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Teatro e memória urbana: a cidade do Rio de
Janeiro como mutação de mágica
Ana Paula Brasil
Para citar este artigo:
BRASIL, Ana Paula. Teatro e memória urbana: a
cidade do Rio de Janeiro como mutação de mágica.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v. 3, n. 45, dez. 2022.
DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573103452022e0104
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Teatro e memória urbana: a cidade do Rio de Janeiro como mutação de mágica
Ana Paula Brasil
Florianópolis, v.3, n.45, p.1-33, dez. 2022
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Teatro e memória urbana: a cidade do Rio de Janeiro como
mutação de mágica
1
Ana Paula Brasil
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Resumo
O artigo tem por objetivo refletir acerca da memória teatral da cidade do Rio
de Janeiro, relacionando os truques cenográficos das mágicas e
féeries
às
transformações urbanísticas em fins do século XIX e início do século XX. Para
a análise, foi abordado o conceito de alegoria teatral, fundamentado na obra
de Walter Benjamin e em pesquisas emergentes sobre a historiografia dos
gêneros híbridos de teatro. Ilustrou-se o enfoque com exemplos de
espetáculos encenados e por meio da sensibilidade de cronistas da época.
Dessa maneira, levanta-se a discussão sobre o apagamento da memória
urbana e teatral.
Palavras-chave
: Alegoria teatral. Cidade do Rio de Janeiro. História e
historiografia do teatro. Mágica. Memória urbana.
Theater and urban memory: the city of Rio de Janeiro as a mutation
of magic
Abstract
The article aims to reflect on the theatrical memory of the city of Rio de
Janeiro, relating the scenographic tricks of
mágicas
e
féerie
s to urban
transformations in the late 19th and early 20th centuries. For the analysis, the
concept of theatrical allegory was approached, based on the work of Walter
Benjamin and on emerging research on the historiography of hybrid theater
genres. The focus was illustrated with examples of staged shows and through
the sensibility of chroniclers of the time. In this way, the discussion about the
erasure of urban and theatrical memory arises.
Keywords
: Theatrical allegory. City of Rio de Janeiro. History and
historiography of theater.
Féerie
. Urban memory.
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Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Christiano Marques Ferreira. Doutor em Letras
(PPLCC), PUC-Rio. Mestre em Letras (Literatura Portuguesa), PUC-Rio.
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Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Mestrado em
Teatro (Unirio). Bacharel em Artes Cênicas, com habilitação em Cenografia (Unirio). Graduada em
Licenciatura Plena em Educação Artística, com Habilitação em Artes Cênicas (Unirio). Professora efetiva no
Curso Técnico de Artes Dramáticas, da Escola cnica Estadual de Teatro Martins Penna (ETETMP-RJ) e
orientadora de iluminação cênica, cenografia, figurino, caracterização e formas animadas nas montagens de
formatura da instituição. anapaulabrsl@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/4732789208143114 https://orcid.org/0000-0002-5998-1347
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Ana Paula Brasil
Florianópolis, v.3, n.45, p.1-33, dez. 2022
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Teatro y memoria urbana: la ciudad de Río de Janeiro como
mutación de la mágica
Resumen
El artículo tiene como objetivo reflexionar sobre la memoria teatral de la
ciudad de Río de Janeiro, relacionando los trucos escenográficos de
las
mágicas
e
fééries
con las transformaciones urbanas de finales del siglo
XIX y principios del XX. Para el análisis se abordó el concepto de alegoría
teatral, a partir de la obra de Walter Benjamin y de investigaciones
emergentes sobre la historiografía de los géneros teatrales híbridos. El
enfoque se ilustró con ejemplos de espectáculos escenificados ya través de
la sensibilidad de cronistas de la época. Surge así la discusión sobre el
borrador de la memoria urbana y teatral.
Palabras clave
: Alegoría teatral. Ciudad de Río de Janeiro. Historia e
historiografía del teatro.
Mágica
. Memoria urbana.
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Florianópolis, v.3, n.45, p.1-33, dez. 2022
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Introdução
A memória das mágicas no Rio de Janeiro sumiu da historiografia do teatro
como um diabinho pelo alçapão do palco – assim como o Morro do Castelo, sítio
inaugural da cidade, desapareceu da paisagem urbana. Este ensaio busca
relacionar o truque de mutação cenográfica da mágica teatral às transformações
urbanísticas no centro histórico da cidade do Rio de Janeiro em fins do século XIX
e início do século XX, durante a Primeira República. Utiliza-se o conceito de alegoria
teatral, fundamentado no pensamento de Walter Benjamin, para refletir sobre o
apagamento das memórias da cidade e do teatro, além de relatos de cronistas
daquele tempo.
Dessa lacuna historiográfica surgiu a pesquisa sobre esse gênero híbrido de
espetáculo. Em via negativa, sob a metodologia indiciária, os dados para a pesquisa
sobre as mágicas, ora negligenciados, porque marginais e indecifráveis à
historiografia da cultura dominante, foram recolhidos considerando o campo de
estudos como uma zona opaca a ser decifrada. A ausência da mágica na
historiografia foi tratada, portanto, como um sintoma a ser esclarecido (Ginzburg,
1986).
A análise foi fundamentada no conceito de alegoria teatral, o qual trata a
narrativa cênica imagética. A
mutação
consistia na mudança total de um cenário
por outro. O imaginário alegórico da cidade do Rio de Janeiro, entre o desejo de
modernidade e o enterro do passado, como conjunto simbólico, mimetizava a
mutação de mágica.
Por ser a mágica um gênero híbrido dramático-musical– de temática
fantástica, sem encadeamento lógico, guiado por libreto, dividido em atos e
quadros, encenado com orquestra, coro, corpo de baile e grande elenco, com
muitos efeitos e truques cenográficos –, a alegoria teatral permitiu a análise das
visualidades da cena como dramaturgia. A comunicabilidade visual, repleta de
alegorias, contribuiu para o sucesso junto ao público que lotava os teatros da
cidade na época. De tão populares, a palavra mutação (de mágica) foi usada como
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figura de linguagem. Vários autores se referiam às reformas urbanísticas, que
culminaram com o arrasamento total do Morro do Castelo, como mutação
cenográfica.
Inicialmente, será apresentada a premissa que embasa essa reflexão, o
conceito de alegoria teatral de Walter Benjamin, sob uma nova perspectiva: a
questão das imagens dialéticas das cenas de
féerie
, gênero similar às mágicas.
Dessa forma, relaciona-se a cena teatral com a atmosfera da cidade. Serão
apresentadas algumas pesquisas que abordam esse conceito de alegoria na
historiografia do teatro para inserir as mágicas na categoria dos gêneros híbridos.
Em seguida, demonstra-se aspectos da cena de mágica por meio de
exemplos de espetáculos do final do século XIX, bem como a relação entre teatro
e cidade na percepção dos cronistas. Assim, o estudo das visualidades da cena
das mágicas será observado em sua potência metafórica; enquanto seu
apagamento na historiografia do teatro será entendido como sintoma de regimes
dominantes.
Memória urbana e teatral do Rio de Janeiro: a cidade feérica
como cena de mágica
A iluminação artificial modificou profundamente a sociedade. A chama
bruxuleante dos candeeiros e velas, substituída pela iluminação à gás e elétrica
nas vias públicas, nos teatros e residências, alterou o olhar do sujeito da época.
Essa sociedade foi considerada, por muitos, uma sociedade feérica.
Entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX,
ocorreram alterações urbanísticas decisivas para a cidade do Rio de Janeiro, como
a implantação da rede elétrica de iluminação pública. A rede foi instalada nos
percursos diretamente relacionados ao entretenimento, no circuito da
sociabilidade noturna (Dunlop, 1957). Esse fato permitiu a observação da vida
boêmia no centro da cidade, quando alguns espaços foram privilegiados em
função dos caminhos iluminados. Esses locais transformaram-se em pontos de
efervescência cultural.
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Além disso, os grandes inventos científicos do século XIX foram considerados
bens culturais e marcaram presença nas Exposições Nacionais e Internacionais, as
quais incentivaram o gosto pela novidade e ajudaram a criar uma sociedade
voltada à espetacularização da cultura. As Exposições impulsionavam o uso de
fontes de luz diversificadas.
Em
Dialética do olhar
, Susan Buck-Morss esquadrinha a estrutura conceitual
dos fragmentos reunidos em Passagens, obra póstuma de Walter Benjamin. Ela
analisa as fontes de pesquisa do autor para demonstrar que sua fundamentação
filosófica reside sobre os escombros da cultura de massa. Para a autora, Passagens
é uma "’ur-história’, uma história das origens do momento histórico presente, que,
ao permanecer vastamente invisível, torna-se a motivação determinante para o
interesse de Benjamin no passado" (Buck-Morss, 2002, p.75). Benjamin estudou
reminiscências do passado no tecido urbano e elegeu as Passagens parisienses
como símbolo de suas reflexões.
O autor foi inspirado pelo romance surrealista de Louis Aragon,
Le Paysan de
Paris
, em que descreve a
Passage de l'Opéra
, pouco antes de ser demolida para a
construção do Boulevar Haussmannn. As primeiras notas para o projeto das
Passagens
vieram daí, bem como o subtítulo provisório: "uma cena de conto de
fadas dialética"( Buck-Morss, 2002, p.59 apud Benjamin, 1983).
Buck-Morss observa também, as impressões de infância de Julius Lessing
(1900), citadas por Benjamin, a respeito das imagens do famoso Palácio de Cristal
da Exposição Mundial de Londres, em 1851. Para Lessing, essas imagens,
emolduradas nas paredes das salas burguesas das cidades mais remotas da
Alemanha, causavam a impressão de que os habitantes das grandes cidades
viviam em palácios de cristal, como em um conto de fadas. Essa ideia teria
animado muitas gerações e perpetuado essa impressão em suas memórias (Buck-
Morss, 2002, p.116). Desde as últimas décadas do século XIX, cartões postais com
fotografias e gravuras das Exposições Universais circulavam entre cidades e países.
Para Benjamin, as Passagens, reminiscências do passado, evocavam imagens
dialéticas, anunciavam mudanças repentinas e catástrofes, ao mesmo tempo em
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que traziam a imagem do despertar do conto de fadas e da utopia enquanto
fantasmagoria, como se fossem cenários de
féerie
. O autor as considera como
templo do capitalismo inicial. Olhar para suas vitrines seria como olhar para um
teatro de
vaudeville
, para uma féerie: os manequins seriam anjos e as Arcadas
(Passagens) seriam, para a Paris do Segundo Império, grutas de fadas (Benjamin,
2006). As grutas de fadas eram cenários recorrentes dos espetáculos de
féerie
e
de mágica.
Segundo Buck-Morss, Benjamin se preocupa com as organizações da classe
trabalhadora e com o encontro dos trabalhadores nas Exposições Universais. O
que as Exposições proporcionaram aos trabalhadores foi considerado por ele
como uma fantasmagoria da política, porque os avanços tecnológicos e industriais
eram promovidos e apresentados como se tivessem poderes míticos, como
festivais de abundância que assegurariam a paz mundial e a harmonia entre as
classes trabalhadoras. A mensagem que era passada nas Exposições foi vista por
Benjamin como a de um conto de fadas, uma promessa de progresso que, na
verdade, divulgava a revolução industrial. As Exposições Universais no final do
século XIX teriam assumido um lugar de utopia: a maravilha das massas diante da
máquina. A divulgação do sucesso da industrialização, promovida nessas feiras,
provocava uma ilusão de que as classes trabalhadoras se uniriam com um objetivo
comum, industrial, mundial. Benjamin denuncia que “todos os antagonismos
sociais se dissolveriam no conto de fadas e que o progresso seria a perspectiva de
um futuro catastrófico muito próximo” (Buck-Morss, 2002, p.118-125).
Niuxa Dias Drago reflete sobre a criação da imagem da cidade do Rio de
Janeiro como capital moderna, para discutir os espaços de entretenimento da
cidade, a partir da montagem da Exposição Internacional de 1922, durante a
reformulação do prefeito Carlos Sampaio. Ela considera a demolição do Morro do
Castelo como um acontecimento espetacular: “O preço para a modernização da
cidade, era a perda de sua colina fundadora, com suas edificações coloniais, e de
todo um bairro tradicional da cidade, com sua população, suas dinâmicas sociais,
suas histórias, sua memória.” (Drago, 2021, p. 22). No Rio de Janeiro das primeiras
décadas do século XX, o
flâneur
, diante da imagem catastrófica da cidade mirava
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o passado como algo suplantado, o presente como canteiro de obras e o futuro
como uma promessa de progresso.
A cidade era como um truque de mutação de uma cena de mágica. Nesse
sentido, a mutação cênica e a cena feérica emergem como figura de pensamento
da época, metaforicamente, como a cidade, no limiar da transformação.
Figura 1 Centenário da Independência do Brasil: Exposição. Rio de Janeiro, RJ: Photo Bippus,
[entre 1922 e 1923]
Fonte: Biblioteca Nacional Digital
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Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=94002.> Acesso em: 10 ago.
2022.