1
Projeto Respiradores: arte e educação em
performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Para citar este artigo:
D’AVILA JUNIOR, Francisco de Paulo. Projeto
Respiradores: arte e educação em performance no
Antropoceno.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v. 1, n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0302
Este artigo passou pelo
Plagiarism Detection Software
| iThenticate
A Urdimento está licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
2
Projeto Respiradores1: arte e educação em performance no Antropoceno2
Francisco de Paulo D’Avila Junior3
Resumo
O artigo apresenta o Projeto Respiradores como prática artístico-pedagógica voltada a
estudantes do Ensino Fundamental II. Justifica-se pela necessidade de propor práticas
que integrem arte, educação e sustentabilidade, diante dos desafios éticos e
ambientais que marcam o Antropoceno. A metodologia é qualitativa, delineada como
estudo de caso, fundamentada em registros audiovisuais e observações do professor-
artista. O referencial teórico integra a ecosofia de Félix Guattari e os estudos da
performance de Richard Schechner e Gilberto Icle. Conclui-se que a experiência
favoreceu o desenvolvimento da sensibilidade crítica, da consciência ecológica e do
engajamento coletivo.
Palavras-chave
: Projeto Respiradores. Ecosofia. Estudos da performance. Antropoceno.
Project Respirators: art and education in performance in the Anthropocene
Abstract
The article presents the Respiradores Project as an artistic-pedagogical practice aimed
at lower secondary school students. It is justified by the need to propose practices that
integrate art, education, and sustainability in response to the ethical and environmental
challenges that characterize the Anthropocene. The methodology adopts a qualitative
approach, designed as a case study, grounded in audiovisual records and observations
conducted by the teacher-artist. The theoretical framework brings together ecosophy
and performance studies. The study concludes that the experience fostered the
development of critical sensitivity, ecological awareness, and collective engagement.
Keywords:
Respiradores Project. Ecosophy. Performance Studies. Anthropocene.
Proyecto Respiradores: arte y educación en la performance en el Antropoceno
Resumen
El artículo presenta el Proyecto Respiradores como una práctica artístico-pedagógica
dirigida a estudiantes de la Educación Secundaria Básica. Se justifica por la necesidad
de proponer prácticas que integren arte, educación y sostenibilidad, frente a los
desafíos éticos y ambientales que caracterizan el Antropoceno. La metodología es de
enfoque cualitativo, delineada como estudio de caso, basada en registros audiovisuales
y en observaciones del profesor-artista. El marco teórico integra la ecosofía y los
estudios de la performance. Se concluye que la experiencia favoreció el desarrollo de
la sensibilidad crítica, la conciencia ecológica y el compromiso colectivo.
Palabras clave
: Proyecto Respiradores. Ecosofía. Estudios de la Performance.
Antropoceno.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Tais Chaves Prestes. Doutorado em Letras pela
Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). chavesprestes@gmail.com
2 Este artigo deriva da dissertação de mestrado do autor, defendida em 2023, na Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), sob o título Para pensar arte, educação e sustentabilidade: um estudo do Projeto Respiradores, pela ótica das
noções de Ecosofia e Educação Performativa, sob orientação do professor doutor Maurilio Andrade Rocha.
3 Doutorando em Educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Membro do grupo de pesquisa Labelit Laboratório
de Estudos em Educação, Linguagens e Teatralidades (UFPR/CNPq). Bolsista Capes-Proex 2024-2028. Mestrado em
Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduação - Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal
de Pelotas (UFPEL). davilafrancesco@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1804150373311243 https://orcid.org/0000-0003-2140-1674
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
3
Introdução
Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...
(
Terra
, 1975, Caetano Veloso).
Esse trecho da canção Terra, de Caetano Veloso, remete ao impacto
provocado pelas primeiras imagens do planeta vistas do espaço, episódio que
marcou profundamente o compositor durante o período em que esteve preso na
ditadura militar. Foi a partir do contato, ainda no cárcere, com imagens da Terra
publicadas em uma revista que Caetano elaborou poeticamente a percepção do
planeta como totalidade sensível. Em 1968, com o auxílio do foguete Saturno V
SA-503, a missão Apollo 8 realizou a inédita viagem tripulada em órbita da Lua,
com duração de seis dias, revelando, ao buscar novos horizontes no cosmos, a
paradoxal descoberta daquilo que já nos pertence: o nosso próprio lar.
Enquanto os registros fascinavam a humanidade, no solo terrestre cresciam
os debates sobre os limites do planeta, em meio à Corrida Espacial e à
constatação da rápida degradação ambiental. A partir da segunda metade do
século XX, aumentou a atenção de governos, acadêmicos e instituições
internacionais para os riscos associados à exploração insustentável dos recursos
naturais, resultando em iniciativas e políticas voltadas para a promoção de
formas de desenvolvimento que considerassem, ainda que de maneira parcial e
gradual, o equilíbrio entre as necessidades das gerações presentes e futuras.
Desde a
Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano4
,
realizada em 1972 em Estocolmo, as discussões globais sobre sustentabilidade e
preservação ambiental têm se intensificado. Contudo, a recorrência de
catástrofes ambientais nos últimos anos evidencia as fragilidades das respostas
de tecnocratas e instituições internacionais na prevenção, monitoramento e
mitigação desses problemas.
Em meio a intensas transformações e à medida que se percebe o aumento
4 Foi o primeiro grande encontro internacional sobre questões ambientais e deu origem ao Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
4
na intensidade de fenômenos de desequilíbrio ecológico, cientistas, estudiosos e
ambientalistas questionam práticas associadas a um modelo de
desenvolvimento irresponsável, que ameaça a vida na Terra. Tais práticas são
frequentemente justificadas pela premissa do desenvolvimento técnico-científico
e econômico; contudo, mostram-se incapazes de apreender a problemática em
sua complexidade e nas implicações que dela decorrem.
Nesse contexto, uma vertente significativa da comunidade científica passou
a defender que vivemos aquilo que tem sido denominado Antropoceno,
entendido como uma proposta de época geológica ainda em debate,
caracterizada pelo fato de que a ação humana teria se tornado uma força capaz
de alterar profundamente os sistemas naturais do planeta. O Antropoceno é
evidenciado pela presença de uma marca geológica deixada pela ação humana
nos sedimentos da Terra, associada às mudanças climáticas aceleradas e à
profunda transformação dos sistemas biológicos em escala planetária. “O termo
Antropoceno foi proposto no início dos anos 2000 pelo geoquímico Crutzen,
acompanhando a hipótese de que o planeta estaria entrando em uma nova era
geológica” (Melin, Kondratiuk, 2024, p.7).
No entanto, mais do que uma categoria estritamente geológica, o
Antropoceno vem sendo mobilizado como um conceito crítico capaz de
confrontar as formas modernas de relação entre humanidade e natureza.
Segundo Bruno Latour, o Antropoceno caracteriza-se pelo fato de que, “pela
primeira vez na geo-história, declararíamos solenemente que a força mais
importante que molda a Terra é a da humanidade tomada em bloco e como um
único conjunto” (Latour, 2020a, p. 107).
É ainda essa contradição que o termo Antropoceno sintetiza, quaisquer
que sejam as controvérsias a respeito de sua data e de sua definição:
“De agora em diante, o sistema Terra reage à sua ação, de modo que
você não mais dispõe de uma paisagem estável e indiferente para alojar
seus desejos de modernização”. Apesar de todas as críticas feitas a esse
conceito, o prefixo “anthropos” aplicado a um período geológico é de
fato o sintoma de uma repolitização de todas as questões planetárias.
Como se uma etiqueta
Made in Human
tivesse sido gravada em todos
os antigos recursos naturais. (Latour, 2020b, p. 78-79).
O debate em torno do Antropoceno não se limita à constatação de suas
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
5
transformações ambientais e geológicas, mas também convoca reflexões éticas
sobre o futuro comum da humanidade e da Terra. Nesse sentido, diferentes
autoras e autores têm chamado atenção para a necessidade de repensar nossa
forma de habitar o planeta, destacando que o momento atual exige não apenas
diagnósticos, mas também o cultivo de novas possibilidades de existência. Para
Donna Haraway (2016, p. 140):
O Antropoceno marca descontinuidades graves; o que vem depois não
será como o que veio antes. Penso que o nosso trabalho é fazer com
que o Antropoceno seja tão curto e tênue quanto possível, e cultivar,
uns com os outros, em todos os sentidos imagináveis, épocas por vir
que possam reconstituir os refúgios.
Em diálogo com a autora, pode-se afirmar que reimaginar os futuros
possíveis passa pela arte e pela educação como campos capazes de ativar a
imaginação, a sensibilidade e a construção coletiva de outros modos de
existência. Diante das descontinuidades graves do presente, essas práticas não
se limitam à denúncia, mas operam como espaços de criação de refúgios
simbólicos e éticos, nos quais se ensaiam relações mais cuidadosas entre
humanos e não humanos, contribuindo para tornar esse período histórico mais
curto e menos devastador.
Diante da problemática ambiental e da complexidade sociopolítica e
cultural que a permeia, como a arte e a educação podem contribuir para a
criação de situações de ensino e aprendizagem que favoreçam o
desenvolvimento de uma consciência social responsável, especialmente no que
diz respeito à relação entre sociedade e meio ambiente? O
Projeto Respiradores
(2018), realizado em escolas públicas brasileiras, aponta para algumas
possibilidades. Produzido em diferentes edições desde 2018, o projeto se
consolidou como uma experiência coletiva de criação, debate e performance, em
que os participantes são chamados a elaborar dispositivos simbólicos de
produção de oxigênio e levar esses objetos para o espaço público em ações
performáticas.
O Projeto Respiradores, em sua edição, foi realizado entre fevereiro e
julho de 2022 na Escola Estadual Bernardo Valadares de Vasconcellos, em Sete
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
6
Lagoas/MG, com financiamento do
Prêmio Museu é Mundo
5. A proposta, de
caráter artístico-pedagógico, consistiu na criação de respiradores feitos com
garrafas PET, plantas e outros elementos cotidianos, com estudantes do Ensino
Fundamental II. Na ocasião, todo o processo foi registrado e resultou na
produção de um documentário do projeto. A investigação aqui apresentada adota
uma metodologia qualitativa, organizada como estudo de caso dessa edição do
Projeto Respiradores. A análise toma como base registros audiovisuais e
observações do professor-artista.
O referencial teórico articula duas noções principais: a
ecosofia
,
desenvolvida por Félix Guattari (2012), que propõe uma interconexão entre as
dimensões ambiental, social e subjetiva; e os
estudos da performance
, a partir
dos aportes de Gilberto Icle (2010) e outros autores, que permitem pensar a
escola como espaço de criação e experimentação performativa. Ao relacionar
esses dois campos, pretende-se compreender como o projeto mobiliza
sensibilidades e modos de subjetivação capazes de produzir consciência crítica e
engajamento ambiental.
Desse modo, este artigo organiza-se em três momentos: a apresentação
dos conceitos centrais, a descrição do desenvolvimento do Projeto Respiradores
e, por fim, uma reflexão crítica que entrelaça ecosofia e performance como
chaves interpretativas da prática.
Aportes conceituais para pensar o Projeto Respiradores
A Ecosofia
A Ecosofia de Félix Guattari é um conceito que combina ecologia, filosofia e
psicanálise. Guattari (1930-1992) foi um filósofo francês e ativista político,
conhecido por seu trabalho na área da teoria social e da ecologia. Para Guattari, a
ecosofia é uma abordagem que visa a transcender a dicotomia entre natureza e
sociedade, buscando uma relação mais equilibrada e harmoniosa entre os seres
humanos, o meio ambiente e as práticas sociais. A ecosofia propõe a
5 O Prêmio Museu é Mundo tem como objetivo identificar, incentivar e dar visibilidade a iniciativas artísticas
que promovam o desenvolvimento cultural e social, valorizando o potencial transformador da arte e sua
capacidade de gerar impactos amplos na sociedade. Ver mais em:
https://www.premiomuseuemundo.com.br/.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
7
interconexão de três ecologias: a ecologia ambiental, a ecologia social e a
ecologia mental, visando à transformação de padrões de pensamento, relações
sociais e práticas ambientais para criar um mundo mais sustentável e justo.
A primeira ecologia mencionada no livro é a “ecologia ambiental”, que trata
das relações entre os seres vivos e o meio ambiente físico. Guattari (2012)
destacou a importância de uma abordagem que fosse além da simples
preservação da natureza, enfatizando a necessidade de uma transformação
radical na relação entre a humanidade e o meio ambiente, visando à
sustentabilidade e ao equilíbrio ecossistêmico.
A segunda ecologia é a “ecologia social”, que se concentra nas relações
sociais e políticas. Guattari (2012) defendeu que os sistemas dominantes, como o
capitalismo global, produzem desigualdades sociais e promovem a destruição do
meio ambiente. Ele propôs a criação de novas formas de organização social e
política, baseadas na solidariedade, na diversidade e na participação ativa de
todos os indivíduos.
A terceira ecologia é a “ecologia mental” ou “ecologia da subjetividade”.
Guattari (2012) enfatizou a importância de repensar nossas subjetividades,
questionando os padrões de pensamento e comportamento que perpetuam a
destruição ambiental e a opressão social. Ele defendeu a criação de novas
formas de subjetividade que fossem mais abertas, criativas e responsáveis,
capazes de promover uma transformação positiva tanto em nível individual
quanto coletivo.
Ao registrar as três ecologias, ou as três possibilidades de visões sobre a
ecologia, Guattari (2012) nos possibilitou enxergar a partir de três lentes
discriminantes e de forma globalizada, os territórios existenciais da problemática
em questão. Ele foi enfático ao afirmar que:
As relações da humanidade com o socius, com a psique e com a
natureza tendem, com efeito, a se deteriorar cada vez mais, não em
razão de nocividades e poluições objetivas, mas também pela existência
de fato de um desconhecimento e de uma passividade fatalista dos
indivíduos e dos poderes com relação a essas questões consideradas
em seu conjunto (Guattari, 2012, p. 23).
Tão importante quanto pensar sobre meio ambiente é também pensar
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
8
sobre maneiras de ser, de conviver em sociedade, sobre direitos humanos,
levando em consideração a mesma perspectiva ético-política que atravessa
questões no âmbito da ecologia social, como comprar produtos de empresas
que se organizam a partir do trabalho escravo, com o da ecologia ambiental
através da especulação imobiliária que ameaça os manguezais brasileiros, além
“do racismo, do falocentrismo, dos desastres legados por um urbanismo que se
queira moderno, de uma criação artística libertada do sistema de mercado”
(Guattari, 2012, p. 15). Dessa forma, a questão da subjetividade, que estaria no
âmbito da ecologia mental, para Guattari, é elemento central para uma revolução
da percepção humana sobre o mundo em que vivemos, e sobre nós mesmos, no
que se refere ao agir sobre a preservação do meio ambiente. Sobre isso, o autor
mencionou:
Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica, a não ser em escala
planetária e com condição que se opere uma autêntica revolução
política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens
materiais e imateriais. Essa revolução deverá concernir, portanto, não só
às relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos
domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo
(Guattari, 2012, p. 9).
Preocupar-se sobre a relação da subjetividade com a exterioridade se torna
peça-chave em um mundo movido pelas relações de poder e regido quase que
univocamente por uma economia de lucro. Países e tutelas econômicas ao redor
do globo executam suas ações absurdas, que levam não somente à
pauperização da população, mas a tomadas de decisões que não avaliam os
riscos para a comunidade global, como é o caso, nas últimas décadas, da
proliferação de usinas nucleares pela Europa. O poder de mediação dos Estados
seu potencial diminuir e eles “se colocam, na maioria das vezes, a serviço
conjugado das instâncias do mercado mundial e dos complexos militares-
industriais” (Guattari, 2012, p. 10). A desvalorização do trabalho social e todas as
questões levantadas até aqui, segundo Guattari, nos colocam diante de um
paradoxo lancinante:
de um lado, o desenvolvimento contínuo de novos meios
técnicocientíficos potencialmente capazes de resolver as problemáticas
ecológicas dominantes e determinar no reequilíbrio das atividades
socialmente úteis sobre a superfície do planeta, e de outro lado, a
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
9
incapacidade das forças sociais organizadas e das formações subjetivas
constituídas de se aprimorarem desses meios para torná-los operativos
(Guattari, 2012, p. 12).
Sem determinar uma cartilha de como propor essa reinvenção do ser-em-
grupo, o autor imaginou ser possível experimentar práticas tanto na esfera do
microssocial quanto em esferas maiores. Tentar reestruturar os processos de
subjetivação individual ou coletiva passa pela questão de que “o inconsciente
permanece agarrado em fixações arcaicas apenas enquanto nenhum
engajamento o faz projetar-se para o futuro” (Guattari, 2012, p. 20).
Conforme o autor avança em seus escritos, traz uma importante
constatação, que se refere à ampliação dos domínios do que prefere denominar
como CMI (Capitalismo Mundial Integrado). Segundo Guattari, o CMI, ao longo do
tempo, deixa de se restringir à produção de bens e serviços, passando a intervir
diretamente nas estruturas de signos, nas formas de linguagem e nos processos
de subjetivação. Portanto, ao fazer tal constatação, ele defendeu a necessidade
de novas práticas estéticas, analíticas e de solidariedade das formações do
inconsciente.
Como uma resposta a esta crise socioambiental, Guattari convocou a
responsabilidade de diversos grupos, que ele chama de operadores, “de todos
aqueles que estão em posição de intervir nas instâncias psíquicas individuais e
coletivas (através da educação, saúde, cultura, esporte, arte, mídia, moda, etc.)”
(Guattari, 2012, p. 21). Sairia completamente dos domínios da ética que os
operadores se escondem atrás de uma neutralidade fundada em perpetuar o
controle do inconsciente. Muito pelo contrário, visto que os campos estéticos se
instauram no limiar dos campos “psi”.
De acordo com a convocação de Félix Guattari, acerca da importância de
operadores “psi” que estão em posição de intervir nos modos de subjetivação, e
com atenção à arte e à educação, é possível compreender que a ação de tais
operadores não se limita a uma função clínica ou terapêutica tradicional, mas se
estende à intervenção nos campos da criação e da transmissão de saberes. Se a
tentativa é a de escapar de padronizações sobre os modos de agir, pensar e
sentir, qual seria o papel da arte e da educação nesse imbróglio?
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
10
Os Estudos da Performance
Originada do francês antigo, a palavra "parformance" (do latim "per" e
"formare") tem em seu âmago a essência de executar, cumprir ou concluir,
representando a realização de tarefas, ações e atividades específicas. Essa forma
de expressão vanguardista desafiou os valores tradicionais das artes, quebrou as
barreiras entre campos de conhecimento e introduziu novas maneiras de criar e
compartilhar arte. No cerne dessas explorações, a performance possibilitava aos
artistas se conectar diretamente com o público, frequentemente provocando
escândalo entre os espectadores. Devido à sua postura radical,
A performance tornou-se um catalisador na história da arte do século
XX; sempre que determinada escola - que se tratasse do cubismo, do
minimalismo, ou da arte conceptual - parecia ter chegado a um
impasse, os artistas recorriam a performance para destruir categorias e
apontar para novas direções (Goldberg, 2012, p. 8).
A construção de performances não possui um único método correto,
permitindo que qualquer tema seja alvo de criação. Funcionando como um
amplo leque de possibilidades, a natureza pouco específica da performance
frequentemente a torna desafiadora de se definir. As performances podem se
desenrolar em diversos ambientes e têm como objetivo principal provocar
reações e reflexões na audiência. Elas podem ocorrer em um único momento ou
ser repetidas conforme a vontade do artista realizador. Embora a performance
esteja sempre buscando evitar categorizações e delimitações, conforme Renato
Cohen (2013, p. 28) destaca: “a performance é antes de tudo uma expressão
cênica: um quadro sendo exibido para uma plateia não caracteriza uma
performance; alguém pintando esse quadro, ao vivo, poderia caracterizá-la”. O
autor amplia essa caracterização abordando:
Poderíamos dizer, numa classificação topológica, que a performance se
colocaria no limite das artes plásticas e das artes cênicas, sendo uma
linguagem híbrida que guarda características da primeira enquanto
origem e da segunda enquanto finalidade (Cohen, 2013, p.30).
No entanto, a partir dos
Estudos da Performance
, a performance deixou de
estar circunscrita apenas ao campo das artes e passou a se infiltrar em outros
campos de conhecimento. Richard Schechner destaca-se como um dos
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
11
principais nomes no campo do teatro e da performance. Reconhecido por sua
relevância tanto na antropologia teatral quanto nos estudos da performance, ele
foi responsável pela criação do grupo experimental
The Performance Group
e
publicou diversas obras de referência sobre teatro, ritual e performance. Sua
produção intelectual discute, entre outros aspectos, a relação entre práticas
teatrais e contextos culturais, a compreensão da performance como forma de
existência e os vínculos entre arte e sociedade.
A partir da década de 1970, Richard Schechner ampliou o alcance do
conceito de performance, propondo sua aplicação em diferentes campos das
ciências humanas. Essa perspectiva possibilitou compreender práticas sociais
diversas como formas de performance, inclusive aquelas ligadas ao cotidiano.
Com isso, abriram-se novas fronteiras tanto dentro do próprio território da arte
quanto nas zonas de contato entre arte e vida. Nesse contexto, Schechner
identificou ao menos oito esferas em que a performance pode se manifestar: 1)
nas atividades diárias, como cozinhar, conviver e simplesmente viver; 2) nas
artes; 3) nos esportes e em outros tipos de entretenimento de massa; 4) no
universo dos negócios; 5) no campo da tecnologia; 6) nas práticas sexuais; 7) nos
rituais, sejam eles religiosos ou seculares; e 8) nas ações em geral.
Os estudos de Richard Schechner serviram de base para investigações no
Brasil que exploram a interface entre performance e educação, especialmente
por meio do conceito de Pedagogia Performativa, desenvolvido por Gilberto Icle.
Inicialmente, vale ressaltar a entrevista concedida por Schechner a Gilberto Icle e
Marcelo de Andrade Pereira em fevereiro de 2010, publicada no texto intitulado O
que pode a performance na educação?. Em determinado momento, ao ser
questionado sobre a relação entre Performance e Educação dentro dos Estudos
da Performance, Schechner destacou que a aproximação entre arte e prática
pedagógica é antiga, presente desde os rituais históricos, passando pelo teatro
clássico, até experiências de encenadores como Bertolt Brecht e Augusto Boal.
Em sua resposta, ele ressalta que:
Essa noção de reunião, de encontro, de interação da performance
poderia ser tomada como um modelo para a Educação. Educação não
deve significar simplesmente sentar-se e ler um livro ou mesmo
escutar um professor, escrever no caderno o que dita o professor. A
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
12
educação precisa ser ativa, envolver num todomentecorpoemoção
tomá-los como uma unidade. Os Estudos da Performance são
conscientes dessa dialética entre a ação e a reflexão (Schechner, Icle,
Andrade, 2010, p. 26).
Segundo Icle, a linguagem da performance funciona como um recurso,
sobretudo por seus aspectos transdisciplinares, abrindo caminho para uma
abordagem epistemológica inovadora e modos diferentes de conhecer. O caráter
de “acontecimento” e a centralidade da interatividade reforçam a ideia de que a
performance não se encontra em objetos isolados, mas na relação entre eles.
Para Icle, a aplicação da performance na educação pode colaborar no sentido de:
Performar a pesquisa, performar os professores e os alunos, performar
a escola, performar as políticas públicas, ou seja, dar novas formas, nos
olhares, transgredir as fronteiras do que é e do que pode se tornar. A
Performance poderia fazer tudo isso pela Educação e talvez mais. Ela é
um convite à experiência das bordas, das fronteiras, às práticas
interdisciplinares e a problematizações sobre a Cultura, sobre a Arte,
sobre a Linguagem temas que de nenhum modo são estrangeiros à
Educação (Icle, 2010, p. 20).
Entre diferentes abordagens, artísticas, antropológicas ou filosóficas, Icle
destaca um ponto de convergência entre performance e educação. Para ele, uma
das principais semelhanças reside na “centralidade do corpo como lugar e
referência por intermédio do qual o ato performático e sua performatividade
encontram termo” (Icle, 2010, p. 15). Segundo Icle, os estudos da performance
permitem vislumbrar uma variedade de possibilidades, nas quais:
Performance e a Performatividade aparecem como instrumentos pelos
quais é possível pensar as relações sociais, as políticas públicas, as
identidades de gênero e de raça, a estética, a infância, os rituais, a vida
cotidiana, entre outras (Icle, 2010, p. 15).
No artigo intitulado “Por uma pedagogia performativa: a escola como
entrelugar para professores-performers e estudantes-performers”, Icle e Mônica
Torres Bonatto aprofundam a discussão a partir de dois conceitos centrais: a
escola como entrelugar e os papéis de “professor-performer” e “estudante-
performer”. O conceito de entrelugar, desenvolvido pelos autores, se inspira na
ideia de espaço liminal do pesquisador Charles Garoian. Para Garoian (1999, p.
49), pensar a escola sob uma perspectiva liminal significa propor que os
“estudantes [pensem] e [ajam] de forma crítica, desafiando os pressupostos
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
13
históricos e culturais trabalhados nas escolas”. Essa abordagem nasce da
necessidade de repensar salas de aula rígidas, que restringem a expressão de
pensamentos e opiniões e tentam padronizar gestos e atitudes. Nesse sentido,
Icle e Bonatto (2017, p. 10) enfatizam que:
[...] a potência da noção de performance no campo da educação, em
especial na análise da escola, circunscreve-se não apenas no
diagnóstico (pensar a escola como performance), mas também na
proposição (pedagogias performativas), pois a qualidade da
performance (o performativo) é a capacidade que ela tem de nos
mostrar a transformação como fator essencial da ação humana: na
performance fazemos alguma coisa que nos permite refazer-nos a nós
mesmos (Icle, Bonatto, 2017, p. 10).
Com base na figura do performer, que emprega o próprio corpo como
instrumento de criação e expressão, os autores refletem sobre a urgência de
repensar os papéis assumidos por professores e estudantes ao longo do
processo de escolarização, isso “na contramão da lógica vigente, oferecendo
novas bases para a análise de práticas da educação básica e engendrando
proposições inéditas” (Icle, Bonatto, 2017, p. 10).
O Projeto Respiradores
A performance Homem Sustentável6 (2016), consiste em uma prática
performática que utiliza o respirador como elemento central e simbólico numa
ação de deslocamento pelas ruas da cidade. No trajeto, o respirador é
transportado junto ao corpo, sendo composto por um suporte de vidro,
contendo terra, uma planta e uma garrafa que libera sistematicamente gotas de
água no solo. Nesse sentido, o trabalho aborda de forma poética e engajada, a
consciência de que o ser humano é parte integrante da natureza, cuja
preservação é condição essencial para a própria existência. Ao evidenciar a
respiração, função vital mediada pela máscara de oxigênio e pela planta no
respirador, a obra sugere que a sobrevivência humana está inseparavelmente
ligada ao cuidado e à manutenção dos sistemas naturais.
Tal performance pode ser entendida como uma ação contra fluxo, visto
que é executada na rua, lugar de passagem, propondo dessa forma um
outro tempo-espaço. Se contrapondo aos apitos, sirenes, buzinas e
tráfego intenso, tanto de pessoas como de automóveis, o trajeto se
6 https://cargocollective.com/francescodavila/Homem-Sustentavel.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
14
constrói com passo miúdo e atento às diversas possibilidades de jogo
que o espaço urbano pode proporcionar. Sentar no banco da praça,
atravessar a faixa de pedestres, ler jornal na banca, ler um livro, utilizar
o celular, conversar com os transeuntes são algumas das ações
cotidianas que são executadas durante a performance. (D’Avila Júnior,
2025, p. 145).
Figura 1 -
Performance Homem Sustentável
na X Virada Sustentável de São Paulo, 20207.
Para além das ruas, constatou-se o caráter educativo da performance: o
respirador funcionava como um objeto artístico-pedagógico, e corredores e salas
de aula se revelavam como espaços igualmente aptos a acolher e desenvolver o
trabalho. Nasce então, o Projeto Respiradores (2018), uma proposta artístico-
pedagógica que busca unir arte, educação e conscientização ambiental por meio
da construção de respiradores feitos com garrafas PET e plantas.
A proposta já foi realizada em diferentes escolas e contextos, a citar: Escola
Municipal de Ensino Fundamental Silvina Gonçalves, em maio de 2018, na cidade
de Arroio Grande/RS; Escola Estadual de Ensino Fundamental Rio de Janeiro, em
agosto de 2018, em Porto Alegre/RS; Escola Estadual de Ensino Fundamental
Pedro Oscar Selbach, em dezembro de 2018, na cidade de Canela/RS; Escola
Estadual de Educação Básica Lourenço Leon Von Langendonck, e em
Maquiné/RS, em setembro de 2021; Escola Estadual Bernardo Valadares de
7 Fonte da imagem: https://share.google/images/ObnQu5yizGk2yR5gW
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
15
Vasconcellos, em Sete Lagoas/MG em junho de 2022; e mais recentemente, em
março de 2025, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Bela União e no
Centro Tecnológico Frederico Jorge Logemann, Horizontina/RS. Na edição de
Canela, uma reportagem foi realizada pela RBS TV. Para assistir, basta apontar a
câmera do celular para o QR Code a seguir:
Figura 2 Matéria RBS TV. Canela, 2018. Fonte: https://globoplay.globo.com/v/7257229/.
Para o presente relato, lançaremos o olhar para a edição do projeto,
apoiada pela 1ª edição do Premio Museu é Mundo e realizado em escola estadual
mineira. Foi realizado entre fevereiro e julho de 2022, na Escola Estadual
Bernardo Valadares de Vasconcellos, em Sete Lagoas/Minas Gerais. Esta edição
resultou na produção de um documentário, consolidando o caráter artístico-
pedagógico da iniciativa. Além disso, foram desenvolvidos materiais visuais que
acompanharam o projeto, conforme apresentado na Figura 3.
As turmas escolhidas para compor o trabalho foram os sextos anos do
Ensino Fundamental II, que no ano de 2022, integravam o turno vespertino da
escola. No momento em que as turmas foram escolhidas, foram elaboradas,
juntamente com a direção da unidade educacional, autorizações de participação
dos estudantes e de direito de uso de imagem, que seriam encaminhadas aos
responsáveis dos estudantes. As autorizações foram enviadas para os pais
através dos próprios estudantes, que tinham um prazo de sete dias para retornar
ao professor-artista.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
16
Figura 3 - Identidade Visual8 do Projeto Respiradores.
E.E. Bernardo Valadares de Vasconcellos, Sete Lagoas-MG, 2022. Fonte: Chris Moreira.
Durante a fase de pré-produção, uma produtora audiovisual a Cacto Filmes
foi contratada para registrar as etapas do projeto para a feitura do documentário.
Nesta fase, também houve uma movimentação de toda a comunidade escolar
na reunião dos materiais necessários para a construção dos mecanismos de
produção de oxigênio, principalmente, as garrafas PET. Para construir um
respirador, são necessários os seguintes materiais: 1 garrafa PET 5 lts, 1 garrafa
PET 280 mls, 1 planta, 1 máscara de oxigênio, 1 metro de mangueira transparente,
terra e água. Além disso, os estudantes também tiveram a oportunidade de
germinar suas próprias plantas, para que depois, na fase de montagem do
mecanismo pudessem ser utilizadas como elemento central dos respiradores.
Na etapa de discussão do Projeto Respiradores, os estudantes participaram
de rodas de conversa que ocorreram em diferentes ambientes da escola, como o
pátio e a sala de vídeo, para fomentar um diálogo aberto sobre os temas centrais
do projeto, incluindo arte, meio ambiente e sustentabilidade. “Nesse momento é
realizada uma contextualização histórica, biológica, filosófica, geográfica e
artística, com momentos de compartilhar informações e escutando o que os
alunos já sabiam sobre a temática” (D’Avila Júnior, 2021, p. 21).
As discussões abordaram a importância da preservação ambiental e o papel
dos povos indígenas como guardiões da natureza, além de explorar referências
8 A identidade visual foi desenvolvida pelo artista mineiro Chris Moreira.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
17
artísticas que conectam a arte à consciência ambiental. Para aprofundar a
reflexão, os alunos foram desafiados a realizar um exercício em casa, onde
deveriam discutir com suas famílias sobre desastres ambientais, como os de
Mariana e Brumadinho, e refletir sobre as implicações desses eventos,
culminando em uma análise crítica que uniu teoria e prática no contexto do
projeto. Na figura 4, um dos registros dessas rodas de conversa.
Figura 4 - Roda de discussão. E.E. Bernardo Valadares de Vasconcellos,
Sete Lagoas-MG, 2022. Foto: Alisson Oliveira9
Figura 5 - Montagem do respirador. E.E. Bernardo Valadares de Vasconcellos,
Sete Lagoas-MG, 2022. Foto: Alisson Oliveira.
9 As fotografias de todas as etapas do projeto foram realizadas pelo artista mineiro Alisson Oliveira.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
18
Na etapa de montagem dos respiradores, como observamos na figura 5, os
estudantes receberam garrafas de 5.000 ml e os materiais necessários, após
discussões sobre o funcionamento dos dispositivos. A atividade ocorreu em uma
área do pátio com terra orgânica, incentivando a coleta local. Sob a mediação do
professor-artista, os alunos fizeram aberturas nas garrafas para acomodar terra,
plantas, mangueira e máscara de oxigênio.
Além da montagem dos respiradores, houve um enfoque artístico que
incentivou os alunos a refletirem sobre a relação entre arte e meio ambiente,
resultando na criação de objetos centrais para uma experiência artística coletiva.
Com os respiradores, os estudantes realizaram experimentações individuais e em
grupo, explorando diferentes espaços da escola e exercitando presença e
naturalidade diante do público, fortalecendo a confiança necessária para a
performance final.
Figura 6 - Performance Respiradores. E.E. Bernardo Valadares de Vasconcellos,
Sete Lagoas-MG, 2022. Foto: Alisson Oliveira.
A etapa final, que é a apresentação da performance do Projeto Respiradores
(Figura 6), foi cuidadosamente planejada, visto que seria realizada para além dos
muros da escola. Os estudantes, equipados com os respiradores que haviam
montado, se reuniram no pátio da escola, onde o professor-artista explicou a
importância da performance como uma forma de expressar o que havíamos
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
19
construído naqueles meses. A equipe de gravação, incluindo um cinegrafista e
um operador de drone, estava presente para documentar a ação, capturando
tanto imagens aéreas quanto
close-ups
dos estudantes em movimento.
A performance iniciou com os alunos se organizando em filas, cada um
segurando seu respirador, e se deslocaram em direção às ruas do bairro, criando
um impacto visual significativo. Durante o percurso, os estudantes foram
incentivados a interagir com o público, explicando o significado dos respiradores
e a importância da preservação ambiental.
A produção também incluiu a documentação do processo, com a presença
de uma produtora audiovisual que registrou cada etapa, resultando em mais de
40 minutos de material bruto. A equipe de filmagem capturou momentos
significativos, como a montagem dos respiradores e as interações entre os
alunos, que foram posteriormente editados em um documentário de 7 minutos.
Para acessar o documentário, basta apontar a câmera do celular para o
Qr Code
abaixo.
Figura 7 - Qr Code Documentário do Projeto Respiradores.
Fonte: Acervo pessoal.
Na etapa final do Projeto Respiradores, os estudantes gravaram
depoimentos reflexivos sobre suas experiências, compartilhando o que
aprenderam e como se sentiram durante o processo, o que enriqueceu a
narrativa do documentário. A avaliação do projeto foi realizada por meio de
discussões em grupo e feedback individual, permitindo que os alunos refletissem
sobre seu aprendizado e engajamento. A exibição do documentário na sala de
vídeo da escola ocorreu em sessões onde os estudantes puderam se ver no
documentário e discutir suas impressões, promovendo um espaço de celebração
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
20
e conscientização sobre a importância da preservação ambiental.
O Projeto Respiradores sob a Perspectiva da Ecosofia e da Educação
Performativa
Um Olhar Ecosófico sobre o Projeto
Às vezes, vemos em barrancos como as raízes das árvores são
emaranhadas. Nas encostas, a terra é levada pela água da chuva e deixa
à mostra a rede subterrânea de raízes. É normal que elas troquem
nutrientes e ajudem as vizinhas em casos de emergência, e isso nos faz
concluir que as florestas são superorganismos- formações
semelhantes, por exemplo, a um formigueiro.
(A vida secreta das árvores Peter Wohlleben).
Em
A Vida Secreta das Árvores
, Peter Wohlleben10 avança uma investigação
por fenômenos até então desconhecidos e que são pertencentes à ideia de que
as árvores das florestas são seres sociais, fato perceptível a partir da observação
da maneira como se comunicam, colaboram entre si e como se articulam de
forma a se defender e resistir às ameaças. Em um dos relatos, descreve sua
descoberta, que começou quando percebeu que algumas pedras que encontrou
na floresta na verdade eram cascas de árvores centenárias, que, por
correspondência direta com árvores saudáveis, se mantinham vivas. A ajuda das
árvores vizinhas, ao enviar nutrientes na forma de açúcar, seja através de rede de
fungos ou raízes conectadas, permitiu que cascas de árvores derrubadas,
provavelmente há 500 anos, resistissem ao tempo.
Wohlleben observou que a generosidade das árvores vivas para com as
sobras de outras, na verdade, se configurava como um sistema de autoproteção.
Ao se manterem vivas, ao se unirem formando comunidades, se tornavam mais
fortes e cooperavam para sobreviver e prosperar. Esse trabalho, em conjunto,
leva em conta a formação de um ecossistema para controlar o clima, o
armazenamento de água, aumentando, dessa forma, a umidade atmosférica e a
formação de um ambiente protegido contra tempestades, ventos fortes e outras
10 Peter Wohlleben é um autor alemão conhecido por seu trabalho de pesquisa e escrita sobre a
comunicação e ecologia das árvores. Suas obras, como “A Vida Secreta das Árvores,” trouxeram uma
compreensão mais profunda do mundo natural para o público em geral, destacando a complexidade e
interconexão das florestas e árvores.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
21
intempéries.
O relato biológico realizado por Wohlleben, diante da constatação da
existência de uma relação social entre as árvores, serve como metáfora para
também pensar as relações sociais humanas. A descrição desse fenômeno
biológico demonstrou como a natureza frequentemente opera por meio de redes
interconectadas e interdependentes, e exatamente por isso parece ir ao encontro
da própria ideia da ecosofia proposta por Félix Guattari. Guattari (2012) defendeu
a necessidade de uma abordagem que englobe aspectos ambientais, sociais e
mentais para reelaborar a relação atualmente conflituosa do ser humano com a
natureza, reestruturando novas formas de ser-em-grupo. Se ver como parte do
todo, a interconexão, a interdependência e a necessidade de colaboração,
apresentadas no relato biológico de Wohlleben, são pressupostos do
pensamento ecosófico.
O princípio da colaboração, presente nas observações da natureza por Peter
Wohlleben, e defendida na obra de Félix Guattari, aparece no Projeto
Respiradores, inicialmente na metáfora. O respirador abriga alguns elementos
naturais, como a terra, a água e a própria planta, que interagem de maneira
semelhante, compartilhando recursos para apoiar o crescimento da planta e a
produção de oxigênio. A observação desse fenômeno pelos estudantes ilustra, de
forma clara, a interdependência de tudo, ao mesmo tempo em que evidencia a
mecânica genial desse organismo vivo que é a planta. No entanto, a observação
desse fenômeno isolado é redimensionada, visto que uma árvore sozinha não
cria uma floresta, uma comunidade, um ecossistema. São necessárias várias,
que, ao formarem uma grande rede, se desenvolvem melhor, resistem com mais
força às adversidades, ao passo que garantem a completude de seus ciclos vitais
naturais.
Ao propor as três ecologias, Guattari articulou uma ideia de interação entre
os saberes desses três registros ecológicos: ambiental, social e subjetivo. Nesse
sentido, seria desprezar o entendimento de Guattari realizar um projeto que
desse conta apenas do caráter ambiental físico e dos ecossistemas que
compõem o mundo. Como abordado anteriormente, as problemáticas
contemporâneas necessitam de abordagens globalizantes que possam dar
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
22
respostas mais consistentes a essa crise que vivemos. Portanto, o projeto
buscou, através de sua jornada pela escola, lançar luz também para os domínios
do social e da subjetividade dos estudantes.
O projeto foi criado a partir de duas motivações. A primeira aborda a
formação de uma afetividade em relação ao meio ambiente. Durante a
montagem dos respiradores, e através do manejo das plantas, os estudantes se
movimentam na construção de uma afetuosidade importante e desejada. a
segunda motivação diz respeito ao engajamento dos estudantes na luta por um
meio ambiente mais justo e equilibrado. Quando todos saem de suas cadeiras,
fabricam seus instrumentos de ativismo e vão para as ruas, a dimensão política
do processo de ensinar e aprender realiza o seu ciclo.
A dimensão ambiental como um dos três eixos estruturantes do
pensamento ecosófico, em relação ao projeto, serviu como uma espécie de
artéria por onde vários elementos foram abordados. Inicialmente, a observação
por parte dos estudantes de diferentes eventos catastróficos, sejam eles locais
ou globais, gerou a constatação da responsabilidade dos próprios seres humanos
na produção desses eventos. Existiu a busca por compreender o que são essas
atitudes na esfera pessoal, das escolhas individuais e aquelas provocadas no
âmbito corporativo, das grandes empresas, por exemplo. Isso se manifesta
quando refletimos sobre as queimadas criminosas que aconteceram
paralelamente à realização do projeto, na Serra de Santa Helena, em Sete
Lagoas, assim como na Amazônia e no Pantanal. Somam-se a isso
questionamentos levantados a respeito da responsabilidade de empresas, como
a Vale, em catástrofes ambientais, como nos rompimentos das barragens em
Minas Gerais e até mesmo quando uma aluna relatou que a empresa que seu tio
trabalhava, em Sete Lagoas, despejava todos os dejetos químicos em um rio
próximo.
No entanto, ao constatar que a práxis ecosófica não busca uma solução
ambiental apenas pelo viés físico, mas a uma expansão que vai ao encontro de
outros domínios também enunciados como ecológicos, o Projeto Respiradores
passou a ser um espaço de experimentação, assim como aponta Guattari (2012),
de novas “práticas de si”, em que são reconhecidos aprendizados e saberes que
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
23
vão além do espaço escolar e que conhecimentos prévios dos estudantes são
valorizados.
Na perspectiva de uma ecologia social, os aspectos históricos e culturais
também foram trabalhados. Um dos relatos mais importantes feito pelos
estudantes sobre o projeto revelou um desses aprendizados. O estudante nunca
tinha pensado que os povos originários exerciam papel crucial na proteção das
florestas e que o cuidado com essas populações estaria intrinsecamente
conectado com a própria preservação da natureza. Esses aspectos se somam
com a construção de uma afetividade para com os próprios ciclos da natureza,
principalmente no processo de cultivo da planta, desde a semeadura até o
florescer da espécie.
Quando abordou a necessidade de uma práxis ecológica mental, Guattari
estava interessado em provocar a construção de uma nova subjetividade, a partir
de uma nova relação dos sujeitos com seus corpos e suas relações com os
outros sujeitos e com a natureza. Em sua obra isso é bastante enfatizado e de
forma prática o autor estabeleceu algumas possibilidades que poderiam escapar
à condição humana de uma “implosão e infantilização” (Guattari, 2012, p. 8). Se
nossas atitudes inconscientes, que levaram ao longo do tempo a graves
desequilíbrios ambientais, atravessam questões ligadas à forma como somos
expostos a padrões de comportamento engendrados pelo sistema econômico-
capitalista, para o autor, era imprescindível que se estabelecesse um novo
paradigma estético.
Nesse sentido, o projeto buscou promover entre os estudantes abordagens
educacionais reflexivas com o objetivo de reinterpretar as subjetividades,
examinar as interações entre os indivíduos envolvidos e criar novas
interpretações do meio ambiente por meio de uma análise crítica da realidade,
bem como de nossas influências sobre ela, promovendo, dessa forma, valores de
preservação ambiental. A experiência estética faz parte da essência do projeto e
é trabalhada em todas as suas etapas: debate do tema, construção dos objetos
artísticos e na realização da performance urbana.
Portanto, é importante salientar que abrir espaços de debates, promover
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
24
uma interação humanizada entre os estudantes, promover a expressividade e
senso crítico através da elaboração dos objetos artísticos, aguçar um espírito
ativista, seja na elaboração de uma carta para as autoridades ou mesmo a
performance urbana que encerra o projeto, são importantes, pois a prioridade
está na geração de gestos, em vez da produção de objetos tangíveis. O objetivo
do projeto, então, nem que seja por um momento, é o de produzir uma
subjetividade singular. Isso se na forma como o grupo passa a interagir, até
mesmo na criação de micropolíticas, que possam questionar os valores pré-
existentes.
Por último, a dimensão ativista promovida pelo projeto merece ser
destacada. É necessário compreender a práxis ecosófica para além de uma
reflexão filosófica, mas como uma possibilidade de intervenção no mundo, fruto
de uma mudança da subjetividade. O projeto existe porque pretende engajar os
estudantes e os profissionais das escolas com ações e reflexões que possam
transformar a sua realidade. A ideia é incentivar os estudantes a acreditar na sua
capacidade de engajamento e ativismo e também no poder de mobilização que
possuem. O objeto artístico, que é o respirador, tem caráter distópico, pois
imagina o futuro de forma pessimista, ao estabelecer que todos precisarão
utilizar individualmente mecanismos de produção de oxigênio. O respirador se
torna, dessa forma, um instrumento ativista/político ao ser concebido e utilizado
pelos estudantes na performance que extrapola os muros da escola.
Um Olhar Performativo sobre o Projeto
Por meio da percepção que encara a vida diária como atividade
performática, interessa-nos observar por essa lente os eventos que se
relacionam ao campo da educação. Os Estudos da performance, ajudam não
somente a analisar as dinâmicas pré-estabelecidas no ambiente escolar, como
apresenta possibilidades potenciais para reinventar essas dinâmicas.
É de conhecimento que o modelo de ensino tradicional e antigo perpetuado
nas escolas brasileiras, divide a sala entre o espaço do professor, e o espaço
destinado aos estudantes, estes que se posicionam de maneira a receber de
forma neutra os conhecimentos apresentados. Sabemos que a escola, de
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
25
configuração conteudista, centrada no professor como transmissor de
conhecimento e que preza a quantidade de conteúdo absorvido, por diversas
vezes não abre espaço para o diálogo, para a afetividade e para o
desenvolvimento da cultura geral do aluno. O
modus operandi
da escola
tradicional se baseia na transmissão de conhecimento, que posteriormente é
cobrado “ao da letra”, em um sistema avaliativo que, através da nota, obriga
os estudantes a decorar para passar nas provas.
Em vista deste panorama, se torna importante, através dos estudos da
performance, pensar novas abordagens metodológicas, reimaginando novas
maneiras de ensinar e aprender. Neste ponto, os estudos desenvolvidos pelo
professor Gilberto Icle (2010), no Brasil, ajudam a pensar a ideia de uma
pedagogia performativa, ao passo que fornecem elementos que podem ser
experienciados de forma prática no contexto escolar. Uma de suas principais
ideias sobre o tema, e que corrobora a realização do Projeto Respiradores, trata-
se do pensamento de que a performance poderia contribuir na educação, na
medida que pode performar, nas palavras do autor a “pesquisa, performar os
professores e os alunos, performar a escola, performar as políticas públicas”
(Icle, 2010, p. 20).
O Projeto Respiradores se relaciona com a abordagem de Icle (2010) em
diversos aspectos, oferecendo uma oportunidade de pensar e produzir processos
arte-educativos performativos, começando pela ideia de performar políticas
públicas. Para Icle, a performance alinhada a pressupostos pedagógicos pode
destacar e influenciar questões sociais e políticas, funcionando como meio de
chamar atenção, provocar discussões e mobilizar ações em áreas como saúde,
educação e meio ambiente. Essa perspectiva também convida a refletir sobre
como as políticas públicas são implementadas nas escolas. No Brasil, por
exemplo, a educação ambiental é regulamentada por lei, mas secretarias
frequentemente fornecem projetos vinculados a datas comemorativas, sem
integração contínua. Nesse contexto, o Projeto Respiradores organiza práticas a
partir da relação entre professor-artista e estudantes, estruturando o tema como
conteúdo central de aprendizagem no componente curricular de arte. A
performatividade se manifesta tanto na abordagem poética quanto na dimensão
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
26
ativista, ao perceber os respiradores como instrumentos políticos de
manifestação.
Outro enfoque destacado por Icle é a ideia de performar a escola, suas
dinâmicas e configurações. Essa perspectiva pode ser compreendida de
diferentes maneiras, sendo uma das principais a transformação da abordagem
pedagógica, que se manifesta em múltiplos aspectos: engajamento dos
estudantes, desenvolvimento de habilidades sociais, expressão criativa,
aprendizagem experiencial, promoção da inclusão e da diversidade, e revisão dos
processos avaliativos. No caso do Projeto Respiradores, a metodologia e a
abordagem conteudista foram substituídas por um projeto de pesquisa
interdisciplinar nas aulas de arte, no qual a prova deixou de ser o principal
instrumento de avaliação, abrindo espaço para formas mais amplas de avaliação
e participação.
A forma como o projeto se relacionou com os procedimentos avaliativos do
sistema de ensino merece destaque. Embora a escola tenha solicitado a
realização de uma prova, não se trata aqui de avaliar os conhecimentos dos
alunos de forma tradicional, mas sim de atender a um procedimento burocrático
previamente estabelecido. O peso dessa prova, contudo, foi subvertido na
avaliação bimestral final: foram atribuídos apenas 5 pontos à prova de arte, de
um total de 25 pontos do bimestre, enquanto os 20 pontos restantes foram
distribuídos de acordo com o processo de aprendizagem e o engajamento dos
estudantes nas práticas, valorizando a participação, o desenvolvimento e a
interação ao longo do projeto.
Quando Icle afirma que a performance pode “performar os estudantes e
professores”, compreende-se que os papéis previamente estabelecidos por
ambos podem ser reconfigurados, permitindo a subversão dessas lógicas
tradicionais. Nesse sentido, a performance apresenta a capacidade de desafiar e
ampliar os papéis convencionais dos atores escolares. O professor, por exemplo,
poderia deixar de lado uma abordagem expositiva tradicional, adotando métodos
mais plurais, interativos e dinâmicos. Essa perspectiva levanta questões
relevantes sobre a formação docente e sobre a necessidade de ampliar os
investimentos e recursos na educação pública.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
27
A mudança na postura do professor, de uma abordagem centrada na
transferência de conhecimento para uma função de mediação, revela-se um
aspecto central do processo pedagógico, ao colocar o estudante no centro da
aprendizagem e possibilitar o desenvolvimento de habilidades essenciais, como
autonomia, pensamento crítico e criatividade. No Projeto Respiradores, o papel
do professor não é rígido; ele transita entre a simples observação das práticas e
a condução mais direcionada das atividades. Esse viés de interação ativa com os
estudantes contribui para a construção de conhecimento de forma colaborativa,
promovendo a coautoria entre professores e alunos.
Um último ponto que Icle destaca é a possibilidade de “performar a
pesquisa”, que nos leva a pensar em maneiras mais criativas e engajadoras de
desenvolver a investigação dentro da escola. No Projeto Respiradores, a arte
funcionou como fio condutor, permitindo que os estudantes explorassem os
temas sugeridos pelas dinâmicas. Observou-se que, nesse processo, os alunos
não apenas construíam conhecimento de forma inventiva, mas também
encontravam maneiras originais de expressar e compartilhar suas descobertas.
Um outro aspecto das pedagogias performativas a ser destacado refere-se
ao papel do corpo no processo de ensino e aprendizagem. Para Icle, o corpo
assume posição central nas dinâmicas, contrapondo-se ao engessamento típico
da sala de aula, em que os estudantes permanecem enfileirados, sentados e em
relativa inação. No Projeto Respiradores, o corpo é mobilizado de diferentes
formas e dimensões, subvertendo a lógica rígida da escola e promovendo tanto a
autopercepção do estudante quanto a compreensão de sua participação no
coletivo.
O corpo do estudante, no que se refere às pedagogias performativas,
também se projeta como um corpo em posição ativista no ambiente escolar.
Estar em ação ativista, neste contexto, é estar interessado, engajado em causas
importantes. Isto não se realiza apenas quando se apresenta algum resultado,
como a própria performance Respiradores, mas em outras práticas ao longo do
processo. Os debates, a apresentação da performance, são alguns exemplos.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
28
Considerações finais
As práticas do Projeto Respiradores alinham-se à ecosofia de Félix Guattari,
estruturada em três escalas interligadas: mental, voltada às percepções
individuais; social, às interações entre grupos e comunidades; e ambiental, às
relações da humanidade com os ecossistemas. A experiência artístico-
pedagógica revelou como esses domínios se conectam, mostrando a articulação
entre vivências individuais, relações sociais e sistemas naturais, despertando
uma consciência crítica e sensível que une ética e estética na construção de
uma nova forma de olhar o mundo.
Além disso, as práticas performativas promovidas pelo projeto estimularam
a criatividade, a comunicação e a colaboração entre os alunos, habilidades
essenciais para o século XXI. Sobretudo, os estudantes do sexto ano do Ensino
Fundamental II, experimentaram novas possibilidades de ser e estar na escola,
subvertendo as dinâmicas estabelecidas, através da pesquisa, da prática e da
experimentação corporal.
Dentro do currículo de cada escola, do plano de aula de cada professor(a),
são urgentes propostas que englobem as diferentes dimensões do ser humano,
como o corpo, a alma, o coração, as emoções e a sensibilidade dos estudantes.
Essa abordagem é ainda mais necessária no Antropoceno. A crise ambiental,
marcada por mudanças climáticas e desastres socioambientais, exige uma
educação que além do acúmulo de informações, despertando uma
consciência crítica e sensível sobre nossa interdependência com a Terra.
O Projeto Respiradores contribui para a área ao mostrar que a escola pode
ser um espaço vivo de criação artística, reflexão crítica e ação coletiva. Ao
aproximar arte, performance e educação ambiental, o projeto aposta no corpo,
na experiência e no fazer compartilhado como caminhos para pensar o
Antropoceno a partir do cotidiano escolar. Mais do que aplicar conteúdos, a
proposta evidencia a potência da prática artística como forma de produzir
sentido, engajamento e consciência, oferecendo pistas concretas para
professores que desejam desafiar modelos pedagógicos tradicionais e
experimentar outras maneiras de ensinar, aprender e estar juntos na escola.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
29
Embora o Projeto Respiradores se organize a partir de uma estrutura
previamente delineada, especialmente no que diz respeito à concepção dos
objetos e à configuração da cena performática, investigações futuras podem
aprofundar dispositivos que ampliem a autonomia criativa dos estudantes,
incorporando maior abertura à improvisação, à autoria individual e coletiva, à
invenção de gestos, narrativas e formas de ocupação do espaço público. Nesse
sentido, o Projeto Respiradores se coloca como um campo em processo,
passível de desdobramentos que avancem para práticas em que os estudantes
assumam, para além da execução, também a concepção, a dramaturgia e a
condução das ações performáticas, radicalizando a arte como exercício
experimental da liberdade, do dissenso e do ativismo estético no contexto
educativo.
Referências
COHEN, Renato.
Performance Como Linguagem
. São Paulo: Perspectiva, 2013.
D’AVILA JÚNIOR, Francisco de Paulo.
Para pensar arte, educação e
sustentabilidade: um estudo do Projeto Respiradores, pela ótica das noções de
Ecosofia e Educação Performativa
. Dissertação (Mestrado em Artes)
Universidade Federal de Minas Gerais, 2023.
D’AVILA JÚNIOR, Francisco de Paulo. Os respiradores que ganharam corpos na
escola.
Linha Mestra
, N.44, P.19-28, Disponível em:
HTTPS://DOI.ORG/10.34112/1980-9026A2021N44P19-28. Acesso em: 01 set. 2025.
D’AVILA JÚNIOR, Francisco de Paulo. Documentário do Projeto Respiradores: uma
experiência de arte, educação e sustentabilidade em escola estadual mineira.
Revista Educação, Artes e Inclusão
, Florianópolis, v. 20, n. 2, p. 139–162, 2025.
Disponível em: DOI: 10.5965/1984317820220240139. Acesso em: 01 set. 2025.
GOLDBERG, Roselee.
A Arte da Performance
: do futurismo ao presente. Trad.
Jefferson Luiz Camargo e Rui Lopes. Lisboa: Orfeu Negro, 2012.
GAROIAN, Charles.
Performing Pedagogy
: toward an Art of Politcs. New York:
State University of New York Press, 1999.
GUATTARI, Félix.
As Três Ecologias
. Campinas: Papirus, 2012.
HARAWAY, Donna. Antropoceno, capitaloceno, plantationoceno, chthuluceno:
fazendo parentes.
ClimaCom Cultura Científica
, Campinas, v. 3, n. 5, p. 139-146,
2016.
Projeto Respiradores: arte e educação em performance no Antropoceno
Francisco de Paulo D’Avila Junior
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-30, Abr. 2026
30
ICLE, Gilberto. BONATTO, Mônica Torres. Por uma pedagogia performativa: a
escola como entrelugar para professores-performers e estudantes-performers.
Cadernos CEDES
, v. 37, n.101, Campinas, 2017.
ICLE, Gilberto. Para apresentar a Performance a Educação
. Revista & Realidade
,
Porto Alegre, n. 35, 2010, p. 11-22.
LATOUR, Bruno.
Diante de Gaia
: oito conferências sobre a natureza no
Antropoceno. Ubu Editora, 2020a.
LATOUR, Bruno.
Onde aterrar?
: como se orientar politicamente no antropoceno.
Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA, 2020b.
MELIN, Valérie; KONDRATIUK, Carolina. Re-habitar a escola no Antropoceno:
contribuições da mesologia para um novo olhar sobre as condições de trabalho
docente.
Educação
(Santa Maria), Santa Maria, v. 49, 2024. Disponível em:
https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/85359/63811. Acesso em: 27
ago. 2025.
SCHECHNER, Richard; ICLE, Gilberto; PEREIRA, Marcelo de Andrade. O que pode a
performance na Educação? Uma entrevista com Richard Schechner.
Revista
Educação e Realidade
. v.35, n.2, p. 23-35, 2010. Disponível em:
http://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/13502/7644.
Acesso em: 10 jun. 2023.
WOHLLEBEN, Peter.
A Vida Secreta das Árvores
. Trad. Petê Rissatti. Rio de
Janeiro: Sextante, 2017.
Recebido em: 04/09/2025
Aprovado em: 29/12/2025
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br