errar, repetir sem
avançar ou permanecer em ritmos não normativos é rapidamente patologizado.
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Nessa perspectiva, o fracasso deixa de ser compreendido como experiência
formativa e passa a funcionar como marcador de inadequação. Estudantes que
não acompanham o ritmo esperado, que reiteram gestos, dúvidas ou modos de
fazer, são frequentemente alocados em categorias como atraso, dificuldade de
aprendizagem ou desinteresse. O currículo, de forma geral, por sua vez, organiza-
se majoritariamente segundo uma lógica linear de progressão, na qual a repetição
tende a ser tolerada apenas enquanto etapa provisória rumo ao domínio de
competências, sendo rapidamente substituída pelo avanço, pela eficiência e pela
superação.
A ética queer do fracasso, conforme formulada por Halberstam (2020),
permite tensionar radicalmente esse paradigma. Ao compreender o fracasso não
como ausência de valor, mas como recusa ativa aos roteiros normativos de
sucesso, essa perspectiva abre a possibilidade de pensar a educação para além
dos modelos de rendimento, eficácia e performatividade. O fracasso, nesse
registro, deixa de ser aquilo que deve ser corrigido e passa a ser reconhecido como
espaço de experimentação, desvio e resistência às formas hegemônicas de
aprender, produzir e existir.
Nesse sentido, a repetição improdutiva presente na performance de Nauman
oferece uma potente metáfora para se pensar práticas pedagógicas dissidentes
no ensino de Arte/Artes Cênicas. Como já dito, o gesto que se repete sem avançar,
que insiste sem culminar em um resultado mensurável, tensiona frontalmente a
lógica curricular da progressão contínua. Assim como na performance não
produto final, na pedagogia inspirada por uma ética do fracasso não
necessariamente um ideal de chegada, de domínio pleno ou de eficiência máxima.
O que se sustenta é o processo, a permanência no exercício, o direito de insistir
sem a exigência imediata de sucesso.
Essa leitura permite compreender a repetição, no campo educacional, não
apenas como treino mecânico ou reforço instrumental, mas como tempo de
elaboração, de organização do pensamento, do corpo e da subjetividade. Em
consonância com a leitura freudiana da repetição como operador ambíguo da vida
psíquica, é possível afirmar que certas repetições, longe de serem patológicas,
constituem formas de sustentação da experiência e de estabilidade subjetiva. No
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contexto escolar, isso implica reconhecer que nem todo movimento precisa estar
orientado ao progresso imediato; repetições que preservam, organizam e
tornam possível continuar.
Ao articular repetição, pulsão de vida e fracasso, desloca-se também a
própria noção de vitalidade que atravessa os discursos educacionais. A vitalidade,
frequentemente associada à participação intensa, ao entusiasmo visível, ao
desempenho ativo e à superação constante, pode ser pensada, a partir dessa
chave, como força de permanência, resistência silenciosa e insistência mínima. Há
vidas que se sustentam não no excesso, mas no ritmo baixo, na contenção, na
continuidade discreta e essas vidas também produzem saber, experiência e
sentido.
No campo do ensino de arte, esse deslocamento é particularmente fecundo.
Ao invés de submeter os processos criativos a expectativas de originalidade
espetacular, inovação constante ou resultados expressivos, a arte pode ser
pensada como espaço legítimo da repetição, do inacabamento, da tentativa que
não resolve, do gesto que falha. A Pedagogia das Artes Cênicas, nesse
enquadramento, aproxima-se de uma ética
queer
da aprendizagem: uma ética que
reconhece o erro, o desvio, a improdutividade e o fracasso não como falhas a
serem eliminadas, mas como modos outros de existir no currículo.
Assim, pensar o fracasso como categoria pedagógica
emancipatória/dissidente significa reivindicar, no interior da escola, o direito de não
performar segundo os ideais hegemônicos de sucesso. Significa abrir espaço para
temporalidades não lineares, percursos interrompidos, retornos improdutivos e
processos que não se orientam pela lógica do resultado. Tal perspectiva não nega
a aprendizagem, mas a reinscreve em uma outra economia do tempo, do corpo e
do desejo, mais próxima da sustentação da vida do que da sua otimização.
No cotidiano escolar, esse regime de desempenho não produz apenas efeitos
pedagógicos, mas também impactos profundos no campo afetivo e emocional dos
estudantes. Observa-se, com frequência crescente, uma relação profundamente
adoecida com o erro: uma nota baixa ou mesmo uma nota considerada “não tão
boa”, no caso dos estudantes do Ensino Médio, é capaz de desencadear reações
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de intenso sofrimento, ansiedade, descontrole emocional e sensação de fracasso
existencial. O erro deixa de ser vivido como parte do processo de aprendizagem e
passa a ser experimentado como desqualificação subjetiva.
Esse cenário evidencia uma grave fragilidade no que se convencionou chamar
de “inteligência emocional”, mas que, na verdade, não pode ser compreendida
apenas como uma lacuna individual. Trata-se de um efeito estrutural de um
modelo educacional orientado pela lógica da eficiência, no qual o estudante
aprende desde cedo a se perceber como projeto de sucesso ou como
empreendimento falido. Sob essa racionalidade, descrita por Byung-Chul Han
(2015), o sujeito não fracassa em uma tarefa: ele se sente o próprio fracasso.
A avaliação, nesse contexto, deixa de operar apenas como instrumento
pedagógico e passa a funcionar como tecnologia de produção de subjetividades. À
maneira do que descreve Foucault (1987), a nota atua como dispositivo de
normalização, estabelecendo hierarquias, distribuindo lugares de valor e
fabricando identidades escolares: o bom aluno, o aluno mediano, o aluno-
problema. O sofrimento diante da nota não é, portanto, apenas emocional, mas
político, pois expressa o grau de interiorização dessas normas4.
Quando articulamos esse fenômeno à arte
queer
do fracasso, torna-se
evidente o quanto a escola contemporânea reduz drasticamente as possibilidades
de experimentar o erro como desvio, como tentativa, como potência de
reinvenção. Ao contrário, fracassar torna-se motivo de vergonha, ocultamento e
autodepreciação. A pedagogia do sucesso absoluto inviabiliza qualquer elaboração
subjetiva do erro, produzindo sujeitos frágeis diante da frustração e intolerantes
ao próprio limite.
Nesse sentido, pensar o fracasso como categoria pedagógica dissidente é
também pensar o cuidado com a vida psíquica dos estudantes. Reintroduzir o erro
como parte legítima do processo de aprender, errar, repetir e tentar novamente
significa produzir fissuras no modelo de educação baseado no desempenho.
4 É importante salientar que não se está tratando aqui do estudante que, por falta de compromisso com o
próprio processo de ensino-aprendizagem, deixa de entregar atividades, acredita que será aprovado
automaticamente e não se reconhece como corresponsável por sua aprendizagem. O foco recai,
especificamente, sobre o estudante que não obtém a nota necessária para a aprovação em decorrência de
dificuldades de aprendizagem vinculadas a déficits anteriores e historicamente acumulados.
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Significa substituir a lógica do colapso pela lógica da sustentação: não a
sustentação do sucesso, mas a sustentação da existência.
A intensificação do sofrimento diante do erro e da avaliação não pode ser
dissociada do crescente processo de adoecimento psíquico no ambiente escolar.
Ansiedade generalizada, crises de pânico, automutilação, depressão e
esgotamento emocional têm se tornado experiências cada vez mais frequentes
entre estudantes, especialmente no ensino médio5. Esse quadro não se explica
apenas por fragilidades individuais, mas deve ser compreendido como efeito de
um regime educacional orientado pela lógica do desempenho, da competição e da
autoexploração. Como analisa Byung-Chul Han (2015), o sujeito da sociedade do
desempenho adoece não por repressão externa, mas por excesso de exigência
interna: ele se cobra, se culpa e se pune quando falha.
Nesse cenário, a nota ruim opera como gatilho simbólico de um colapso
subjetivo mais amplo. O erro não é apenas um dado do processo de
aprendizagem, mas passa a ser vivido como ameaça à própria identidade. O
estudante não fracassa em uma atividade: ele se sente um fracasso. Essa
conversão da avaliação em medida existencial evidencia o grau de captura da
subjetividade pelas engrenagens da produtividade escolar. O que se observa,
portanto, não é apenas uma dificuldade emocional episódica, mas uma forma
estrutural de sofrimento produzida por um modelo educacional que associa valor
de vida a êxito constante.
Como resposta a esse sofrimento, cresce também o processo de
medicalização da experiência escolar. Dificuldades de concentração, ansiedade,
desmotivação, cansaço extremo e instabilidade emocional são frequentemente
traduzidos em diagnósticos clínicos e tratados prioritariamente por meio de
psicofármacos. Sem desconsiderar a importância dos cuidados em saúde mental,
é necessário reconhecer que, muitas vezes, medicaliza-se não apenas o estudante,
mas o próprio fracasso em se adequar a um modelo de escola orientado pela
performance. O que poderia ser lido como reação crítica, recusa subjetiva ou
5 As reflexões aqui apresentadas partem da minha experiência como professor de Artes do Instituto Federal
de Minas Gerais Campus Betim e da atuação na coordenação do NAPNEE (Núcleo de Apoio às Pessoas
com Necessidades Educacionais Específicas), o que implica reconhecer que esse cenário pode não se
apresentar da mesma forma em outras realidades escolares.
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sofrimento social é frequentemente capturado como transtorno individual.
Essa dinâmica produz uma dupla violência: de um lado, a escola intensifica
as exigências de rendimento; de outro, o sistema de saúde é convocado a ajustar
quimicamente os corpos para que possam continuar performando. O corpo do
estudante, nesse processo, torna-se aquilo que Paul B. Preciado (2018) denomina
de laboratório político: um corpo atravessado por tecnologias de controle,
otimização e normalização, no qual hormônios, estimulantes, ansiolíticos e
reguladores de humor passam a operar como extensões químicas do
desempenho.
Quando articulamos esse fenômeno à ética
queer
do fracasso, torna-se
evidente o quanto a escola contemporânea produz sujeitos cada vez mais
intolerantes ao erro, ao limite e à frustração. O fracasso deixa de ser vivido como
experiência formativa e passa a ser efeito traumático. A repetição, quando não se
converte em progresso mensurável, não encontra lugar simbólico de elaboração,
mas torna-se motivo de vergonha, sofrimento e patologização. Nesse contexto, a
educação deixa de sustentar vidas e passa, muitas vezes, a exigir delas uma
performance emocionalmente insustentável.
Pensar o fracasso como categoria pedagógica dissidente implica, portanto,
também uma crítica à medicalização indiscriminada do sofrimento escolar.
Significa recolocar o erro no campo da experiência, e não apenas no campo do
sintoma; reconhecer que sofrimentos que não pedem ajuste químico, mas
transformação das estruturas que os produzem. Ao reinscrever a repetição, o erro
e a tentativa no campo da pulsão de vida, torna-se possível imaginar uma escola
menos orientada pelo colapso e mais comprometida com a sustentação da
existência.
Um dos efeitos mais perversos desse regime avaliativo orientado pelo
desempenho é a rápida conversão do insucesso escolar em suspeita de déficit
cognitivo ou transtorno psíquico. Diante de notas baixas ou desempenhos
considerados insatisfatórios, muitos estudantes6 passam a acreditar, com extrema
6 Ressalta-se que esta análise se baseia na minha experiência como docente de Artes no Instituto Federal de
Minas Gerais Campus Betim e na atuação junto ao NAPNEE, não podendo ser generalizada, de forma
automática, para outros contextos escolares.
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facilidade, que em si algo de “errado” em nível neurológico, emocional ou
comportamental. A dificuldade em aprender, errar ou não corresponder às
expectativas passa a ser interpretada como sinal de uma falha interna, muitas
vezes dissociada das condições pedagógicas, afetivas, sociais e institucionais que
atravessam o processo educativo.
Esse movimento é frequentemente reforçado por profissionais
despreparados ou por abordagens reducionistas, que, ao invés de problematizar o
contexto escolar, recorrem rapidamente à lógica do diagnóstico. Assim, estudantes
são deslocados com inquietante velocidade para categorias como TDAH, TEA, TAG,
entre outras nomenclaturas psiquiátricas, muitas vezes sem avaliações criteriosas,
interdisciplinares e contínuas. O que poderia ser compreendido como sofrimento
pedagógico, conflito subjetivo, exaustão emocional ou resistência ao regime do
desempenho é capturado como transtorno individual.
Esse processo produz um efeito simbólico devastador: o fracasso escolar
deixa de ser vivido como experiência situada e passa a ser incorporado como
identidade patológica. O estudante já não “vai mal” em uma disciplina — ele “é” o
problema. A avaliação, nesse contexto, deixa de operar apenas como instrumento
didático e passa a funcionar como gatilho para a patologização da subjetividade. A
nota não mede apenas aprendizagem; ela passa a medir, perigosamente, o valor
psíquico e cognitivo do sujeito.
Sob essa lógica, o erro perde completamente sua dimensão formativa. Falhar
já não é parte do aprender, mas indício de desvio clínico. A repetição, quando não
produz avanço imediato, deixa de ser vista como tempo de elaboração e passa a
ser tratada como sintoma. O que se observa, portanto, é a substituição progressiva
de uma pedagogia do processo por uma pedagogia do diagnóstico, na qual
dificuldades inerentes ao aprender são deslocadas para o campo da psiquiatria de
forma precipitada e, muitas vezes, violenta.
À luz de Foucault (1987), esse movimento pode ser compreendido como uma
expansão das tecnologias de normalização: não basta mais disciplinar os corpos
pelo currículo, é preciso também classificá-los clinicamente quando falham em
se adequar às normas de desempenho. Em diálogo com Preciado (2018), é possível
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afirmar que esses corpos passam a operar como verdadeiros arquivos biomédicos,
nos quais os saberes farmacológicos e psiquiátricos se articulam aos dispositivos
escolares para regular comportamentos, afetos e ritmos de aprendizagem.
Quando articulamos esse cenário à ética
queer
do fracasso, torna-se ainda
mais evidente o quanto a escola contemporânea produz uma profunda
intolerância ao erro. Fracassar não é permitido, e, quando ocorre, precisa ser
rapidamente neutralizado por meio do diagnóstico, da medicação ou da retirada
do estudante da cena pedagógica comum. O fracasso, que poderia operar como
espaço de elaboração, diferença e desvio, é convertido em anormalidade clínica.
Trata-se de uma pedagogia que não apenas elimina o erro, mas também neutraliza
sua potência política e formativa.
Considerações finais
A análise da vídeo-performance
Dance or Exercise on the Perimeter of a
Square
(1968), de Bruce Nauman, permitiu deslocar a repetição de uma leitura
estritamente associada ao esgotamento e à pulsão de morte para um campo mais
ambíguo e fecundo, no qual a insistência do gesto pode ser compreendida como
forma de sustentação da vida. Ao repetir sem avançar, sem produzir resultado e
sem culminar em superação, o corpo de Nauman encena uma modalidade de Eros
dissidente, que resiste aos imperativos de progresso, eficiência e sucesso. A
repetição, nesse registro, não consome o sujeito: ela o mantém.
Quando essa leitura é colocada em diálogo com a arte
queer
do fracasso,
conforme formulada por Jack Halberstam (2020), a recusa ao avanço, ao clímax e
à produtividade deixa de ser interpretada como
déficit
e passa a ser compreendida
como gesto político. Fracassar, insistir sem progredir, permanecer sem vencer
tornam-se formas de desidentificação em relação às narrativas normativas de
êxito que organizam tanto o campo da arte quanto o da educação. Trata-se de
uma ética da permanência, na qual a vida não se afirma pelo excesso, mas pela
continuidade possível.
No campo educacional, entretanto, essa possibilidade encontra forte
resistência. A escola contemporânea, atravessada pelas lógicas da sociedade do
Da repetição ao laudo: arte, desempenho e medicalização do fracasso escolar
Tiago Cruvinel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-16, abr. 2026
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desempenho, tende a converter a repetição improdutiva em sinal de inadequação,
e o fracasso em experiência intolerável. A avaliação deixa de ser instrumento
pedagógico e passa a operar como tecnologia de produção de subjetividades,
distribuindo lugares de valor, instaurando hierarquias e convertendo a nota em
medida existencial. Nesse contexto, errar não é parte do aprender; errar é falhar
como sujeito.
Os efeitos dessa dinâmica manifestam-se de forma contundente no
crescente adoecimento psíquico dos estudantes. Ansiedade, depressão, crises de
pânico, automutilação e esgotamento emocional tornam-se respostas cada vez
mais frequentes a um sistema que exige desempenho contínuo e intolerância ao
limite. Como resposta a esse sofrimento, observa-se também a intensificação da
medicalização da vida escolar, na qual dificuldades pedagógicas, conflitos
subjetivos e reações ao excesso de exigência são rapidamente deslocados para o
campo do diagnóstico clínico.
Diante desse quadro, a articulação entre pulsão de vida, repetição e arte
queer do fracasso permite não apenas uma leitura estética da obra de Nauman,
mas também uma crítica profunda aos modos contemporâneos de gestão da vida
na escola. Pensar o fracasso como categoria pedagógica dissidente implica
restituir ao erro sua dimensão formativa, reinstalar a repetição como tempo
legítimo de elaboração e romper com a equivalência entre aprender e performar.
Implica, sobretudo, deslocar a educação de uma lógica orientada pela produção
de êxitos para uma ética comprometida com a sustentação da existência.
Tal como na performance de Nauman, em que o gesto insiste sem prometer
avanço, a escola pode ser pensada como espaço de permanências, retornos e
tentativas que não se resolvem imediatamente. Nesse horizonte, viver, aprender e
criar deixam de ser sinônimos de vencer. Passam a ser, antes, modos de continuar,
mesmo quando o avanço não é visível, mesmo quando o resultado não se
quantifica, mesmo quando a vida falha em corresponder às expectativas do
sucesso.
Da repetição ao laudo: arte, desempenho e medicalização do fracasso escolar
Tiago Cruvinel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-16, abr. 2026
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Referências
FOUCAULT, Michel.
Vigiar e punir
: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
FREUD, Sigmund.
Além do princípio de prazer
. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
(Obras Incompletas de Sigmund Freud/coordenação Gilson Iannini, Pedro
Heliodoro)
GOMPERTZ, Will.
Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até
hoje
. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
HALBERSTAM, Jack.
A arte queer do fracasso
. Recife: Cepe, 2020.
HAN, Byung-Chul.
Sociedade do cansaço
. Petrópolis: Vozes, 2015.
NAUMAN, Bruce.
Dance or Exercise on the Perimeter of a Square
. 1968. Vídeo-
performance.
PRECIADO, Paul B.
Testo Junkie
: sexo, drogas e biopolítica no regime
farmacopornográfico. São Paulo: n-1 edições, 2018.
TEMPOS modernos
. Direção: Charles Chaplin. Estados Unidos: Charles Chaplin
Productions, 1936. 1 filme (87 min), preto e branco, sonoro.
Recebido em: 08/12/2025
Aprovado em: 07/04/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
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