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Conversar com Árvores
:
a criação como prática cosmopolítica
Christiane Lopes da Cunha
Para citar este artigo:
CUNHA, Christiane Lopes da. Conversar com Árvores: a
criação como prática cosmopolítica. Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.3,
n.56, dez. 2025.
DOI: 10.5965/1414573103562025e0109
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Conversar com Árvores: a criação como prática cosmopolítica
Christiane Lopes da Cunha
Florianópolis, v.3, n.56, p.1-32, dez. 2025
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Conversar com Árvores1: a criação como prática cosmopolítica2
Christiane Lopes da Cunha3
Resumo
Neste artigo, o ato criativo é proposto como um exercício comunicativo na porosidade
entre o corpo, o Outro e a Terra. Nesse escopo, a criação foi investigada como ação
cosmopolítica coextensiva, uma forma de tecer conversas com o extra-humano, à luz
de perspectivas animistas que, a partir de outras noções sobre o ritmo, produzem
relações comunicativas com a alteridade. Como espaço de reflexão, realizaram-se, na
pesquisa Conversar com Árvores, interlocuções transespecíficas, nas quais o falar foi
definido como parte de uma atenção multimodal em fluxo polirrítmico contínuo, em
contraste com o cultivo de uma atenção frontal e unifocal que caracteriza as formas
antropocêntricas de comunicação.
Palavras-chave: Árvores. Ritmo. Animismo. Criação. Comunicação transespecífica.
Conversing with Trees: creation as a cosmopolitical practice
Abstract
In this article, the creative act is proposed as a communicative exercise in the porosity
between the body, the Other, and the Earth. In this scope, creation was investigated as
a coextensive cosmopolitical action, a way of weaving conversations with the extra-
human, in light of animistic perspectives that, based on other notions of rhythm, produce
communicative relationships with otherness. As a space for reflection, trans-specific
dialogues were held in the research Conversing with Trees, in which speech was defined
as part of a multimodal attention in continuous polyrhythmic flow, in contrast to the
cultivation of a frontal and unifocal attention that characterizes anthropocentric forms
of communication.
Keywords: Trees. Rhythm. Animism. Creation. Interspecies communication.
Conversar con árboles: la creación como práctica cosmopolítica
Resumen
En este artículo, el acto creativo se propone como un ejercicio comunicativo en la
porosidad entre el cuerpo, el Otro y la Tierra. En este ámbito, la creación se investigó
como una acción cosmopolítica coextensiva, una forma de tejer conversaciones con lo
extrahumano, a la luz de perspectivas animistas que, a partir de otras nociones sobre el
ritmo, producen relaciones comunicativas con la alteridad. Como espacio de reflexión,
en la investigación Conversar con Árvores (Conversar con los árboles) se llevaron a cabo
interlocuciones transespecíficas, en las que el habla se definió como parte de una
atención multimodal en flujo polirrítmico continuo, en contraste con el cultivo de una
atención frontal y unifocal que caracteriza las formas antropocéntricas de comunicación.
Palabras clave: Árboles. Ritmo. Animismo. Creación. Comunicación transespecífica.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Sérgio José de Oliveira. Mestrado em Filosofia
Contemporânea e Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB). Mestrado em Artes Cênicas
pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
2 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil
(CAPES) - Código de Financiamento 001; e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ),
Programa Doutorado Nota 10, Processo nº E-26/201.660/2021.
3 Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Mestrado em Estudos
Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Criadora transmídia, pesquisadora e educadora
brasileira. christianedacunha73@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/9435721457949715 https://orcid.org/0000-0003-4164-012X
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Introdução
A presente pesquisa4 se debruçou sobre compreensões da comunicabilidade
fora de concepções antropocêntricas fundamentadas na divisão entre natureza e
cultura. À luz de perspectivas animistas, tratou da potência conectiva do ato
criativo, em sua ligação estreita com os sentidos, como processo fluido, relacional
e coextensivo ao extra-humano. Em um momento em que as mudanças no
macroambiente terrestre, impulsionadas pelas ações humanas, exigem formas
alternativas de pensar, observou-se que tais alternativas frequentemente entram
em conflito com normas hegemônicas ainda enraizadas em convenções coloniais
sobre o que é considerado vida, inteligência, conhecimento, linguagem e
comunicação. No cerne desse impasse, os chamados Outros5 coloniais, humanos
e extra-humanos, permanecem entrelaçados, contrapondo o pensamento
antropocêntrico.
Como alicerce prático-teórico, a criação foi compreendida como abertura a
um estado sensível de trocas com o Outro extra-humano, em um pluriverso6 de
entidades múltiplas e fluxos relacionais. Nesse contexto, foi investigada e praticada
como uma forma de tecer conversas, que neste estudo se realizaram com uma
Árvore centenária residente no Parque Nacional da Tijuca. Ao situar o ato criativo
na gênese de interlocuções transespecíficas, assumiu-se a premissa de que, nas
ontologias aqui referidas, a criação possui caráter múltiplo sendo
simultaneamente processo, práxis e fenômeno entrelaçado a outras práticas e
domínios.
Desta forma, foram desenvolvidos processos correlatos em fotografia,
desenho, pintura e animação, compreendidos como tradutores transtemporais
4 Desenvolvido no projeto de doutorado: Conversar com Árvores, a arte como exercício sensível entre o corpo
e a Terra na Era Antropocena (2023), PPGAC - UNIRIO, Bolsa CAPES e FAPERJ-doutorado nota 10. Parte da
pesquisa publicada nos Anais do 33º Encontro Nacional da ANPAP - Vidas, 2024.
5 A exemplo de autores como Grada Kilomba (2019), o termo Outro, quando iniciado com letra maiúscula,
concerne aos Outros coloniais e, neste artigo, abrange os povos colonizados e, igualmente, os extra-
humanos.
6 O termo pluriverso diz respeito a uma confluência de mundos heterogêneos que formam uma ecologia
política de práticas, negociando continuamente os desafios de coexistir em meio à sua diversidade. (Blaser;
De La Cadena, 2018).
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das conversas transespecíficas, permitindo que estas continuassem em devir.
O estudo, assim, visou investigar formas de interlocução no domínio da
criação que ampliem a capacidade de percepção e sintonia transespecífica,
contribuindo para a manutenção do espaço social entre humanos e extra-
humanos, em múltiplas dimensões entre o visível e o invisível.
O espaço social para além do humano
Li uma história de um pesquisador europeu do começo do século XX que
estava nos Estados Unidos e chegou a um território dos Hopi. Ele tinha
pedido que alguém daquela aldeia facilitasse o encontro dele com
uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, ela estava
parada perto de uma rocha. O pesquisador ficou esperando, até que
falou: 'Ela não vai conversar comigo, não?’ Ao que seu facilitador
respondeu: ‘Ela está conversando com a irmã dela’. ‘Mas é uma pedra.’ E
o camarada disse: ‘Qual é o problema?’ (Krenak, 2019, p.10).
Historicamente, a relacionalidade com entidades extra-humanas como uma
forma de estar no mundo que sustenta as ontologias relacionais não
antropocêntricas opõe-se não apenas à concepção científica moderna que
objetifica a natureza como um recurso a ser explorado pelo homem, mas também
à normatividade. Conversar com uma pedra, o chão, uma árvore ou com as forças
que as atravessam, é impensável. Contudo, o impensável pode ser fruto do que as
noções hegemônicas nos permitem pensar, noções que impõem certas ideias e
comportamentos enquanto, simultaneamente, suprimem outras que as ameaçam
(De La Cadena, 2015). A presença na ciência de pressupostos que avaliam as
capacidades do vivo pelo viés do animal, por exemplo, oblitera um
reconhecimento das potencialidades das plantas e da relação de seus corpos com
o mundo e a vida terrestre. Da mesma forma, a presença massiva do
antropocentrismo na imaginação ocidental, restringe o modo como concebemos
nossos corpos e pensamos sua relação com dimensões extra-humanas. No
impensável colonial, no qual encontram-se embaralhados os chamados de Outros,
humanos e extra-humanos, o sujeito tem sido continuamente alienado de uma
dimensão maior da vida e de sua própria condição de pertencimento à Terra. Em
um momento em que as mudanças no macroambiente terrestre, impulsionadas
pelas ações humanas, demandam alternativas de pensamento, mudanças de
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paradigma têm sido buscadas em vários campos. No entanto, diversos caminhos
possíveis conflitam com a normatividade hegemônica, ainda enraizada nas
convenções coloniais sobre o que é considerado vida, inteligência, conhecimento,
linguagem e comunicação.
Desde Platão e Aristóteles, passando pelas raízes do Cristianismo e chegando
ao Iluminismo, consolidaram-se noções que caracterizaram sistematicamente as
árvores os maiores e mais longevos seres vivos, participantes primordiais dos
processos que sustentam a vida no planeta como entidades passivas,
destituídas de inteligência e sensibilidade, formas de existência consideradas
inferiores, disponíveis como recursos naturais à disposição do homem. Essa lógica
hierárquica, que não se restringiu às árvores nem ao extra-humano, entrelaçou-se
ao racismo no cerne do colonialismo, fundamentando políticas de dominação,
invisibilidade e controle ecológico e étnico, cujos efeitos reverberam na
configuração de uma nova época geológica, marcada pelo impacto significativo
das ações humanas sobre o planeta.
Neste contexto, a filósofa e bióloga Donna Haraway e o engenheiro ambiental
e teórico Malcolm Ferdinand, se contrapõem ao termo Antropoceno, formulado
pelo cientista Paul Crutzen e pelo biólogo Eugene Stoermer (2000), para definir
esta nova época geológica. Tanto Haraway quanto Ferdinand consideram o
conceito uma generalização das responsabilidades pela devastação ambiental.
Enquanto Haraway (2020) destaca o papel do capitalismo nos processos que
levaram à crise atual com a noção de Capitaloceno, Ferdinand (2022), propõe o
conceito de Negroceno para designar a era em que os excluídos do mundo
moderno humanos e extra-humanos foram explorados como força social e
energética na expansão colonial e na transformação ecológica do planeta. “Os
Negros são os muitos fora-do-mundo (humanos e não humanos) cuja energia vital
é dedicada, por meio da força, aos modos de vida e às maneiras de habitar a Terra
de uma minoria, ao mesmo tempo que a eles se recusa uma existência no mundo”
(Ferdinand, 2022, p. 81). Para Ferdinand, a modernidade ocidental funda-se sobre
um matricídio colonial: a separação entre humanidade e Terra como condição para
a dominação dos corpos, dos territórios e dos mundos vivos. Essa “dupla fratura”,
estrutura as dinâmicas hierárquicas que pavimentam o pensamento antropológico
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moderno (Ferdinand, 2022, p. 23).
Com uma designação generalizante do Outro, que rotulava uma
multiplicidade de saberes e práticas – entre as quais a veneração de árvores – de
diversas culturas como sistemas de crença primitivos, Edward Burnett Tylor, um
dos fundadores da antropologia cultural, em 1871, conceituou o animismo como
um erro cognitivo. Uma prova da inferioridade epistemológica das sociedades não
antropocêntricas. Sua concepção não apenas marcou o advento da antropologia
como disciplina, mas também reforçou a hierarquia epistêmica que, no âmbito da
ciência moderna, legitimou a contínua subjugação dos Outros coloniais (Franke,
2012) e de seus saberes.
Porém, se no século XIX uma multiplicidade de ontologias relacionais não
antropocêntricas foi reduzida a uma falha cognitiva sob a categoria de animismo
pela antropologia nascente, no século XXI o termo ressurge como instrumento de
leitura crítica diante da crise ecológica e das discussões pós-coloniais. Em 2014, o
antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Débora Danowski descreveram
os impactos geológicos da exploração ambiental como uma dupla crise
antropológica: por um lado, o isolamento metafísico do ser humano; por outro, as
alterações ambientais causadas por sua própria ação. Neste contexto, o animismo
voltou a ser objeto de reflexão por diversos pensadores, tanto de dentro quanto
de fora das culturas animistas, em um movimento de recuperação da palavra.
Contudo, ainda que os debates pós-coloniais tenham ampliado a consciência
sobre as múltiplas formas de violência impostas pelos sistemas hegemônicos,
subsistem padrões objetificantes em relação às cosmologias e realidades dos
povos afetados, contribuindo para a idealização ou simplificação das suas culturas
(Martinez, 2020). Nesse âmbito, a filósofa Isabelle Stengers (2012) aponta que
recuperar não é apenas retomar o que foi perdido, mas curar-se da separação
imposta e regenerar o que ela afetou.
Embora ainda generalizante, o termo continua válido hoje para designar
ontologias baseadas em práticas e numa ética de flexibilidade, centradas no
caráter social das relações entre humanos e não humanos. Refere-se a ontologias
que fundamentam-se na troca intersubjetiva entre humanos e extra-humanos, na
interação do visível e do invisível, sem qualquer relação dicotômica excludente,
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mas sim de entrelaçamento entre as partes em relação (Cunha e Gardel, 2021).
Está na base de inúmeras sociedades, atravessando uma pluralidade de
cosmologias, práticas e saberes. No contexto das cosmologias africanas,
diaspóricas e dos povos originários do continente americano, apesar da vasta
diversidade existente entre elas, muitas partilham uma perspectiva convergente
sobre o ritmo enquanto um elemento primordial nas relações, agenciador da vida
e simultaneamente o seu próprio fundamento –, uma força inseparável do
movimento que produz continuamente diferenças e emerge da interação
vibratória entre periodicidade e variação.
É importante ressaltar que algumas denominações chave, usadas aqui, são
moldadas por epistemologias antropocêntricas, servindo para abordar, ainda que
de forma imperfeita, práticas e princípios provenientes de outros contextos
epistemológicos. A palavra ‘ritmo’, por exemplo, é um termo universalizante que,
nas culturas ocidentais dominantes, costuma designar uma miríade de eventos
estruturados por formas repetitivas. Em linhas gerais, fenômenos rítmicos
implicam em periodicidade, organização de unidades temporais sucessivas,
estrutura e andamento (Cunha e Gardel, 2021).
Entretanto, devido a sua natureza múltipla, fluida e incomensurável, talvez
não seja possível definir o que é ritmo, mas apenas vivenciá-lo, contemplá-lo ou
especular o que é engendrado, moldado, despertado em sua presença. Em cada
corpo, desenha-se uma rede viva de padrões diversos, visuais, sonoros e motrizes,
interligados continuamente por uma organicidade também rítmica. Fora do corpo,
é possível apreender padrões equivalentes. A estrutura das veias humanas, por
exemplo, encontra correspondência nas formas dos raios ou na configuração de
uma bacia hidrográfica. Mas, é sobretudo no entrecruzamento entre diferentes
instâncias que o ritmo se manifesta, agenciando interações como, por exemplo, o
processo através do qual as árvores da floresta Amazônica formam os rios
voadores ou a forma como a textura rítmica de poros da pele reage à umidade do
ar. Um rio, uma folha ou uma árvore, assim como nós, é fruto do entrosamento
de padrões padrões cuja ação depende diretamente da sintonização com outros
ritmos, como o ritmo lunar e o ritmo solar. Se transformando via constantes
variações, ritmos regem planos micro e macrocósmicos, atravessando e
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interconectando continuamente as instâncias internas às externas dos corpos. O
ritmo desenha e atravessa os poros, de humanos e plantas. Além de estar presente
no metabolismo de todos os seres e em todos os planos nos quais estes existem,
ele também se manifesta em seu comportamento e comunicabilidade (Normann
et al. 2015).
Aberturas multidimensionais – formas de pensar multimodais
No entrelaçamento de alteridades e agenciamentos múltiplos próprios do
animismo (Viveiros de Castro, 1996), o ritmo circula por distintos planos, entes e
temporalidades. Ritmos são multiformes e conforme coloca o filósofo Bensusan
(2016, p. 165)7: “Padrões são eles próprios escultores de qualquer mídia que esteja
aberta para eles eles não são interferências abstratas, mas podem ser
transmitidos de uma coisa concreta para outra”. Conforme observado por Howes
(2011), os saberes animistas primam pelo entrecruzamento dos sentidos e pela
transmutação de uma modalidade em outra. Além disso, não são segmentados e
estruturados segundo uma lógica disciplinar a noção de disciplina entendida
como um campo de estudo delimitado e dedicado exclusivamente à atividade
humana. “São campos geridos por uma interação contínua entre diferentes meios,
domínios e planos, nos quais participam tanto humanos quanto extra-humanos”
(Cunha, 2023b, p. 78). Por meio de diferentes vivências e noções de ritmo e
movimento, o ato criativo, para além do entendimento ocidental enquanto evento
primordialmente relacionado às artes, é entendido e praticado como uma forma
de tecer interlocuções, via uma visão do presente como um espaço-tempo
expandido, no qual o ritmo produz relações comunicativas com a alteridade e
desempenha o papel de aglutinador entre os seres e a pluralidade de mundos
existentes (Cunha, 2023b). Assim, o fazer da pintura, escultura, música, tecelagem,
cerâmica, máscaras, criações plumárias, desenho etc., possui um caráter
performativo e agentivo, enquanto mediador cosmopolítico8, moderador de
7 Patterns are themselves sculptors of whatever media are open to them they are not abstract interferences,
but can be transmitted from one concrete thing to another. (Tradução nossa)
8 Conforme Isabelle Stengers (2014), cosmopolítica refere-se à negociação entre diferentes mundos e agentes
humanos e não humanos sem reduzir a multiplicidade a uma única verdade.
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frequências crucial para a fabricação do corpomente9 e para o trânsito deste
entre os mundos que ajuda a constituir. Na interação com a Terra, com o extra-
humano, são aberturas multidimensionais formas de pensar multimodais, bem
como conversas por meio das quais adquire-se atributos e conhecimentos
gerados em outras realidades (Ingold, 2000; Lagrou, 2007, 2009).
Neste âmbito, conforme supracitado, a criação é experiência que
concomitantemente atua no forjar da sensibilidade animista, pois é agenciadora
na percepção, reflexão e geração de sentido da experiência vivida. É sabido que “A
cultura fornece sistemas de significado e comunicação através dos quais o mundo
é concebido, percebido, e interpretado. No entanto, a cultura envolve tanto o
conhecimento explícito, regras e instituições, como o conhecimento implícito ou
processual, habilidades e disposições para responder” (Kirmayer, 2015, p. 637). O
dramaturgo e escritor nigeriano, Nobel de literatura, Wole Soyinka define a
sensibilidade animista esta sensibilidade outra sobre o real como “[...] um
molde não doutrinário de atentividade constante.” (Soyinka, 1990, p. 54). É preciso
não perder de vista que a atentividade é vital para contextos onde a relacionalidade
se abre a uma miríade de vozes provenientes de diferentes mundos, com
interlocuções que se apresentam como fluxos em constante transformação; e,
por isso mesmo, se expandindo e ultrapassando o domínio da linguagem. Em seu
estudo sobre a relação que o povo Nayaka, do sudeste asiático, estabelece com
as Árvores, Bird-David define o falar como parte de uma atenção plurifocal em um
presente contínuo: “‘Falar com’ significa ter atenção intensificada às variações e
às invariações no comportamento e estar responsivo às coisas no estado de
relacionalidade, e desse modo alcançar o conhecimento das coisas que se
transformam por meio das vicissitudes, ao longo do tempo, do compromisso com
elas” (Bird-David, 2019, p. 126).
Em contraste ao cultivo de uma atenção frontal e unifocal, que caracteriza
as formas de comunicação normativas, próprias da vida orientada pela visão
logocêntrica de um mundo estático e com hierarquias e contornos bem definidos
(Escobar, 2014), Soyinka e Bird-Taylor se referem a um estado necessário à
9 O vocábulo trata da vivência rítmica das cosmovisões abordadas, nas quais corpo e mente são produtores
indivisíveis de conteúdo sensível e reflexivo sobre o real. (Ramose, 1999)
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interexistência nas fronteiras difusas de um pluriverso imprevisível.
Perspectivas nas quais o mundo não se apresenta como dimensão única,
externa e objetificada, mas sim como um pluriverso em contínua transformação,
que se comigo, através de mim e para além de mim, são sublinhadas por um
engajamento primordial que se apresenta ao mesmo tempo como condição do
ser e do saber (Ingold, 2015). A percepção em alguém que cultiva uma
relacionalidade não antropocêntrica, é aguçada coletivamente por trânsitos
sensoriais multimodais. Visto que, engajamentos tecidos não apenas em referência
a um, mas entre muitos mundos possíveis, e que visam a se aproximar de
perspectivas oriundas dessas dimensões alternativas, implicam em uma
multissensorialidade vivida e moldada na relação com o(s) Outro(s).
Apesar de ser comum a ideia de que nossos sistemas sensoriais operam
separados por modalidades visual, tátil, auditiva, olfativa, gustativa –, cruzamos
constantemente informações entre os diferentes sentidos. E, quanto mais rico for
este cruzamento, mais rica será a percepção gerada (Pascual-Leone e Hamilton,
2001).
Antes que as crianças reconheçam vistas, toques e sons específicos, ou
que as impressões ‘pertençam’ a um sentido particular, elas fazem
abstrações globais de estruturas através dos sentidos. Elas podem
reconhecer, por exemplo, a visão de uma bola que só tinham conhecido
anteriormente pelo toque. Podem traduzir níveis de intensidade sonora
para níveis de intensidade visual e reconhecer padrões temporais, tais
como duração e ritmo, através de todas as modalidades (Sklar, 2007, p.
39).10
Nossas experiências sensoriais, obtidas por cada modalidade sensorial, assim
como pela integração das mesmas nos processos multissensoriais que
constituem a percepção, são moduladas tanto pelo encontro com o mundo
externo quanto por nosso conhecimento pregresso, que é utilizado de forma
antecipatória na produção de previsões e expectativas. A ação e o pensamento
multimodal constantemente em primeiro plano na vivência animista
produzem formas de comunicação, nas quais sensibilidade, prática e
10 Before infants recognize specific sights, touches, and sounds, or that impressions “belong” to a particular
sense, they make global abstractions of structures across the senses. They can recognize, for example, the
sight of a ball they had only previously known by touch. They can translate levels of sound intensity to levels
of visual intensity and recognize temporal patterns, such as duration and rhythm, across all the modalities.
(Tradução nossa)
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conhecimento se retroalimentam e criam sentidos para além do terreno
convencional da linguagem.
Para os artistas das etnias Nivacle e Guaraní que participam do coletivo
Artes Vivas –, desenhar, além de sustento, se tornou forma de manter os laços e
afirmar a potência da segunda maior floresta da América do Sul, o Chaco
paraguaio, uma das áreas mais ameaçadas pelo desmatamento atualmente. Em
desenhos realizados em preto e branco com nanquim sobre papel, cada um, à sua
maneira, exercita e manifesta uma coexistência com a floresta, marcada pela
diversidade de relações, seres e ritmos. Na análise das antropólogas Verena e
Úrsula Regehr (2021, p. 52), iniciadoras do coletivo:
Eles nos mostram que o mundo e a vida são gerados através de múltiplas
interações e entrelaçamentos de humanos e não-humanos. [...] Os
desenhos, análogos à narração de mitos ou à realização de rituais com
força criativa, têm um caráter performativo: revivem e atualizam lógicas
e princípios que forjam referências para uma coexistência respeitosa de
humanos e não-humanos. Numa nova linguagem visual, eles se
comunicam de forma não verbal.
Figura 1 Sem título. Desenho, Efacio Álvarez. Fonte: coleção Artes Vivas.
Verena Regehr. Nanquim sobre papel, 30 x 40 cm, 2020.
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Estar atento é um valor para o povo Nivacle, estimulado desde a infância e
compreendido como parte de ser Nivacle. Marcos Ortiz conta que antes de
desenhar, é preciso passar longos períodos atento, observando com a paciência
de um caçador. Posteriormente, os desenhos despontam como filigranas de
extrema precisão. Para Regehr (2021, p. 52), “Suas imagens transitam livremente
as fronteiras entre a realidade e sua representação, o gráfico e o plástico, o
estilizado e o realista, empregando com surpreendente facilidade técnicas e estilos
formais desenvolvidos além das categorias convencionais de desenho.” O olhar do
caçador pode a princípio ser entendido simplesmente como um estado de alerta,
mas implica, mais do que isso, estar entregue à atenção, um estado de contínua
escuta-leitura multifocal, multimodal e, ao mesmo tempo, precisa. Um estado em
que uma preparação para detectar, absorver, conectar e, se possível, antever
movimentos e ritmos heterogêneos. Nos desenhos de Ortiz, encontramos uma
precisão do olhar-escuta que o artista sente com todo o corpo. Portanto, pode
acessá-la e aplicá-la nos movimentos corporais que realizam o desenho.
Figura 2 Sem título. Desenho, Marcos Ortiz. Fonte: coleção Artes Vivas,
Verena Regehr. Nanquim sobre papel, 30 x 40 cm, 2020.
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Árvores?
O rio que fazia uma volta atrás da nossa casa era a imagem de um
vidro mole…
Passou um homem e disse: Essa volta que o rio faz… se chama
enseada…
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta
atrás da casa.
Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem (Barros,
2001, p. 6).
Em direta oposição à lógica dos regimes dicotômicos que separam matéria e
espírito, corpo e mente, visível e invisível, o pensamento animista é regido por
tessituras não lineares, nas quais todo o mundo fenomenal é entrelaçado a uma
vida espiritual concomitante com suas propriedades naturais, de forma que seres
e objetos podem ser reconhecidos como imbuídos de valores e significados que
ultrapassam valores utilitários. Rios não seriam vistos apenas como fontes naturais
de água ou árvores como fonte de boa madeira (Garuba, 2003). Neste âmbito, o
que chamamos meio ambiente denominação que, para o filósofo Michel Serres,
(1990, p. 58) situa os homens como “[...] umbigos do universo, donos e possuidores
da natureza” é configurado como um meio de entidades plurais em fluxos
relacionais.
Nas cosmologias animistas da África negra, segundo o filósofo, escritor e
etnólogo malinês Amadou Hampâté (1982, p. 173), “O universo visível é
concebido e sentido como o sinal, a concretização ou o envoltório de um universo
invisível e vivo, constituído de forças em perpétuo movimento”. Uma árvore é uma
árvore e não o é, na medida que ela não se reduz nem aos limites de nossa
sensorialidade, nem aos conceitos constituídos pelo homem. Ela é também tudo
aquilo que nos escapa, acima e abaixo da terra, neste e em outros planos de
existência. Seguindo a premissa do multinaturalismo, temos acesso a uma de
suas muitas naturezas, às quais apenas outros sujeitos terão acesso ou o xamã,
diplomata entre mundos. Da mesma forma, o humano transborda definições e
assume diferentes naturezas em diferentes relações com diferentes
sujeitos/agentes “corpos-afecções” que possuem pontos de vista (Viveiros de
Castro, 2002, p. 381). E, independentemente da natureza do corpo que possui ou
mesmo de possuir ou não um corpo físico –, sujeito é todo aquele que possui
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14
perspectiva (Viveiros de Castro, 2002).
“Unidade de multiplicidades” (Marder, 2011, p. 485), sem rosto ou qualquer
outra semelhança visível com humanos ou animais, a planta encarna a alteridade
mais radical ao humano (Mancuso, 2019). Se a sensibilidade animista é alimentada
por uma atentividade constante, a planta é a atentividade em seu estado puro,
continuamente capturando e respondendo aos movimentos de seu entorno e para
muito além deste. “Ao longo dos anos, descobrimos que as plantas respiram com
todo o corpo, veem com todo o corpo, sentem com todo o corpo, calculam com
todo o corpo e assim por diante” (Mancuso, 2019, p. 96). Conectora basilar das
vidas e fluxos terrestres, seus corpos sintonizam com os ritmos de diversos
mundos e suas relações transformam e moldam a Terra. Sua motricidade, perene
e multidirecional, está no cerne das movimentações chaves para a vida, acima e
abaixo do solo. Na superfície, transforma a energia solar em alimento e troca os
gases da atmosfera por meio da fotossíntese. No subsolo, partilha informações e
nutrientes, por meio de suas raízes e de redes subterrâneas de comunicação,
geradas por associações simbióticas, conhecidas por micorrizas compostas
pelas raízes e filamentos de fungos, denominados micélios. Na floresta, entre o
céu, o solo e o subsolo, a árvore realiza os trânsitos que regulam o ciclo de água
doce do planeta. Enquanto uma parte da água da chuva e dos nevoeiros é retida
pelas folhas nas copas, sendo posteriormente devolvida à atmosfera pela
evaporação, a outra é absorvida pelo solo. Uma porção desta água será mantida
em reservas subterrâneas com o auxílio das raízes e outra, absorvida pelas
mesmas, será conduzida até as folhas por meio de um sistema de microvasos
paralelos, que formam o xilema, localizado nas camadas mais internas do tronco.
Devido à finíssima espessura desses vasos e das interconexões entre eles, por
onde a água circula, ela pode ser filtrada de impurezas como bactérias e metais
pesados. Assim, durante o processo de fotossíntese, a floresta retira o CO2 da
atmosfera e libera toneladas de vapor d’água limpa através de pequenos poros
que gerenciam as trocas de gases na superfície das folhas, os estômatos. Em sua
aparente solidez, a árvore pulsa e abriga, não uma miríade de amálgamas e
dinâmicas transformadoras, mas também a constante fluidez de rios verticais de
escala micrométrica, que conectam o céu e a Terra.
Conversar com Árvores: a criação como prática cosmopolítica
Christiane Lopes da Cunha
Florianópolis, v.3, n.56, p.1-32, dez. 2025
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Para viver, árvores e humanos dependem da capacidade de sintonização com
a contínua produção de diferença dos ritmos luminosos, sonoros, térmicos,
aromáticos etc. – que compõem e conectam seus pluriversos (Cunha, 2023a). No
item anterior, a relação entre as perspectivas animistas e o aguçamento da
percepção em formas de engajamento multimodais, foi citada perante a
imprevisibilidade de mundos em constante intercomunicação e transformação.
Tessituras que implicam uma multissensorialidade vivida e moldada na relação
com o(s) Outro(s), para além do âmbito da linguagem como representação de um
único mundo pré-existente. Na fluidez das interações anímicas, os sentidos são
preparados para e pelo ritmo, de modo que, conforme citado anteriormente, o
corpo se torne múltiplo, entrelaçado ao(s) extra-humano(s). Para existir, este corpo
poroso, cujas frequências se embaralham com outras frequências, depende de
fabricações, articulações e negociações constantes, entre substâncias palpáveis e
impalpáveis. Abordagem que dialoga com a definição do filósofo Bruno Latour
(2008, p. 39), para quem o corpo se apresenta
[...] como um interface que vai ficando mais descritível quando aprende
a ser afectado por muitos mais elementos. O corpo é, portanto, não a
morada provisória de algo de superior - uma alma imortal, o universal, o
pensamento - mas aquilo que deixa uma trajectória dinâmica através da
qual aprendemos a registar e a ser sensíveis àquilo de que é feito o
mundo.
Formar um corpo, nesse contexto, é um processo que se realiza na relação
e na co-presença. Um corpo que sente e, ao sentir, integra e articula informações
em coextensividade com o que incide sobre o sensório. “Adquirir um corpo é um
empreendimento progressivo que produz simultaneamente um meio sensorial e
um mundo sensível” (Latour, 2008, p. 40). A partir de uma miríade de
conhecimentos, práticas rítmicas, que podem ou não envolver estados de
consciência expandida, ativam um espaço social, uma zona de indiscernibilidade
coextensiva com o extra-humano seja este uma mídia e/ou outras entidades.
Entidades visíveis e invisíveis, palpáveis e impalpáveis, uma vez que a ausência de
um corpo visível não significa a ausência de força. Na variabilidade dinâmica entre
mundos, sensações são, assim, absorvidas, registradas e processadas como
informações a serem manifestadas e traduzidas entre diferentes instâncias, de
forma que imagens-pulsões possam ser articuladas como e transitar entre