
Aparições: estudos estranhos e corpos emergentes frente às violências do Antropoceno
André Bocchetti
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-22, abr. 2026
Supero a resistência de deitar no chão com meu corpo nu. Mergulho
nessa pilha úmida e misteriosa de folhas em decomposição sob a árvore.
De olhos fechados, encontro quietude ao encontrar a quietude da terra:
essa presença profunda de algo muito antigo, de um tempo muito mais
velho do que se pode sequer começar a imaginar. A chave para essa
sintonia sensorial é a respiração. Brinco com o toque e o peso. O corpo
inteiro estremece a cada pequena pressão. Sigo o pulsar do coração no
peito, no ventre, nas mãos. Percebo o impulso dos meus dedos sendo
provocado pelas folhas. A terra respira comigo. A árvore respira comigo.
Uma pequena criatura acabou de atravessar meu pescoço, e outra fez
cócegas na minha orelha. Um pássaro pousa na árvore acima e, de
repente, alça voo novamente. Outra folha cai da árvore atrás de mim,
para encontrar seu destino no chão. Abro os olhos de repente,
surpreendido pela luz do sol atravessando o ar entre os galhos.
Permanecer aqui é tornar-se testemunha: do meu coração, da minha
respiração, desta terra, desta árvore. Permanecer aqui é ser
testemunhado: pelas camadas de galhos quebrados, pedaços de casca,
fragmentos de folhas de diferentes tipos e cores, pedrinhas, vermes e
insetos, umidade e matéria ressequida (Rufo, 2022, p. 14)10.
É pelo permanecer implicado do estudo que o testemunho da emergência de
outros mundos pode se dar. É a partir dele que, no caso da relação entre Rufo,
bichos, húmus e folhas, pode emergir uma criatura derivada do emaranhado de
existentes, que abre espaço para discussões sobre “reciprocidade” e
“responsabilidade interespécie” e suas ressonâncias em favor das forças
decoloniais que não operam rumo ao “desenvolver”, mas ao “envolver” dos seres,
como advoga Nêgo Bispo (Santos, 2023, p. 30).
Por fins (ou contra eles)...
Quando problematizamos mundos a partir das aparições nascidas em
estudo, portanto, tensionamos violências coloniais epistêmicas que imprimem
regimes de posicionalidade a corpos e existências. Participamos das forças
10 I hear my feet crawling through the leaves as I am still standing. I overcome the resistance to lying on the
earth with my naked body. I dive into this wet, mysterious pile of decomposing leaves under the tree. Closing
my eyes, I find stillness by finding the stillness of the earth: that profound presence of something very ancient,
of a time much older than one can even begin to imagine. The key to this sensory attunement is breathing. I
play with touch and weight. The whole body shivers at each little pressure. I follow the heart pulsing in the
chest, in the belly, in the hands. I notice the impulse of my fingers tickled by the leaves. The earth is breathing
with me. The tree is breathing with me. A tiny creature just crawled across my neck, and then another tickled
my ear. A bird lands on the tree above, and suddenly takes off again. Another leaf falls from the tree behind
me, to meet her destiny on the ground. I open my eyes suddenly, caught by surprise from the light of the sun
crossing the air between the branches. To stay here is to become a witness: of my heart, of my breath, of this
earth, of this tree. To stay here is to be witnessed: by the layers of broken branches, pieces of bark, bits of
leaves of different kinds and colors, pebbles, worms and insects, moisture, and dried matter. (Tradução nossa)