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Aparições: estudos estranhos e corpos emergentes
frente às violências do Antropoceno
André Bocchetti
Para citar este artigo:
BOCCHETTI, André. Aparições: estudos estranhos e corpos
emergentes frente às violências do Antropoceno.
Urdimento
- Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.1, n.57,
abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0102
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Aparições: estudos estranhos e corpos emergentes frente às violências do Antropoceno
André Bocchetti
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
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Aparições1: estudos estranhos e corpos emergentes frente às violências do Antropoceno2
André Bocchetti3
Resumo
O texto toma o estudo como prática especulativa de criação e desmontagem de corpos em
favor de modos de viver contrários à insensibilidade reificada no Antropoceno. Para isso,
sugere o estudar como modo de emaranhamento e socialidade entre humanos e outros-
que-humanos, a partir de uma pesquisa-criação interessada nas dinâmicas de surgimento
de
aparições
: criaturas fabuladas que, nascidas da relação entre corpos ou vestígios,
emergem acompanhadas de histórias que nos dão condições de pensar e experimentar
outros modos de existir frente às ruínas dos nossos tempos.
Palavras-chave
: Estudo. Aparição. Pesquisa-criação. Práticas vestigiais. Corpo e Antropoceno.
Apparitions: strange studies and emerging bodies in the face of Anthropocene violences
Abstract
The text situates study as a speculative practice of creation and disassembly of bodies, in
favor of ways of living that counter the reified insensitivity of the Anthropocene. To this end,
it proposes studying as a mode of entanglement and sociality between humans and others-
than-humans, drawing on a research-creation approach concerned with the dynamics of the
emergence of
apparitions
: fabulated creatures that, born from the relationship between
bodies and/or vestiges, emerge accompanied by stories that enable us to think and
experiment with other ways of existing, capable of confronting the ruins of our times.
Keywords:
Study. Apparition. Research-creation. Vestigial practices. Body and Anthropocene.
Apariciones: estudios extraños y cuerpos emergentes frente a las violencias del Antropoceno
Resumen
El texto aborda el estudio como una práctica especulativa de creación y desmontaje de
cuerpos, en favor de modos de vida contrarios a la insensibilidad reificada en el Antropoceno.
Para ello, propone el estudiar como una forma de enmarañamiento y socialidad entre
humanos y otros-que-humanos, a partir de una investigación-creación interesada en las
dinámicas de surgimiento de apariciones: criaturas fabuladas que, nacidas de la relación
entre cuerpos y/o vestigios, emergen acompañadas de historias que nos brindan condiciones
para pensar y experimentar otros modos de existir frente a las ruinas de nuestros tiempos.
Palabras clave
: Estudio. Aparición. Investigación-creación. Prácticas vestigiales. Cuerpo y
Antropoceno.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Marcia Vidal Candido Frozza. Mestrado em
Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Graduação me Letras Língua português pela
UFSC. http://lattes.cnpq.br/4505691913539718
2 Este texto foi desenvolvido no âmbito do projeto de pesquisa “(Des)montagens de um corpo: cartografando
modos de existência em comunidades de educação somática”, contemplado pelo Programa Jovem Cientista
do Nosso Estado, da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj)
(Proc.: E-26/200.294/2023). Além disso, parte da investigação foi realizada durante estágio pós-doutoral em
2024 na região do Québec, Canadá, parcialmente financiada por meio de edital da Coordenadoria de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes Print.
3 Pós-doutorado pela Concordia University Canadá. Doutorado e Mestrado em Educação pela Universidade de
São Paulo (USP). Especialização em Educação a Distância pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Prof.
Adjunto da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ). andreb.ufrj@gmail.com
https://lattes.cnpq.br/5057082184074025 https://orcid.org/0000-0002-9773-4734
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Nós sempre fomos mais-do-que-humanos.
(Erin Manning)
A vida é “coisa sobrenatural”, nos diz Clarice Lispector em
A Paixão segundo
G.H
. (Lispector, 2020, p. 16). Olhando para a barata que esmagou com a porta do
armário do quarto de empregada de sua casa burguesa, G.H. vê a vida, vê a vida a
olhando. Em seu nojo e gozo, experimenta o que não se pode nomear do vivo, e é
justamente pela falta de nome que ela pode se achegar ao incomensurável da
existência, sem forma porque antes da forma, no “mundo primário”, como ela diz
(Lispector, 2020, p. 74).
É que aquilo que mantém a vida é seu interminável, diria também Tim Ingold
(2022), dessa vez longe da literatura, mas perto dos estudos antropológicos sobre
o fazer e das questões que eles levantam. No persistir do tempo, diz ele, se
condensam “tumultos de atividades” (Ingold, 2022, p. 125) a que convencionamos
chamar “corpos”, que, como tais, oscilam entre permanência e dissolução,
participando, aí, da continuidade que na sua presença se afirma e em seu
desaparecimento os ultrapassa. Corpos são, portanto, coisas, “[...] agregados de
fios vitais [...] onde vários aconteceres se entrelaçam”, diz o antropólogo (Ingold,
2012, p. 29). A noção de coisa carrega aqui, portanto, a vitalidade de um
emaranhado relacional que sempre ultrapassa a unidade que teimamos nela
vislumbrar. E nisso ela está bem perto, por sinal, da “coisa” de que fala Clarice,
vista como o nu da existência antes do nome, que ofusca G.H. com seus enigmas.
É a coisa, vivida ali de maneira imediata, entre mulher e barata, que absorve ambas
em um instante que desconhece os limites da forma.
Mas o que acontece quando existências inesperadas nascem entre tais
emaranhados da relacionalidade? E o que tais germinações colocam em jogo? Este
é um texto que se funda nesses intermináveis da vida; nesse continuar de que
falam Clarice Lispector e Tim Ingold, do qual os momentos de materialização dos
corpos são pontos de emergência. Seu interesse é flagrar o que aqui denomino
aparições
, entendendo por isso as dinâmicas de emergência que, no continuar da
vida e no emaranhamento entre seres humanos e outros-que-humanos, geram
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criaturas, estruturas e histórias que nos dão condições de pensar outros modos
de existir. Para isso, exploro relatos e imagens dos arquivos de uma pesquisa-
criação que desenvolvo desde 2023, interessada em mapear e criar políticas de
materialização de corpos, experimentando processos fabulativos que inventam
outros modos de ver e de contar histórias sobre um corpo. Tal processo
investigativo tem como dispositivo principal a realização de “ateliês de montagem
corporal”, momentos nos quais convido participantes a certas coreografias de
intimidade entre humanos, pedaços de terra e vestígios materiais, acompanhando
o surgimento de tais aparições e de fabulações que, a partir delas, nos colocam
diante de outros mundos e de outras perguntas. Ateliês como esses foram
realizados em diferentes contextos no Brasil, na Argentina, no Canadá e em
Portugal.
Se o Antropoceno recusa as lógicas de “respons-habilidade”, essas que nos
dão condição de responder ao que se passa por meio de vinculações e
afastamentos apaixonados e ativos, como diz a filósofa Donna Haraway (2023, p.
65) no âmbito de seus estudos sobre emaranhamentos entre espécies, há que se
colocar o problema da sensibilidade à multiplicidade de existentes como questão
urgente. Olhando para a incapacidade de pensar de Alfred Eichmann, o criminoso
de guerra nazista, Haraway a percebe como uma inépcia experimentada por “[...]
alguém que não podia se entrelaçar” (2023, p. 68), que não podia tornar presente
para si “[...] aquilo que não era ele mesmo” (2023, p. 68). Eichmann era incapaz de
pensar, pois não aprendeu a se comprometer com os emaranhados de mundo,
que o retirariam de seu ensimesmamento. “Como se importar, e não só querer se
importar?” (Haraway, 2023, p. 90) é uma pergunta, portanto, inerente ao pensar, e
urgente em meio às ruínas dos nossos tempos. Nas próximas linhas, problematizo
o estudo como uma possível resposta a essa questão. Vislumbro o estudar, antes
de tudo, enquanto uma
prática vestigial
, pela qual traços de materiais e rastros da
presença de corpos humanos e outros-que-humanos levam à composição de
mundos ainda não vividos necessários à sobrevivência e à resistência frente ao
que o Antropoceno nos deixou.
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Nos enovelamentos de uma antropologia como educação, Tim Ingold o
estudo como base de um educar tomado enquanto produção de
“correspondência” (2000, p. 60), de responsabilidades que, na mesma medida em
que contestam a permanência dos termos de uma relação, fazem com que ela
siga adiante.
Transformacional
(Ingold, 2000, p. 84), o estudo é a ativação do que
ainda não foi pensado pela composição com as excedências que lhe põem em
movimento; estudar é enfrentar os excessos – daquilo que ainda não somos, que
ainda não compreendemos, com o que ainda não nos importamos – em favor das
forças especulativas que lhe fazem desembocar no até então impensado. É, em
grande medida, lidar com as forças operativas e ecológicas do que aparece.
A lida com as aparições nos exige experimentar a forma como informe,
aparente paradoxo proposto por Sandra Ruiz e Hypatia Vourloumis (2023) para se
referir à inseparabilidade entre o que se forma e as configurações outras que, com
ele em ressonância e dissonância, dão às dinâmicas de formação o sentido de
uma solidariedade sempre efêmera e maleável entre existências prévias: forma
informe como a dança de um “enxame” em sua efervescência, nas palavras das
autoras (2023, p. 35). Por isso mesmo, a atenção aqui é sobretudo àquilo que,
desde as aparições, se pode flagrar de seu processo de construção; ou, dito de
outro modo, dos estudos que levaram ao seu surgimento, se pudermos pensar o
estudar como uma operação de e para a “sintonização” (Ruiz; Vourloumis, 2023, p.
23) entre humanos e outros-que-humanos.
Aparições, portanto, movem nossa atenção não às formas, mas às forças
processuais que lhes dão viabilidade. Nos caminhos desta investigação, tais forças
têm engajado a todos(as) que participam dos ateliês de montagem corporal em
processos de emergência de novas existências. Isso se dá por meio de
momentos
de estudo
que, em seu conjunto, vem materializando uma pesquisa-criação,
prática que se desenrola nas transversalidades entre o pensamento e o fazer, a
partir das forças de instauração da experiência imediata (Manning, 2016). Atento
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ao pensamento da filósofa e artista canadense Erin Manning4 e a seus movimentos
especulativos na filosofia processual, tenho tido a possibilidade de experimentar
e pensar as forças criativas dos processos de emergência, em estudo, dessas
aparições. Convocadoras de imaginações que tensionam as formas fixas e
apriorísticas, elas questionam o colonialismo em seus intentos de gerar corpos
previamente posicionados e calar o que não é humano. Não é à toa que as histórias
que delas emergem se enrolam, frequentemente, a pensamentos negros,
feministas, queers, ecológicos e indígenas, acostumados que estão a fazer ruir tais
estruturas coloniais e a nos levar a experimentar de outros modos aquilo que resta
em meio às ruínas do Antropoceno. Algumas dessas histórias são contadas a
seguir.
Cenas de germinação
Havia uma criatura estranha, ali, entre muitas outras, que chamou minha
atenção. Ou melhor: não, não
havia
uma criatura ali; ela
aparecia
ali, e isso faz toda
a diferença porque este não é um texto sobre o que é, mas sobre o
como
daquilo
que aparece. A tal criatura foi parida em dança5, em meio a certo momento de
estudo no qual uma “arquitetura móvel” (Manning, 2024, p. 137), um acontecimento
proveniente das forças gerativas de uma coreografia emergente, atuava. A criatura,
como qualquer corpo, era um “tumulto de atividades” (Ingold, 2022, p. 125), uma
“montagem corporal” (Bocchetti, 2024, p. 08) que implicava certa composição
dinâmica entre ritmos, gestos, movimentos faciais. Entre pedaços de terra e
vestígios de coisas sementes, cascas, galhos, pedras, mas também linhas,
objetos pessoais dos(as) participantes e folhas de papel –, ela emergia entranhada
em uma existência humana, mas não só, que lidava com as
necessidades
de
relação nascidas naquele encontro entre um prévio corpo que vagava, uma vagem
de casca grossa e um charuto deixados ali.
4 A quem agradeço imensamente pela parceria e tempo de convívio durante meu estágio pós-doutoral,
supervisionado por ela, na Concordia University, em Montréal, Canadá.
5 Essa primeira criatura, de que trato aqui, emerge durante um dos ateliês que venho realizando como parte de
meus processos de pesquisa-criação. Nesse caso, a proposição foi realizada no V Encuentro Lationamericano
de Investigadores de y desde los Cuerpos en las Culturas, realizado em Belo Horizonte, em novembro de 2024.
A proposição foi realizada na companhia dos professores Julia Castro Carvajal, da Universidad de
Antioquia/Colombia, e Hilderman Cardona Rodas, da Universidad de Medellín/Colombia, a quem agradeço
pelas tantas parcerias até aqui.
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Figura 1 Uma criatura que emerge e vagueia.
Não haveria criatura sem tais necessidades, ou seja, sem as demandas que
se originam das tendências de movimento de um processo de individuação. É a
partir de tais demandas expressivas que uma aparição se desenrola. E o que
permitiu que aquela existência singular se fizesse já o sabemos pelo menos desde
Espinosa: constituiu-se ali uma composição complexa, a partir dos encontros
entre as velocidades de certos elementos presentes dos quais o corpo humano,
o charuto ou a vagem são apenas as expressões mais evidentes. São eles que,
agenciados, produzem uma existência metaestável e com certas capacidades,
certos afetos, a que chamamos “um corpo”. Uma existência singular, de ritmo
próprio, parte dela visível por exemplo no gingado de seu deslocamento, no bater
rítmico da vagem no chão e na sua ressonância com o toque dos tambores da
música que ressoava durante parte da experiência.
vidas que, biologicamente falando, nascem por fecundação cruzada.
as que emergem por brotamento, as que derivam de bipartição, as que se originam
de esporos etc. Naquela tarde, testemunhei mais uma vez a um outro tipo de
nascimento, o qual tem povoado esse processo de pesquisa-criação na relação
entre as forças do estudo e da fabulação corpoescritural que ele coloca em jogo.
Um nascimento que se a partir da disponibilidade às aparições, dinâmicas de
surgimento de estruturas ou criaturas flagradas em sua emergência, em certo
cenário, e que nos dão condições de contar histórias nascidas dessas
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relacionalidades e de pensar a partir das forças processuais que possibilitam novas
existências.
A noção de aparição tem me ajudado a pensar com as forças criativas da
opacidade, da “penumbra de alternativas” (Manning, 2021) na qual somos
lançados(as) quando imersos(as) em certas proposições de estudo e nas ecologias
de existências que elas colocam em funcionamento.6 Ela remete à passagem
daquilo que Etienne Souriau, em seus estudos sobre os modos de existência,
chamaria de seres virtuais, “[...] começos, esboços, monumentos que não existem
e que talvez nunca existam” (Lapoujade, 2017, p. 36), a corpos, em sua relativa
perenidade. Mas nessa passagem residem mundos que a complexificam,
tensionam, falam de seus elementos e de sua possibilidade, e é neles, sobretudo,
que minhas investigações mais recentes estão interessadas.
Pensar com e a partir das aparições é, por um lado, atentar às forças
processuais que condicionam sua emergência, buscando mapear os modos pelos
quais movimentos de instauração recortam uma experiência ou acontecimento,
dele extraindo um conjunto singular de relações que passa a orientar certas
tendências que se afirmam pela formação de um novo modo de existência
(Manning, 2019a). Esse é um movimento que sempre começa pelo meio, por certo
espaço e tempo de emergência no qual as relações entre sujeito e objeto, como
entidades fixas, estão colocadas em xeque, e múltiplas existências, por vezes
mínimas e microscópicas, atuam. São
cenas de germinação
, como gostaria de
pensar a essas situações nas quais tendências à corporificação se desenrolam, a
partir das quais muitas histórias por contar; histórias que, por sinal, multiplicam
os que contam, talvez abrindo espaços para a experimentação de
ontoepistemologias alternativas na feitura de modos de ser e de viver junto, em
um mundo saturado e arruinado por histórias demasiado universalizantes.
Voltemos, por exemplo, à tal criatura que emergia entre pedaços de terra e
de vestígios de objetos durante uma oficina de estudo. Seria possível narrar certa
história de sua aparição a partir de um corpo humano, participante, que caminha
6 Manning, com base na filosofia de Whitehead, pensa a proposição como uma ocasião de instauração dessa
penumbra; uma “[...] iteração das complexificações de mundo e de seus potenciais relacionais” (Manning, 2021,
p.416) que, pela ambiguidade que instaura, funciona como atratora sensível de sujeitos a ela.
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entre pedaços, selecionando-os e coletando-os entre uma miríade de coisas
possíveis, de pedaços de madeira a fios de Internet, de pedras a folhas de papel
alumínio. Mas produzir tal narrativa a partir das capacidades de selecionar e coletar
desse participante talvez seja centrar demasiadamente nele as atuações que
participam da ecologia ali em funcionamento. As tendências à emergência não
surgem apenas desse participante. Sim, ele atua lá, mas não apenas. “Não apenas”,
por sinal, é uma expressão usada frequentemente pelo xamã andino Mariano
Turpo nos trabalhos etnográficos de Marisol de La Cadena (2024) quando os
choques ontoepistêmicos provocados pelas diferenças de pensamento entre
ambos mostravam o quanto as maneiras ocidentais e antropocêntricas de ver o
mundo são insuficientes para explicar as dinâmicas envolvidas na produção de
realidade pelos povos originários.
A cena de germinação da criatura em questão é muito mais interessante do
que um caminhar humano em seus processos intencionais de escolha. Ela inclui
a música que, multiplicando sons de tambores ao fundo, evoca a ancestralidade
desses instrumentos, tão frequentemente flagrada pela antropologia em suas
forças testemunhais de mundos pouco contados (ver, por exemplo, Goldman,
2003); envolve o jogo de baralhos de tarot disposto ao centro da sala, em forma
de mandala, fazendo funcionar certa oracularidade, ou seja, certa dispersão de
sentidos entre objetos e acontecimentos ali em operação;7 inclui o charuto, dado
pelo avô de uma das propositoras do trabalho, compreendido por ela como um
amuleto de família, ou ainda a vagem, coletada no início da experiência por outra
participante, nos arredores do espaço no qual nos encontrávamos.
E não é que a aparição em questão seja propriamente a simples junção
desses outros seres. O que ela de algum modo testemunha é uma composição
que se desenrola a partir da relacionalidade parcial entre aquilo que deles persiste:
relação com a “força da forma” (Manning, 2019b, p. 155) que carregam, sempre
prenhe de certa iminência a partir de traços deixados em seu processo de
perecimento, por meio de marcas, vestígios e pedaços derivados de formas de
habitar o mundo. São esses traços que incitam novas formações. Aquela criatura
7 A questão da oracularidade, sobretudo em seus desdobramentos educacionais, foi debatida por mim e por
colegas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), em outra ocasião, a partir de um trabalho
envolvendo movimento e escrita que realizamos desde 2020 (cf.: Bocchetti; Faria; Guedes, 2024).
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nasce, portanto, enquanto emaranhado forjado entre oracularidades,
ancestralidades, ritmos e sons de uma mistura entre o humano e os outros-que-
humanos em vias de (de)composição. Como corpo, ela se funda em “sociedades
de ocorrências” (Manning, 2019b, p. 145) que sempre devem sua produtividade
àquilo que lhes precede, à imortalidade parcial dos seres que, ao perecerem como
unidades, incitam a novas existências no interior de uma ecologia.
Aparições são, portanto, oportunidades de emaranhamentos de mundos. O
que o
não apenas
xamânico delata é a insuficiência de seguir contando histórias a
partir de modos de existência já reificados em seu direito de contá-las. É por isso
que, tão importante quanto atentar para a “[...] atuação de múltiplas histórias
conjuntas” (Tsing, 2023, 130) na constituição das paisagens multiespécies que
pesquisamos, é deixá-las emergir junto a existências até então impensadas ou
silenciadas. É nesse ponto que a atenção às aparições pode funcionar contra os
mecanismos de uma violência primeira, a do ontoepistemicídio moderno, que evita
toda a multiplicidade de forças e movimentos dos processos de emergência, em
favor de existências tomadas enquanto categorias fixas e previamente aceitáveis
que comandam as narrativas. No limite, é ele o responsável por essa perigosa
categoria colonialista, a categoria do “Humano”, que fundada a partir do século XV
passa a funcionar como força excludente de qualquer hibridismo que fizesse
frente a ela (Manning, 2019a). Não seria ela a força que, historicamente, operou
de tantas formas entre nós, por meio de etnocídios generalizados, eugenias
cientificamente embasadas, racismos de Estado ou menosprezo às formas de
existir e de narrar que questionassem sua primazia?
Contra a pureza da Humanidade, então, as composições da aparição. De
natureza política, as questões ligadas aos processos de aparição se somam à
pergunta sobre o direito de aparecer, na mesma medida em que o tensionam em
seus pressupostos e abrangência. Judith Butler se refere a tal direito pensando-o
como efeito de certa “[...] distribuição diferencial da condição precária” (Butler,
2018, p. 41) humana, mas gostaria também de pensá-la na perspectiva de uma
ontogênese quiçá um tanto mais estranha. À pergunta butleriana, “[...] quais
humanos contam como humanos?” (2018, p. 43), gostaria de somar: que outros-
que-humanos, de fato, contam? O que suas condições de aparecimento nos
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contam? O que as alianças inesperadas que lhes dão possibilidade de aparecer
reivindicam?
Os tensionamentos feitos por Butler no âmbito de seus estudos de gênero
nos mostram que o tornar-se humanamente “legível” (Butler, 2018, p. 45) se faz
por meio de percursos frequentemente árduos e pautados em necessárias
coligações. O que tenho buscado fazer, no entanto, é atentar para os caminhos de
formação de legibilidades outras-que-humanas, que frequentemente revelam
jornadas também complexas e repletas de coalizões, mas muitas vezes
interrompidas por meio de gestos que fazem com que criaturas e estruturas
desapareçam antes mesmo de revelarem suas forças de afirmação de outros
mundos, outras histórias e outras composições de vidas possíveis.
Modos de estudar
As políticas de aparição se moldam, portanto, entre histórias que contam de
processos de emergência e tensões em torno do direito (ou não) de aparecer.
Tomo aqui um exemplo simples. Em outro ateliê,8 uma mulher entra em uma
cuidadosa relação de estudo com o longo e fino tronco partido de uma árvore,
deixado entre tantos outros galhos e pedras no centro da sala. O que isso quer
dizer? Que ela o toca, conhecendo minuciosamente as fissuras, as curvas e os nós
disso que, vale lembrar mais uma vez, se torna vestígio de uma existência e que,
como tudo o que perece, carrega em si um potencial orientador de novos
processos e formas. No estudo no qual se engaja, a mulher acompanha atenta a
esses potenciais que podem derivar outras existências, experimenta em si mesma,
pelo toque e pelo movimento, as tendências à aparição; coloca sobre seu peito o
grande galho, respira um bom tempo com ele ali. Acontece entre ela, o galho e
alguns outros elementos um processo de emergência, provocado por uma espécie
de sintonização entre mulher, galho, papéis e materiais riscantes. ocorrências
sucessivas ali: as curvas do galho em movimento com o tronco da mulher, o
respirar entre ambos. a consistência do papel sentida na ponta dos dedos da
mulher e as tintas que riscam os dedos da mulher e o papel. uma sintonia
afetiva, formando uma ambientalidade de onde certas tendências e necessidades
8 Esse Ateliê foi realizado em Gaspésie, Canadá, em 28 de maio de 2024.
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implicam em expressividade. É isso que faz, finalmente, com que a mulher tenha
continuidade no galho, e o galho na mulher, e é nessa continuidade que uma
história emerge, produzindo outro corpo, no qual os nós são, agora,
experimentados como cotovelos. “Eu descobri que tenho cotovelos”, diz a mulher
minutos depois da experiência, essa que a levou a descobrir também modos de
olhar a partir de seus cotovelos. No registro feito por ela, inúmeras criaturas, olho-
nós, se espalham por uma folha de papel; em meio a eles, surgem escritas duas
séries de afirmativas singulares, nas quais podemos ler um pouco dessas misturas
que a experiência inventa: “os nós da madeira, os olhos da madeira”, repetem
várias frases soltas no papel; “meus olhos, meus cotovelos”, afirmam outras. Elas
falam dos devires devir-cotovelo dos nós, devir-olho dos cotovelos que
reinventam a mulher que estuda, e o próprio galho.
Figura 2 Olhos-nós.
A questão não é, portanto, simplesmente, a de fazer falar os inanimados, e
nem se resume a recuperar as histórias de “já existentes” ainda não tornados
legíveis ou apagados por racionalidades majoritárias e colonizadoras ainda que
este seja sem dúvida um exercício igualmente fundamental. Trata-se, sobretudo,
de nos posicionarmos no intervalo onde possam ser experimentados e flagrados
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os movimentos (intensivos) e possibilidades (políticas) de um processo de
emergência, para daí vasculhar o que ele nos faz pensar. Algo possível, apenas,
quando atentamos aos acontecimentos que nos engajam naquilo que eles têm de
excedência, de escape às existências previamente estabelecidas. Naquilo que
carregam, portanto, de “mais-que-humano”, ou seja,
O humano mais muitos-um espaços-tempos genérico-singulares de
experiência; o humano mais a improvisação acontecimental dos novos e
emergentes afetos de vitalidade; o humano mais as contingências
pertencentes a qualquer número de categorias; o humano mais o
potencial mais que atualmente humano, coletivamente individuante
(Massumi, 2024, p. 17).
Lidar com o humano, portanto, pela possibilidade de testemunhar aquilo que
está para além de seu limite e que, ao ser por ele experimentado, o transforma ou
o decompõe. As operações que interessam, aqui, são aquelas que provocam tais
transformações por meio do movimento de abandono de si mesmo e de
disponibilidade à possessão por outros humanos ou outros-que-humanos na
feitura de um devir: são operações de estudo. O estudar é tomado, aqui, como
condição para a participação do humano nos processos que o deformam em favor
das aparições, que desfazem suas condições prévias em favor da inauguração de
outros mundos e modos de existir.
O estudo é uma prática especulativa que implica uma despossessão de si e
uma possessão pela alteridade, como dizem Fred Moten e Stefano Harney (2024).
É labiríntico, como nos diz Larrosa (2003), e é justamente por sua condição de
deriva que em seu centro se origina a possibilidade de engajamento com o “mais-
que” dos seres e das coisas, ou seja, com as relações emergentes inerentes às
composições que se dão em certa ocasião de experiência (Manning, 2016). Estudar
é se refestelar em um labirinto no qual a incerteza dos caminhos se forja
justamente pela multiplicidade de possibilidades abertas quando categorizações
e figurações prévias são colocadas de lado.
Em um texto denominado
O dédalo e o labirinto
, Tim Ingold (2015) toma como
exemplo uma criança que, ao caminhar para a escola, não encontra nela, mas na
rua o espaço labiríntico. O que faz da rua um labirinto para ela é a atuação, ali, de
uma miríade de existências que a cativam por sua possibilidade de ocuparem uma
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posição muito distinta daquela que seria previsível. Enquanto caminha, a criança
se encontra não com objetos, mas com coisas, em sua condição de emaranhados
materiais sempre capazes de, no continuar da existência, vazar para além das
formas e posições fixas. A pedra, então, pode ser um projétil lançado ao buraco
no qual misteriosamente desaparece; o galho, batido contra a grade da casa, se
torna um instrumento que inventa uma sonoridade inesperada. Brincando com as
coisas no caminho, a criança não sabe onde a relação com elas irá desembocar.
Participando da continuidade inventiva das possibilidades com cada uma delas,
ela experimenta outros mundos, encontra outras histórias e se vê, ela mesma,
transformada. Talvez seja por isso que, ao falarem sobre estudo, Moten e Harney
prefiram pensar sua prática como próxima daquela das crianças que, com suas
caixas de brinquedo, fazem frequentemente com que a coisa com que brincam
perca qualquer nomeação apriorística a fim de que “entre em jogo” (2024, p. 120),
em novos modos de brincadeira, de pensamento, de relação.
O estudo, portanto, nos engaja em relacionalidades que, como tais, são
repletas de imprevisíveis. É uma errância entre movimentos para quem estuda em
dança, entre significações para quem estuda entre textos, entre sensações para
quem estuda na criação de uma obra artística, entre ritmos e melodias para quem
estuda com instrumentos. Ao investigar os processos de aparição, tenho
convidado participantes humanos(as) a, por meio de exercícios diversos, se
engajarem em momentos de estudo com outros humanos e outros-que-humanos.
É desde que posso acompanhar, por meio de registros e de conversas, aquilo
que se desenrola nas cenas de germinação que se compõem a partir das
relacionalidades entre eles.
Fabulações para resistir
Em outra dessas cenas,9 quinze corpos humanos se movem lentamente de
um lado a outro, de olhos fechados, em um espaço restrito, delimitado por duas
fitas paralelas coladas às paredes de uma sala. A estreiteza do percurso os levava
a se tocar e a deslizarem uns pelos outros. As músicas lhes convidavam a
movimentos lentos. O labirinto do estudo era, ali, forjado nos encontros entre
9 Trata-se de Ateliê realizado no Rio de Janeiro em dezembro de 2023.
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corpos que, por mais de vinte minutos, se perdiam uns nos outros. Após a
experiência, os(as) participantes seriam convidados(as) a registrar os mundos que
visitaram nesse tempo de aproximações incertas, deixando aparecer em meio a
tais fabulações as criaturas que habitavam esses ambientes. Uma delas foi
descrita como o guardião de uma terra chamada “Vulnerabilidade”, e foi chamada
“Toque-Toque” pela participante que lhe deu forma:
[...] ele não é grande, robusto e forte como guardiões de outras terras. Ele
é pequeno para caber na mão de cada visitante do território. Seu nome
remete ao barulho da chuva que cai ao fim da tarde naquela distante
região que poucos querem visitar. Quem se permite chegar, passa a amar
a pequeneza e a delicadeza de Toque-toque. [...] A princípio, para entrar
em Vulnerabilidade, Toque-Toque barra somente os que gritam ou os
irresponsáveis com as emoções do outro. Esses não entram em
vulnerabilidade (informação verbal, 2023).
Uma aparição remete sempre à cena de germinação que lhe condições de
existência, à ecologia que lhe suporta, e isso fala de sua importância como
testemunha e registro desse emaranhado de existências que lhe condição de
surgimento. A emergência de Toque-Toque se faz na relação com o movimentar
vacilante de um corpo humano; com o encontro das mãos de outro corpo; com o
susto que ainda outro corpo provoca; ou com as sensações provocadas pelas
carícias de um terceiro, em seu rosto. A história do guardião de “Vulnerabilidade”
se constrói, então, a partir de certo movimento de tradução que converte
ocorrências em expressividade, o choque entre mundos em um novo mundo, até
então inexistente. Se é possível a permanência parcial de um ser que perece em
meio a uma ecologia, a partir dos traços que nela deixa, é porque certa
capacidade tradutora na própria relação, que partindo do que subsiste de um
conjunto de existências anteriores, atua na germinação dos novos possíveis,
imprimindo expressividade às tendências em formação.
O estudo, aqui, não é senão o desenrolar dessa tradução. Do ponto de vista
da ontogênese, ele instaura a demora capaz de acolher os acúmulos provenientes
da relação imediata entre os existentes de uma ecologia. Essa demora vale menos
pela cronologia envolvida nela do que pelos estouros de presentificação da
experiência (Manning, 2019a) que por ela se viabilizam. Tais momentos de maior
intensidade são forjados nos emaranhamentos de traços que não concebem
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diferenciações entre passado, presente e futuro, e é por isso que a experiência
pode gerar uma “percepção não-sensorial” (Manning, 2019a, p. 12) que permite sua
persistência, fazendo imergir o corpo humano em um agregado que mistura
memórias involuntárias aquelas que tornam antigos contextos inseparáveis da
sensação presente, como diz Deleuze (2006, p. 56) e fabulações. No caso de
Toque-Toque, por exemplo, esse enovelamento inclui uma situação de abuso
sexual vivenciada pela participante humana que atua mais diretamente em sua
aparição. Mais uma vez, porém, dizer que tal situação de abuso foi apenas revivida
pela participante durante o processo de aparição de Toque-Toque, embora talvez
adequado do ponto de vista da experiência do sujeito, não conta das
composições que emergem ali. Durante a ação processual – é o próprio processo,
e não o sujeito pré-constituído que age em uma experiência (Manning, 2019a) –,
traços desse ato violento subsistem em meio a outros, dos demais existentes.
Sendo a germinação imprevisível, uma composição singular se ali pela operação
dos traços provenientes das carícias, das memórias, das sensações e das forças
fabulativas. Toque-Toque não é, portanto, somente um lamento diante da
violência experimentada na situação de abuso, mas emergência em meio a uma
ecologia bem mais ampla, que inclui traços de um corpo humano que dela
participa, mas
não apenas
. Suportada por essa ecologia, tal criatura adquire direito
de aparecer, expressando em si mesma, sempre de modo parcial, as
relacionalidades que carrega como qualquer existente, por sinal. como
existente, então, ela pode (ou não) figurar parcialmente essa situação de abuso,
mas abrindo-a a um mais-que que a remete a outros possíveis e que faz possíveis
outras estórias e outros mundos, como o de “Vulnerabilidade”.
Aparições fazem frente então a uma série de violências epistêmicas que
teimam em tentar nos contentar com o dado dos mundos dos quais, muitas
vezes, gostaríamos de nos despedir. Frequentemente na forma de fabulações
corpóreas, elas nascem em cenas de emergência que reinventam histórias do viver
humano ou outro-que-humano a partir de tendências mais-que-humanas nelas
colocadas em jogo.
Uma parte importante das violências promovidas pelos modos de governar
coloniais se alimenta daquilo que Nêgo Bispo (Santos, 2023, p. 19) chama
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“cosmofobia”, essa aversão ao envolvimento com outros existentes que a
categoria do Humano, com sua separabilidade individualizante e vontade de tornar
o mundo cada vez menos orgânico e mais “sintético” (Santos, 2023, p. 30), carrega.
Os corpos são peças fundamentais aí: ligados como estão, em sua construção
ocidental, à posicionalidade prévia e ao distanciamento apriorístico daquilo que é
lido como seu exterior, adquirem uma perenidade perigosa, na qual formas de
governo incidem, inventando localizações eternas para esses corpos: identidades
prévias, grupos sociais adequados, disciplinarizações do tempo e do espaço.
As aparições zombam dessa perenidade. Frutos de uma socialidade estranha
entre humanos e outros-que-humanos, emergem daquilo que modifica as
condições de um campo relacional, abrindo oportunidade para recomposições que
dão mostra de que um corpo é sempre uma multiplicidade cuja duração é
demarcada pela persistência de uma expressividade no mundo (Manning, 2024), e
não por uma forma apriorística à ação. Aparições podem derivar, nesse sentido,
daquilo que Erin Manning pensa, mais uma vez em conversa com Fred Moten,
como modos negros de se experimentar as estéticas da socialidade (Manning,
2020). Socialidades negras resistem a qualquer ideia de interpessoal, o que remete
à existência prévia de sujeitos individuais, delimitados e autocontidos. Contra esse
“1+1” (Manning, 2020, p. 60) da interpessoalidade, contra essa soma sem
excedentes, os modos negros de se ajuntar naquilo que Fred Moten e Stefano
Harney chamam
undercommons
se alimentam da emergência de outras maneiras
de viver: “n+1”, diz Manning (2020, p. 60), salientando a abertura de possíveis para
além do já existir da vida humana reconhecível.
Há, portanto, uma importante descolonização do corpo em jogo aqui. Ao
derivarem de uma ecologia fabulativa em movimento, as aparições implicam
dinâmicas de dissolução das posições ocupadas por corpos que dela participam.
Vale ressaltar o processo: existências prévias carregam traços, que em sua
incipiência são ativados em um processo de corporificação que, como qualquer
processo, coloca uma ecologia operativa em jogo. As relações entre os elementos
dessa ecologia, geralmente mediadas pelo toque nos exercícios propostos, abrem
espaços para processos de tradução que imprimem expressividade a esses
encontros, formando novas criaturas e estruturas. Algo, então, acontece com a
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organização anterior dos corpos no decorrer dessa dinâmica: sofrendo
modificações em seus elementos previamente constitutivos, já que emaranhados
a outras existências na ecologia que ali opera, eles são desmontados, ou seja,
experimentam um desalinhamento das políticas de agenciamento de seus
elementos (Didi-Huberman, 2016), que movem suas posições e relações. Tais
desmontagens abrem, então, espaço para que uma “recalibragem intensiva” do
que excede a estrutura dos corpos se dê; forças podem, então, seguindo outras
tendências dos processos nos quais estão envolvidas, fundar outros corpos ou
transformar aqueles que participaram das ecologias que lhe deram condições de
atuação. As novas montagens corporais alteram as configurações dos elementos
que participam de uma ecologia, abrindo espaço para que outras histórias possam
ser, então, contadas, e outras vidas experienciadas.
Tome-se, finalmente, a criatura que emerge das relacionalidades entre solo,
árvore e corpo humano narradas por Raffaele Rufo em um texto chamado
Sentindo com as árvores: explorações em reciprocidade de percepção
(Rufo,
2022). Em meio a uma série de experiências com modos somáticos e
improvisacionais de atenção a partir de movimentos de “deitar” (
lying
), “enraizar”
(
grounding
) e “moldar” (
shaping
), o corpo de Rufo submerge, em uma das
experimentações, entre folhas, galhos, terra e a pequena fauna que habita esses
espaços. A criatura que nasce desse encontro está soterrada em folhas. A bem da
verdade, é o próprio soterramento que lhe constitui. Ela nasce de um
concernimento whiteheadiano, ou seja, de um envolvimento entre todos esses
seres que os coloca em co-habitações recíprocas que direcionam a novas
emergências. O responsável por esse concernimento, vale reafirmar, não é Rufo,
mas é a própria ocasião que, como diz Erin Manning, “[...] não é o sujeito que
inicia o processo; é o processo que ativa um sujeito” (Manning, 2024, p. 256).
A emergência dessa criatura se por um modo de estudo, ou seja, de
permanência labiríntica e repleta de possessões cruzadas que, nesse caso, se faz
a partir de um deitar sob as árvores e daquilo que, em meio às sensações de Rufo,
emerge do campo relacional produzido. É interessante ver como Rufo narra a
experiência:
Ouço meus pés se arrastando pelas folhas, mesmo estando ainda de pé.
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Supero a resistência de deitar no chão com meu corpo nu. Mergulho
nessa pilha úmida e misteriosa de folhas em decomposição sob a árvore.
De olhos fechados, encontro quietude ao encontrar a quietude da terra:
essa presença profunda de algo muito antigo, de um tempo muito mais
velho do que se pode sequer começar a imaginar. A chave para essa
sintonia sensorial é a respiração. Brinco com o toque e o peso. O corpo
inteiro estremece a cada pequena pressão. Sigo o pulsar do coração no
peito, no ventre, nas mãos. Percebo o impulso dos meus dedos sendo
provocado pelas folhas. A terra respira comigo. A árvore respira comigo.
Uma pequena criatura acabou de atravessar meu pescoço, e outra fez
cócegas na minha orelha. Um pássaro pousa na árvore acima e, de
repente, alça voo novamente. Outra folha cai da árvore atrás de mim,
para encontrar seu destino no chão. Abro os olhos de repente,
surpreendido pela luz do sol atravessando o ar entre os galhos.
Permanecer aqui é tornar-se testemunha: do meu coração, da minha
respiração, desta terra, desta árvore. Permanecer aqui é ser
testemunhado: pelas camadas de galhos quebrados, pedaços de casca,
fragmentos de folhas de diferentes tipos e cores, pedrinhas, vermes e
insetos, umidade e matéria ressequida (Rufo, 2022, p. 14)10.
É pelo permanecer implicado do estudo que o testemunho da emergência de
outros mundos pode se dar. É a partir dele que, no caso da relação entre Rufo,
bichos, húmus e folhas, pode emergir uma criatura derivada do emaranhado de
existentes, que abre espaço para discussões sobre “reciprocidade” e
“responsabilidade interespécie” e suas ressonâncias em favor das forças
decoloniais que não operam rumo ao “desenvolver”, mas ao “envolver” dos seres,
como advoga Nêgo Bispo (Santos, 2023, p. 30).
Por fins (ou contra eles)...
Quando problematizamos mundos a partir das aparições nascidas em
estudo, portanto, tensionamos violências coloniais epistêmicas que imprimem
regimes de posicionalidade a corpos e existências. Participamos das forças
10 I hear my feet crawling through the leaves as I am still standing. I overcome the resistance to lying on the
earth with my naked body. I dive into this wet, mysterious pile of decomposing leaves under the tree. Closing
my eyes, I find stillness by finding the stillness of the earth: that profound presence of something very ancient,
of a time much older than one can even begin to imagine. The key to this sensory attunement is breathing. I
play with touch and weight. The whole body shivers at each little pressure. I follow the heart pulsing in the
chest, in the belly, in the hands. I notice the impulse of my fingers tickled by the leaves. The earth is breathing
with me. The tree is breathing with me. A tiny creature just crawled across my neck, and then another tickled
my ear. A bird lands on the tree above, and suddenly takes off again. Another leaf falls from the tree behind
me, to meet her destiny on the ground. I open my eyes suddenly, caught by surprise from the light of the sun
crossing the air between the branches. To stay here is to become a witness: of my heart, of my breath, of this
earth, of this tree. To stay here is to be witnessed: by the layers of broken branches, pieces of bark, bits of
leaves of different kinds and colors, pebbles, worms and insects, moisture, and dried matter. (Tradução nossa)
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fabulativas das ecologias que operam em determinada ocasião, isto é, dos
estouros generativos que ativam o menor das relacionalidades, em favor de outros
modos de existência (Manning, 2019c).
Contrárias, portanto, às existências previamente posicionadas, as aparições
fazem frente ao fim: ao fim traduzido em História única, já que não se submetem
aos universalismos totalizantes e totalitaristas do real; ao fim encarnado em
produto, na medida em que atentam ao mais-que que habita as forças
processuais, sempre em abertura; ao fim como inviabilidade do mundo, na medida
em que reconhecem que um único mundo é por si mesmo inviável, e que fazem
derivar multiplicidades de modos de experimentar a vida para além de suas ruínas.
Nascidas de engajamentos imprevisíveis e gerando implicações entre seres até
então incomponíveis, elas falam do estudo como dinâmica embebida na “[...]
expressão operativa de mundos em processo de fazer-se” (Manning, 2018, p. 274).
Em outras palavras, fazem do estudar e de suas artisticidades uma possibilidade
de encontrar a vida que habita a relação com o que é estranho, experimentando
daí mundos que retornam – mundos para além e para aquém do humano, como
já nos diziam, há muito, os contos de Clarice...
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Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br