
A Comunidade-Grupo: Criação Coletiva e Ontologia do Comum
Leonardo Cesar Ertel Engel
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-11, abr. 2026
já não é um dado ontológico? Estarmos em comum já nos configura como uma
comunidade? Assumindo a comunidade em sua dimensão material, é possível
perdê-la e viver sob o fantasma da sua nostalgia?
Nancy estrutura sua crítica a partir da experiência nazista na Alemanha,
sempre levada adiante em nome de uma comunidade. Para Nancy, é a experiência
de extermínio nazista que “es lo que puso término a toda posibilidad de reposar
sobre cualquier dato del ser común (sangre, sustancia, filiación, esencia, origen,
naturaleza, consagración, elección, identidad orgánica o mística)” (Nancy, 2000, p.
8, tradução própria). Ele propõe, então, uma troca do “ser em comum” por “estar
em comum”, ou fazer-se comum, visto que a comunidade é formada, nesse
sentido, por indivíduos que se constroem enquanto comunidade, ou seja, “seres
que produzem por essência sua própria essência, como sua obra, e que ademais,
produzem precisamente essa essência como comunidade” (Nancy, 2000, p. 14,
tradução própria). Assim, o que nos define é o estado de estar em relação, como
uma ética que se constrói a partir da própria relação, e não a partir de uma herança
predeterminada, essencialista ou ontológica, uma “natureza de ser”.
O termo “nostalgia de comunidade” se insere aqui porque, apesar de ser um
constructo ideológico muito bem estabelecido e frequentemente invocado por
diferentes forças estruturais e operacionais, “do individualismo burguês ao
humanismo comunista (diríamos “socialista”), onde se encontra um ideal a ser
realizado de pureza e de identidade, está a ‘comunidade perdida” (Mendes, 2013,
p.31), esse ideal de comunidade pouco se sustenta em termos materiais e
históricos, especialmente a partir das mudanças das quais se ocupa o pensamento
moderno. Portanto, sua formação nostálgica remonta uma construção que parte
da própria impossibilidade, ou seja, trata-se de um sentimento de nostalgia que
parte da comunidade perdida e se constrói a partir da impossibilidade dessa
mesma comunidade, que, em termos materiais – uma fusão ontológica de seus
membros –, nunca existiu.
Então não, a comunidade não é herdada, nem pode ser perdida. Ela é o que
nos conecta, mas não de forma ontológica.
La comunidad no es algo que se haya perdido y que debiéramos volver a