
Atuando no fluxo da vida (e da cena): uma conversa entre Tatiana Motta Lima e Vitor Lemos
Vitor Lemos | Tatiana Motta Lima
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-23, abr. 2026
precisar parar… A gente força a parada, mas a ideia é que, durante a própria
travessia seja possível uma abertura para observar, dar, receber, refletir… São
estratégias para uma certa percepção dos processos.
VL
- Não consigo imaginar como fazer isso sem elas, ainda que não sejam garantia
de nada.
TML
– Um dia, eu estava conversando com o Mario Biagini sobre o trabalho que
estava fazendo sobre “percepção”. E ele me disse: "percepção não se trabalha”.
Primeiro, fiquei um tanto impactada. Mas, depois, eu acho que entendi o que ele
quis dizer. O ator e a atriz não devem se interessar pela percepção, mas abrir-se
para o “percebido”. Mais desbloqueio do que ativação. Por exemplo, a cena do
“Vestir o Leo”, que te contei. Algo ali estava sendo bloqueado. Vimos que esse tipo
de trabalho sobre a percepção poderia gerar um ensimesmamento. Eu posso estar
super atenta a tudo, mas, se as coisas que me chamam a atenção, não me
mobilizam, se eu não me ajusto a elas, corre-se o risco de ver tudo e ainda assim
estar fechada. São dificuldades que a gente encontra, especialmente num trabalho
como o nosso, que tenta fugir da “produção”, da “psicologização”, da “expressão”,
e trabalhar com mais sutileza. Sabe uma coisa que estou achando muito
interessante no seu trabalho? É algo que vou levar para o meu a partir dessa
conversa. Como eu te disse, meus exercícios não têm nome. Sempre achei que
não devia nomeá-los, porque depois eu iria querer escrever sobre eles, e isso me
soava mal, como se, com isso, tomasse posse deles. Mais ainda, esses nomes não
dariam conta, para o leitor, dos ajustamentos e adaptações necessárias, ou seja,
do cerne dos exercícios. São críticas minhas, claro. Mas, te ouvindo, percebo algo
completamente diferente. Ao nomear os exercícios junto com seus atores e
atrizes, você está oferecendo a eles, de alguma forma - algo que eu senti falta de
oferecer ao Hanimais Hestranhos: uma certa plataforma. Porque estamos mesmo
falando de coisas muito sutis. E, quando você nomeia os exercícios, eles se tornam
lugares de indagação, de atualização. Acho que isso também pode ser pedagógico,
no melhor sentido da palavra, porque cria uma linguagem comum. Estou sendo
um pouco maldosa comigo mesma, porque nos Hanimais Hestranhos não era tudo
solto assim. Mas a linguagem no seu trabalho não fica só na condução, ela se torna
mais partilhável. Lá, a gente partilhava fortemente algumas perguntas, mas as
perguntas têm uma dimensão e os exercícios têm outra. A gente fazia exercícios,
mas os seus estão mais voltados a compreender o próprio território do exercício.
Então, dar nome às coisas, aos exercícios, cria a possibilidade de uma fala mais
consciente, não só para a gente que conduz, mas para quem está junto com a
gente nessa pesquisa. Como eu trabalho com a via
negativa
22, acabo lidando muito
22 “Nosso caminho é a
via negativa
, não uma coleção de técnicas, e sim erradicação de bloqueios. […] O estado
necessário da mente é uma disposição passiva a realizar um trabalho ativo, não um estado pelo qual
“queremos fazer aquilo”, mas “
desistimos de não fazê-lo
”. (Grotowski, 1987, p.15.)