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Jasão Vegetal Corpo Adubo
Stephan Arnulf Baumgärtel
Para citar este artigo:
Baumgärtel, Stephan Arnulf.
Jasão Vegetal Corpo
Adubo
. Urdimento Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v. 1, n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e601
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Jasão Vegetal Corpo Adubo
Stephan Arnulf Baumgärtel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-19, abr. 2026
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Jasão Vegetal Corpo Adubo
Stephan Arnulf Baumgärtel 1
Resumo
Jasão, o herói que roubou o Velocino de Ouro, morreu abandonado por todos,
esmagado por uma viga do navio que o levou mundo afora. Nesse texto
teatral, encontramos Jasão, um herói que virou arrivista e usou sua
inteligência para seduzir amigos e amantes a servir a seu desejo ambicioso
de ser alguém importante, de garantir para si um lugar no sol iluminado. Esse
Jasão pode ser lido como protótipo da masculinidade conquistadora que
caracteriza a modernidade. Entretanto, quanto mais tenta de afirmar-se
como conquistador, mais a Terra cobra pacientemente seu tributo.
Palavras-chave
: Dramaturgia brasileira. Masculinidade moderna.
Relacionalidade subversiva.
Jason Vegetal
Abstract
Jason, the hero who stole the Golden Fleece, died abandoned by all, crushed
by a beam from the ship that had carried him across the world. In this
theatrical text, we encounter Jason, a hero turned opportunist who used his
intelligence to seduce friends and lovers into serving his ambitious desire to
become someone important, to secure for himself a place in the illuminated
sun. This Jason can be read as a prototype of the conquering masculinity that
characterizes modernity. Meanwhile, the more he tries to assert himself as a
conqueror, the more patiently the Earth exacts its tribute.
Keywords
: Brazilian dramaturgy. Modern masculinity. Subversive Relatedness.
Jasón Vegetal
Resumen
Jasón, el héroe que robó el Vellocino de Oro, murió abandonado por todos,
aplastado por una viga del barco que lo transportó a través del mundo. En
esta obra, conocemos a Jasón, un héroe convertido en un advenedizo que
usó su ingenio para seducir a amigos y amantes y lograr su ambicioso deseo
de ser alguien importante, de asegurarse un lugar en el estrellato. Este Jasón
puede leerse como un prototipo de la masculinidad conquistadora que
caracteriza la modernidad. Mientras tanto, cuanto más intenta afirmarse
como conquistador, más pacientemente la Tierra exige su tributo.
Palabras clave
: Dramaturgia brasileña. Masculinidad moderna.
Relacionabilidad subversiva.
1 Pós-doutorado pela Universidad Nacional de Colômbia Bogotá (UNAL). Pós-doutorado pela Universidade
de São Paulo (USP). Doutorado em Literatura em Língua Inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina
(YFSC). Mestrado em Inglês pela Ludwig-Maxmillians-Universität (LUM) Alemanha. Mestrado profissional
em Segundo Staatsexamen Lehramt Gymnasium Alemanha. Prof. Dr. Titular da graduação e da pós-
graduação em Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
stephao08@yahoo.com.br
http://lattes.cnpq.br/8439378198120294 https://orcid.org/0000-0002-7769-1108
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Sobre as mortes necessárias no ciclo da vida
Jasão Vegetal Corpo Adubo
nasceu, por um lado, de conversas entre o autor
Stephan Baumgärtel e o ator Cleiton Moreira sobre maneiras de dramatizar a
erosão da masculinidade hegemônica. E, por outro lado, é influenciado por
conversas que o autor teve com Giorgio Zimann Gislon, por ocasião de seu estágio
pós-doutoral, intitulado “práticas artísticas e pedagógicas de teatro para enfrentar
o antropoceno/capitaloceno”. Aos poucos surgiu no processo de escrita também
a possibilidade de criar uma dramaturgia que pode servir para possíveis projetos
de pesquisa que buscam conceber figurinos ecologicamente recicláveis como
elemento intrínseco do universo ficcional, uma vez que esse Jasão tenta
insistentemente sair de uma existência vegetal cuja perspectiva ele é
reiteradamente obrigado a reassumir.
Partimos da ideia de que Jasão, na narrativa heroica grega, pode ser visto
como um herói que foi escolhido para revelar o caminho do auto-esgotamento ou
até da autodestruição. Seu projeto de conquista faz brotar também os germes da
própria destruição. Por um lado, sua viagem é em nome de um sucesso político, a
reconquista do trono usurpado pelo tio, que exige a entrega do Velocino de Ouro.
Por outro lado, essa viagem testa suas forças mais íntimas, tanto de coragem
quanto de entrega à amizade e ao amor. Mas nos momentos de encruzilhada,
Jasão escolhe a traição não dos companheiros e da mulher amada, mas
sobretudo das próprias promessas, da própria palavra de honra. Essa traição,
então, é idêntica a escolher uma racionalidade instrumental perante a vida e
negligenciar a reciprocidade de toda relação viva? Racionalidade que, ao longo da
história ocidental, se configura como masculina enquanto a vida, sua natureza e
corporeidade, é configurada como feminina. E se a figura do herói seja em sua
origem exposta a essa sedução perigosa?
Esse texto, então, é uma tentativa do autor de jogar dramaturgicamente com
a hipótese que os germes de uma masculinidade moderna já estão presentes nos
mitos heroicos gregos e no surgimento da tragédia grega, num momento em que
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o herói se separa das diversas formas do mundo comum, sobretudo da natureza
e de uma coletividade humana alinhada aos ciclos naturais e à fragilidade da vida
humana. Nesse intuito, a peça estabelece um paralelo entre a viagem de Jasão
para conquistar o Velocino de Ouro e os projetos de autoformação de uma
masculinidade triunfante, inspirada em
coaches
de sucesso. Ao mesmo tempo
contrasta a jornada "estilo coach" de Jasão com os lentos processos de
decomposição e fertilização do solo—processos que absorvem o vazio, o fracasso
e a destruição deixados para trás por sua masculinidade vitoriosa. A consciência
desses processos se articula nas cenas intituladas Vegetal. A impossibilidade de
separar-se desse mundo telúrico obriga (e, numa mudança de perspectiva,
também permite) ao solitário Jasão reconhecer, ante o lastro de destruição que
sua conquista deixou, sua ligação com o ciclo vegetal—esse uma forma de criação
e de destruição que não segue uma vontade egocêntrica. Finalmente aceita que
seu corpo e suas ações são adubo dentro desse processo.
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é pensado, simultaneamente, como oratório e
rito de fertilidade.
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Jasão Vegetal Corpo Adubo
Um vulto no chão, talvez embaixo de uma pilha de folhas secas, talvez coberto apenas
de uma manta de fibra de coco, assemelhando-se a uma pedra, de qualquer modo:
imóvel.
Prólogo em off, gravado, voz(es) feminina(s)
Jasão,
Filho destronado
líder dos argonautas, esposo cobiçado e traidor,
quantos filhos matou aquela que te desejou,
Medéia,
para garantir sua grandeza, para fazê-la ruir?
Nenhum desafio é impossível quando as palavras formosas encantam aqueles que se
sonham “companheiros”.
Cê é bom de lábia, Jasão, para fazê-los embarcar na viagem, mas o barco, como cada
instrumento, cobra seu preço daqueles que o usam. Assim se faz um “homem”.
risos
Fala sério, Jasão, como vocês, bem-aventurados, sabem separar um propósito benéfico
de um objetivo destruidor? Como, Jasão? Como aproximar-se à força desse trono interno
que encontramos sob tantas formas externas? O que colocar nesse trono, Jasão?
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Jasão 1
O vulto se mexe, a pedra racha, lentamente, como se materializasse um fantasma, ele se
transforma, pula para uma posição agachada: um sapo! Que vira fera, que se assemelha
a um pavão. Que calda de braços bonita, que erguer de força e assertividade! Para onde
quer ir essa afirmação?
Eu…eu, Jasão,
homem não conduzido por um ser mortal, mas que conduz
com punho involucrado de aço os inimigos,
com mão suave e cordial os que pedem proteção.
Sou grato por ter recebido dessa vida infinita tudo
a qual tenho direito por nascença: um propósito
e a permissão de realizá-lo com vontade inabalável!
Os meios são decorrência, quando a gente organiza nossa mente e coração //
para erguer um pilar útil nesse mundo frágil, um farol na escuridão da insegurança, //
uma vida de riquezas, firmezas e de generosidade também,
perante aqueles que buscam com sinceridade, suplicam e vem a mim, Jasão!
E nada me desviará dessa realidade, o melhor de mim, sim!
Quero viver a superação permanente,
do pó ao pó.
Eu, vivo, imagem e semelhança.
Subitamente, o corpo desaba.
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Vegetal 1
Olhem, um besouro impotente que caiu nas costas. Ah, como está cavando com as
patinhas no ar!
mais uma pele e já um corpo a menos
estado deslizando em estações sem fim
aqui o reino da terra da compostagem
eis um corpo adubo convite
a quem
multidão visceral
na barriga da terra
brotar germinar enlaçar
trançado assim
as raízes sim venham fincar
sua cobrança nesse corpo terra entregue a si a pulsar esfolar
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Jasão 2
Ah, Jasão! Vai bombar por suas veias o espírito que cobra e não permite ser cobrado. Goza
o jovem, ao declarar a vitória da vontade quando se trata de apenas conquistar a
necessidade. Mas atenta-te: tuas raízes definharão de tanto você sugar.
Me conheço, me domino, sei aproveitar as oportunidades.
Aprendi com os melhores
a superá-los. Escolher e treinar os meus colaboradores.
Melhorar, multiplicar, maximizar - três vezes “m”, três pernas para formar nossa missão.
Melhore a si mesmo, multiplique seus colaboradores, maximize os lucros para todos os
envolvidos
cada um em sua função.
mudando de tom
Claro, já errei, fiz merda, quem não? Talvez porque sempre achava que tinha direito a um
reino, a um conglomerado, à plenitude material e espiritual. E tenho mesmo! Mas como
chegar lá, deserdado como me encontrava? Como chegar com essa raiva, o
ressentimento que crescia dentro de mim? Quem sentiu essa raiva do mundo, puta
raiva que me comeu, por ser impedido de avançar, de vencer, pelas forças obscuras de
algum bastardo emergente que se aproveitou das estruturas sociais com a influência de
um amigo graúdo? Comigo não! Comigo não, jacaré!
Não se chega assim a lugar algum!
Não adianta tentar dominar suas emoções. Basta alguém causar uma pequena frustração,
não é, e toda a manada de bisontes que você carrega dentro, se lança e arrasta sua
tentativa de controle junto! Você sabe: isso não pode, não deve acontecer. Mas acontece;
esses animais sobem para sua mente, se lançam contra esse babaca, idiota, acha que
pode passar a perna em mim? Essa piranha que acha que pode acabar contigo! E logo te
arrastam junto. Não há novidade nisso. Um automatismo, chama-se vício, nada mais. Boa
noite, meu nome é Charles, e sou viciado em soltar minhas emoções por cima de quem
estiver perto naquele momento. Desculpe, infeliz, desculpe.
Não dá! Então, fazer o quê?
Parar de ser bunda mole ressentido! E por que somos bunda moles ressentidos? Por não
sentir mais que somos abençoados por natureza, autorizados a governar esse mundo,
nesse mundo. Quem sabe que incorpora a verdade divina? E a Verdade Divina não tem
limite! Nada, pessoa ou circunstância ou condição alguma, vai lhe parar!
Então, nesse mundo de desafios, dirija suas emoções e sua força, para realizar seu projeto
de vida, manifestar seu propósito, de ser quem você quiser. Quem pode, diz comigo: Eu
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canalizo / minhas energias e emoções / para realizar meus objetivos/ de maneira
inabalável!
Vocês conseguem sentir isso? Sintam - e digam comigo, de novo: Eu canalizo…minhas
energias e emoções…para realizar meus objetivos…de maneira inabalável!
Bruscamente, Jasão é abatido e espirala para o chão como botão florido em tempestade
de primavera. Morte? Ciclo de ressurreição?
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Vegetal 2
Vejam: como esse corpo rola, rola tateando pelo chão em busca de uma cavidade fértil.
Intuímos a morte - como fecundação?
a borda
balança esse corpo, mente material, esporão sensível,
no vazio da expectativa
tudo que é vivo transborda felicidade na borda
com aquela outra forma
que te toca e aparta
parte que te parte
pulsação incessante
para além da borda
dobras e mais dobras irradiando juntos,
esparramar,
ser menos e assim ser mais com, co
risco
que nos oferece o gozo
de uma morte pequena
cair, cair, cair.
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Jasão 3
Para onde pôr-se a caminho? Vai, Jasão, agora bata, bata no chão a rosa, a rosa dos
ventos, a rosa da aventura. Agora ele se levanta, eleva esse corpo raiz, firme em sua
vontade pedra, flexível na astúcia cipó. Vai desenhar uma rota alterada, se o objetivo fixado
o requerer.
Uauu, uauu uauuu! Amigos, uauu, buscadores, argonautas! Uauu! De vez em quando a vida
coloca em seu caminho algo que conclama vocês a mudar o rumo de sua, nossa, vida.
Uma dor tão pungente, um enigma tão desconcertante, uma tarefa urgente que você
sente: é vencer ou morrer! E você treme para caralho! Pois a vida veio, agora, para te pegar!
A vida veio para te pegar! Talvez você tenha demorado um dia, um mês, um ano ou dez
anos para chegar aqui, para descobrir: está tudo acontecendo aqui e agora. E o que
você precisa fazer? Aceitar a grandeza da visão que país, que continente, que
oportunidade! e executar a esperteza de um agir pragmático: calcular os passos, juntar
as forças, assumir o risco de ser dono de sua vida, de seu poder e de sua responsabilidade
de tomar a decisão: ser maior que seu medo.
Argonautas! A aventura da vida veio atrás de vocês, porque vocês a chamaram em seu
íntimo. Sim, assim, um sentimento tão enorme! E sou eu quem oferece a vocês agora
realizar esse desejo. Desde tempos imemoriais, nossos antepassados e nós estamos
desbravando a terra, afirmando nosso espírito de superação, a vontade de levar nosso
modo de pensar, a nossa autorrealização, a todos os cantos da terra conhecida e
incógnita, declarando nossa valentia de ser guerreiro e governante justo. Não desistir
nunca! Superar para conquistar! Eu lhes digo: cada um de vocês ganhou para si um
nome cantado com admiração nos bares, portos e quartéis. Por isso, aplaudo a cada um
de vocês. Aplausos! Uauu!
Agora, juntos, sob meu comando, podemos embarcar em uma jornada imortal. A
conquista do talismã, o Velocino de Ouro. Essa jornada não tem limites de horas! Se vocês
têm medo, não venham comigo e se querem vir comigo, o façam sem medo, pois aos
corajosos e bem-aventurados espera a prosperidade eterna.
quem queira nos privar de nossa herança. Usurpar nosso trono, chupar nossa grandeza.
Deixe-os tentar. Um assalto que fortalece nossa confiança em nós mesmos. Nos
exigem tarefas aparentemente impossíveis? Vejo mais de uma dúzia de mãos Uauuu! para
capturar a raiz da coragem. Entrelaçadas, as unhas se enfiam mais fundo na terra a ser
arada, abençoada seja a garra astuta, nem deuses nem fantasmas, muito menos
governantes, resistirão quando vocês de braços dados lhes tirarão as suas raízes, suas
propriedades, suas armas de valor. Felizes aqueles que engolem a fonte da coragem do
inimigo! Que conquistam seus meios de produção.
À conquista! À conquista! O voo da mente altiva, a fala de uma comunicação exitosa,
flutuar na percepção sutil, penetrante - habilidades que podem ser suas, minhas. Vocês
as querem? Querem essas dádivas da jornada atrás do Velocino de Ouro? A ação faz o
homem! Querem? Então, uauu, argonautas, é só pegar!
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Vegetal 3
Nada, sussurram as profundezas, fica erguido para sempre. Tudo deseja deslizar, relaxar.
Tu, quem, me acontece, como?
hah, essa possibilidade, um esboçar-se
está chegando por esse corpo adubo
inacabado e impossível de ser acabado
um ato vem sendo
ainda decomponha a mim
assim viver
derrota e conquista de mim
impermanente e imprevisto
dentro de mim de ti quem
profundo desbordado
o aviso
que o verso vence destronando
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Jasão 4
Corpo dente, corpo beiço. Corpo branco luminoso. Um sol da meia-noite, ele evoca sua
incandescência escura.
Sem retirada, argonautas! Me seguiram até aqui e agora chegou a noite de conquistarmos
todo nosso potencial! Quem está disposto e capaz a superar os próprios limites para ser
herói? Nós! Se for preciso ser filibusteiro para ser herói, o seremos nós! Se for preciso
cortar nossos desejos para ser herói, o faremos! Se for preciso sacrificar o amigo para ser
herói, o sacrificaremos! Se for preciso abandonar os familiares, não hesitaremos.
Mulher, como te chamas? Teu ouvido já conhece a fonte dos poderes e riquezas, mas eu
conheço o mundo. Meu sucesso te abre o mundo, Medéia, é tua sabedoria abrir o
caminho ao Ouro! Negócio fechado? Te digo: Tua esperança encontrou seu destino, e você
sabe! Agarre-o!
Que retorne a nós que a nós pertence. O ouro do carneiro, de onde saiu? Do fundo das
terras. A terra é de todo mundo, até que um herói a circunscreveu e declarou como seu!
Fundou um negócio, uma cidade, e raptou o animal para imantar-se com suas forças, e
depois veio outra e logo outra cidade. Assim avança a caravana da conquista. Agora, será
a nossa vez. Argonautas, que essas forças reconstituam nossas cidades e o futuro de
nossos filhos! Viva o Ouro, o Velocino de Ouro!
Mulher! Teu coração palpita como dois orifícios entumecidos. Dois filhos nos darei, se tu
nos dás sua magia, suas armas e seu irmão. Escurecerei o firmamento com sangue
chovendo dos céus, para que tua alma se acenda nos chifres dos touros, que pendurarei
nas minhas coxas, e nos ilumine o caminho da vitória.
Jasão, homem que conduz os seres do mundo, que arranca o casco dos touros e seus
dentes também! Que ceifa os diabos daninhos dessas montanhas até o solo ficar virgem
novamente. A caverna de Ouro, o velocino! Eu, Jasão, não conduzido por nada e ninguém,
me escutem: Nos apoderamos do objetivo. Invictos conquistaremos o caminho da fuga
também. Medeia, diga-lhes! Matem! Matem o irmão! Cortem, fora, abaixo, cortem os
braços, as mãos, as coxas, o pau! Invictos, argonautas, joguem os pedaços nos vales e
rios, para que o terror da vitória marque também nossa retirada. Ah, parentes? Parentes
conduzidos por respeito aos seus mortos, por isso, vão se perder em seu passado escuro.
Medéia! Repara seu homem: o conquistador, sinto teu coração palpitar, nosso destino
solar, dois filhos, aos barcos! Mais que ouro vale - a fama, Medéia! A fama dos argonautas,
heróis que se criaram na própria em si mesmos! Cada um por si, e juntos, só, pelo líder.
A terra é escura, Medéia, mas assim é o firmamento. A luz foi e será nossa vontade de
vencer!
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Vegetal 4
O caule na cova. Os galhos cortados. A vontade vencida. E a terra fagocita o corpo
guerreiro. Por fim: mudez. E a profecia da terra.
argonautas cadê
seus outros iguais
uma cidade e mais outra
e vocês pisaram aqui
nesse corpo infindável
escutem
a batalha no mundo silenciou
aqui na umidade profunda ecoa
lamento e cansaço
e tempo de sobra para cair e rir-se
a vitória entregue
a mim ao ciclo dos tempos
todos são companheiros
um descampado cheio de pernas e mãos e cabeças
a cidade, a casa um cemitério só
o mundo vasto uma ruína
o coração dos guerreiros uma ruína
suas vísceras esfaceladas
mas em mim cada corpo transige
cada prumo encalha
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a história que sua cabeça lhes conta
gira sobre si mesma
fogo de palha que incinera todo vigor
Em suas costas amigos mulheres crianças
apenas bocas caladas
a noite caiu e divaga
e divaga ainda a raiva que não sabe ser dor apenas e simples: dor
seu eco lhes espera
em seus outros iguais
já vindo
ó futuro
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Jasão 5
A lei de continuar em brasas. Conquisto, portanto, sou, até na minha morte. Deixe nos ver:
queimar por esse corpo ou queimar com ele.
Merda, Medéia, merda! Um refugiado, um suplicante na casa de ricaço, um naufrago em
costas alheias? Eu, que empreendi o impossível! Uma equipe de invencíveis, agora
dispersos. Me untei com banha dourada, para que? Para avançar, Medéia. Sentir minha
grandeza. Erguer corpo e voz ao sol! E tú, não minta, vibrou com tremor e tesão. O
mundo, Medéia, o mundo! Pede cortar na própria carne para continuar a mandar, subir,
superar! Vai querer nossos filhos viverem na sarjeta da misericórdia? Mulher, baixa a bola
e nada te faltará! O mundo gira, e eu, você, a outra também, somos peças no jogo da
conquista. Vamos girar junto e jogar do lado dos vencedores!
Mulher, os meninos! Ay, por que os meninos? Quem vai te abraçar ainda agora que
sacrificaste o futuro? O futuro, Medéia! Vencer sem futuro, Medeia, que é isso? Eu te
ensinei isso? A sabedoria da terra, da compostagem, te ensinou isso?
Medéia, os cadáveres são seus, adubo para seu mundo. Lida com essa herança, Medéia.
Pois eu te digo: implantaste com essa derrota a lei da vitória ainda mais forte!
Ai, Jasão, eu, minhas veias agora um leito de rio seco, meu crânio uma ruína onde
esvoaçam pensamentos infrutíferos. Para que serve? Como umedecer? Sem
companheiros, sem filhos, sem cidade, sem terra. Nem cachorros mais latem, pois a
caravana perdeu seu rumo, se dispersou. E agora, Jasão? Que propor? Do pó ao pó. Como
se beneficiar? Apenas lamento e cansaço. E dor. O grito ao nascer, para onde? Para que?
Sim, por fim, o corpo esgotado, a mente estafada, extenuado o propósito. Algo quer
retornar para antes de mim. Não, avançar, perceber a frente um antes de mim. Meu barco,
vivi por ti, morrerei por ti...que seja, sigo em frente.
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Vegetal 5
O corpo que pulsa ainda suavemente sem centro, sem intuito de ser alguém.
ser menos e assim ser mais
corpo adubo convite
multidão visceral
quantos eus decompostos
excrementos
tantos mundos espraiados
destroços
preservados destruídos mantidos em ti terra
ser
terra
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Jasão Vegetal Corpo Adubo
A mesma voz coral feminina do prólogo. O corpo, um vulto no chão, lento, bem
lentamente palpitando ainda presente entre tanto vão.
Agora, Jasão, por fim comigo
solo adubo
escuta o pó escorrendo caindo ao pó você reduzido ao chão
sinta onde antes pisou
assim agora
será possível queimar lenta e vagarosamente os monstros que você criou
para si
aliviado está para
afogar-se na ausência de si,
ainda presente entre tanto vão
Sentado o corpo quase sem figurino. O que resta são as memórias. De um passado
glorioso e ridículo, violento e solitário? Sim, mas agora é o ator falando! Não é uma moral
da história, embora seja sua conclusão provisória.
finalmente
não é para ficar assim ou assado
você eu quem
transformar a si nas mãos da terra e ir descobrindo, vivenciando
esse grande nascer e desaparecer um ato vem sendo
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como líquen crescendo
em paz desapegado de qualquer resultado intencional
Recebido em: 14/07/25
Aprovado em: 29/12/25
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Artes CênicasPPGAC
Centro de Artes, Design e ModaCEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br