Várias vezes, no curso de minha vida, fui visitado por um mesmo sonho;
não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava, mas o
que me dizia era invariável: ‘Sócrates, dizia-me ele, deves esforçar-te para
compor música’ […]. E, palavra! Sempre entendi que o sonho me exortava
e me incitava a fazer o que justamente fiz em minha vida passada. Assim
como se animam corredores, também, pensava eu, o sonho está a
incitar-me para que eu persevere na minha ação, que é compor música:
haverá, com efeito, mais alta música do que a Filosofia, e não é
justamente isso que eu faço? (Platão, 1991, p. 61).
Nesta passagem, vê-se que o filósofo sempre fez ao logo de sua vida:
“compor música”. Os sonhos não lhe diziam para fazer algo diferente mas, pelo
contrário, que fizesse exatamente o que sempre havia feito: filosofia — ou seja,
música, poesia. Deste modo, desvela-se um entendimento da própria filosofia.
Que, ao chamado, “Sócrates respondesse à voz, como lhe caberia: ‘Mas não é isso
— poesia — o que eu sempre fiz?’ Sim, é isso, poesia, […] o que a filosofia faz e
Sócrates diz que sempre fizera” (Pucheu, 2022, p. 29).
A filosofia, assim, é compreendida como um ato poético de amor ao
conhecimento, à música, à poesia e — incluo — à dança realizada por um corpo
filósofo. O espantográfico é a criação que emerge de uma busca, de um desejo, de
uma questão. E a dança de que falo aqui é justamente essa que nasce do espanto.
Não se refere às sequências de passos já codificadas e coreografadas, mas a um
movimento que emerge, precisamente, de processos filosóficos, de um desejo
pela busca e, sobretudo, da persistência da paixão (páthos) e da abertura ao não-
saber. O corpo filósofo deve, de alguma maneira, cultivar estas disposições.
Filosófico, portanto, é o caráter de quem
é capaz de entregar-se ao espanto, à aporia, à vertigem, ao não-saber,
lugar preciso de onde pode emergir a descoberta, a sabedoria, o
conhecimento. Pois entregar-se à possibilidade, à pergunta, ao olhar com
presença, ao invés de às certezas ou ao já naturalizado, é a verdadeira
atitude filosófica. Entretanto, tal disposição deve ser exercitada, de algum
modo, cultivada como uma musculatura (Mota, 2024, p. 242).
Pois, cabeças-duras ou endurecidas, são aquelas pessoas que, sem a
disponibilidade ou abertura para o espanto, têm ódio ao logos — e,
consequentemente, aos seus processos. Vivem a ilusão de tudo poder “agarrar
solidamente com as mãos”, e “que não fazem a experiência da aporia (nem do
espanto” (Pucheu, 2022, p. 22). A amusicalidade, nesta direção, equipara-se à