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Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria
Ana Cristina Vaz
Para citar este artigo:
VAZ, Ana Cristina. Diálogos entre a criação de vídeos
cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v. 2, n. 44, set. 2022.
DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573102442022e0200
Este artigo passou pelo
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A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
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Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no T
ikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria
1
Ana Cristina Vaz
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Resumo
O presente estudo teve por objetivo traçar um diálogo entre o processo de criação
de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito da
gag
na palhaçaria, buscando refletir
sobre as diferentes possibilidades de construção do efeito cômico no cruzamento
entre as práticas da palhaçaria e dos vídeos curtos. Como ponto de partida fez-se
uso de minha experiência com a criação de vídeos na plataforma, provocando-me
questionamentos em torno do recurso da imitação elemento característico da
criação de vídeos curtos e das diferentes versões produzidas por meio da
apropriação de outras piadas. A partir de investigações teóricas, empreendeu-se na
discussão sobre os conceitos da
gag
, do meme da
internet
e da comicidade para
contextualizar o relato de três experimentos realizados pela palhaça Hipotenusa
de interpretação própria buscando contribuir com os estudos sobre a criação
cômica nos meios digitais.
Palavras-chave
: Palhaçaria.
Gag.
TikTok
. Imitação. Comicidade.
Dialogues between the creation of comic videos on TikTok and the
concept of gag in clowning
Abstract
This article aims to establish a dialogue between the process of creating
comic videos on TikTok and the concept of gag in clowning, seeking to reflect
on the different possibilities of building the comic effect at the intersection
between the practices of clowning and short videos. The study's starting point
was my experience with creating videos on the platform, which made me
question myself about the use of imitation, which is a common element in
creating short videos, and the different versions produced through the
appropriation of other jokes. Based on theoretical investigations, this research
discusses the concepts of the gag, the internet meme and the comic
performance to contextualize the report of three experiments carried out by
the clown Hipotenusa, interpreted by me, seeking to contribute to studies on
comic creation in digital media.
Keywords
: Clowning. Gag. TikTok. Imitation. Comic performance.
1
Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Dyego Cruz Lima, graduado em Letras Português
(UNIFRAN). digiartdigitacao@hotmail.com
2
Doutoranda em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Artes pela UnB. Especialista
em Gestão Cultural pelo SENAC/SP - EAD. Bacharel em Artes Cênicas pela UnB. Professora no curso de
Bacharelado em Teatro do IESB. vaz.anacristina@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1428863793406652 https://orcid.org/0000-0002-4506-3297
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Diálogos entre la creación de videos cómicos en TikTok y el
concepto de gag en la payasada
Resumen
Este artículo tiene como objetivo establecer un diálogo entre el proceso de
creación de videos cómicos en TikTok y el concepto de gag en el payaso,
buscando reflexionar sobre las diferentes posibilidades de construcción del
efecto cómico en la intersección entre las prácticas del clown y los videos
cortos. El punto de partida del estudio fue mi experiencia con la creación de
videos en la plataforma, lo que generó interrogantes sobre el uso de la
imitación, elemento característico de la creación de videos cortos, y las
diferentes versiones producidas a partir de la apropiación de otros chistes. A
partir de investigaciones teóricas, este artículo discute los conceptos de gag,
meme de internet y actuación cómica para contextualizar el relato de tres
experimentos realizados por la payasa Hipotenusa, interpretada por mí,
buscando contribuir a los estudios sobre creación cómica en medios digitales.
Palabras clave
: Arte del payaso. Gag. TikTok. Imitación. Lo cómico.
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Introdução
Desde o início da pandemia da COVID-19
3
foi possível observar um aumento
crescente na criação de vídeos curtos que vem sendo produzidos e
compartilhados diariamente por usuários das plataformas digitais. Entre as
plataformas digitais tem-se o destaque para o
TikTok
um dos aplicativos mais
baixados no período, além de ser considerado um dos favoritos, em especial, no
Brasil (terceiro país com maior número de participantes na rede) (Canaltech
4
,
2022).
O
TikTok
é um aplicativo de mídia para a criação e o compartilhamento de
vídeos curtos entre 15 segundos e 3 minutos que podem ser editados dentro
do próprio aplicativo e por qualquer usuário da rede. Com isso, a plataforma possui
um acervo gigante de vídeos, músicas, áudios, efeitos sonoros, além dos famosos
challenges
5
– que podem ser reproduzidos, duetados
6
e costurados
7
, facilitando a
multiplicação acelerada de vídeos de humor, dança, dublagem, conteúdos
educativos, entre outros (TikTok, 2022).
Entre os vídeos encontrados na plataforma tem-se uma grande variedade de
formas de expressão, tais como: dança, humor, tutoriais,
lipsync
8
, maquiagem
artística,
cosplay
9
, entre outras. Além disso, ainda é possível observar uma grande
3
Doença infecciosa provocada pelo coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2 (
Severe Acute
Respiratory Syndrome Related Coronavirus
2 SARS-CoV-2), que acarretou na situação pandêmica vigente
desde março de 2020.
4
Disponível em: <https://canaltech.com.br/empresa/tiktok/>.
5
Palavra que vem do inglês e significa "desafio", que tem sido muito utilizada na criação de vídeos curtos para
as redes sociais e que, em geral, consiste em um tipo de jogo onde os criadores devem criar um tipo de
vídeo com regras específicas.
6
Opção de criação de deo em parceria com outros usuários, onde podem ser visualizadas duas cenas
simultaneamente em um mesmo vídeo.
7
Uma outro opção de criação de vídeo curto, que consiste em fazer uma montagem com outro deo
existente na plataforma.
8
Termo em inglês, para definir a sincronia labial, muito utilizada na plataforma quando se assume a voz de
outra pessoa como a sua própria, combinando o movimento dos lábios com a voz e fazendo uso da
expressão corporal.
9
Atividade que consiste em se transformar em um determinado personagem fazendo uso de fantasia,
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quantidade de vídeos cômicos, que promovem diversão, em geral, a partir de
temas do cotidiano, onde os criadores fazem uso de expressão corporal, objetos
de casa e personagens, para produzirem criações originais ou a sua melhor versão
da
trend
10
do momento.
Seguindo o fluxo de criação de vídeos no
TikTok
e sua intensificação devido
ao isolamento social, muitos artistas, grupos teatrais e coletivos que trabalham
com linguagens presenciais também entraram na onda dos vídeos curtos por
razões diversas, entre as quais: a necessidade de adaptação das atividades que
haviam sido suspensas
11
; e, a interação com o público que, devido às
circunstâncias, também se concentrava nas redes sociais. Como exemplo, tem-se
o "Doutores da Alegria", que na plataforma em comento apresentam vídeos
diferenciados com os palhaços da equipe e seu modo de lidar com o isolamento
social. Na revista Boca Larga: tempos de pandemia, lançada em 2020, a
coordenadora de comunicação do "Doutores da Alegria" explica que a presença no
TikTok
foi uma das iniciativas para criar novos espaços na internet e novos modos
do grupo se relacionar com seu público (Cardoso, 2020, p.31).
De fato, tal movimentação muito tem influenciado na diversidade crescente
de formas de expressão utilizadas nas plataformas digitais, pois muitos desses
artistas optam por trazer suas habilidades e elementos próprios de suas práticas
para a rede – elementos que, embora adaptados para o formato digital, em geral,
trazem algo novo, contribuindo para as diferentes formas de criação. De modo
particular, assim se deu no início da pandemia vigente, quando criei um perfil no
TikTok
, depois da suspensão de algumas apresentações
12
. Naquele momento,
buscava, principalmente, como entender o meio digital que me era
desconhecido e de explorar novas possibilidades de criação, com o intuito de
maquiagem e interpretação.
10
Termo em inglês, que significa "tendência" muito utilizado nas plataformas digitais para se referir a algo
que está na moda.
11
Durante o isolamento social, provocado pela pandemia da COVID-19, teatros foram fechados e eventos
foram cancelados no intuito de evitar aglomerações e a consequente disseminação da doença. Por esta
razão, muitos artistas e grupos teatrais tiveram apresentações e amesmo projetos inteiros suspensos
e/ou cancelados.
12
Sou atriz de teatro e palhaça, com atuação profissional quase 20 anos. Atualmente, sou integrante de
dois grupos teatrais, sendo que, em 2020, dois dos nossos espetáculos sofreram a suspensão de contrato
e o cancelamento de um festival em função da pandemia vigente.
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desenvolver meus vídeos como palhaça.
Mesmo antes da pandemia vigente, eram discutidas as influências da
explosão midiática nas práticas artísticas. Sobre a questão, Óscar Bernal (2018),
pesquisador do
Instituto de la Lengua Española do Consejo Superior de
Investigaciones Científicas
de Madri, atenta que a explosão midiática provocou a
intensificação das relações entre campos diversos o que tem caracterizado as
práticas artísticas nas últimas décadas. "Tal contato cada vez mais fluido permitiu
a cada arte entender seus recursos específicos desde as outras, e desenvolvê-los
graças ao diálogo com outras formas de expressão" (Bernal, 2018, p.180). De certo
modo, o contexto da pandemia da COVID-19 contribuiu ainda no processo em
questão, devido ao aumento do uso das tecnologias digitais e o consequente
diálogo entre as práticas artísticas presenciais e virtuais.
Desse modo, se a criação dos vídeos no
TikTok
surgia, em um primeiro
momento, como uma via de exploração de novas possibilidades com a minha
palhaça, por outro lado, também foi possível entrar em contato com um tipo de
comicidade desenvolvido no formato digital via imitação e releitura de vídeos
cômicos. Explorar esse novo formato, portanto, me fez olhar de volta para a minha
própria prática enquanto palhaça, e buscar ali os fundamentos para a criação de
vídeos, fazendo uso de diálogo entre as piadas desenvolvidas nos vídeos e as gags
da palhaçaria.
A “gag” é um termo comumente utilizado na palhaçaria, para definir eventos
curtos de efeito cômico, encontrados em números, esquetes e espetáculos. Sendo
um termo pouco teorizado, ainda que muito utilizado no meio artístico, a “gag” é
frequentemente associada ao repertório cômico transmitido ao longo dos tempos
e compartilhado entre diferentes artistas, também podendo ser apropriada e
ressignificada em diferentes trabalhos.
Diante dessas primeiras reflexões, vale destacar algumas questões que me
ocorreram durante essa prática e que direcionaram o presente estudo: o que
em comum entre a palhaçaria empreendida no espaço presencial e a palhaçaria
empreendida no
TikTok
? Existe alguma relação entre o conceito da gag na
palhaçaria e a criação de vídeos cômicos no TikTok? Como empreender uma
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releitura de um vídeo cômico, mantendo a lógica particular de uma palhaça?
Tendo isso em vista, a presente pesquisa buscou refletir sobre as
semelhanças entre a gag e o vídeo cômico do TikTok, a fim de embasar uma
experiência de palhaçaria na plataforma e discutir possíveis caminhos para a
criação cômica no meio digital. Para tanto, as linhas que se seguem foram
organizadas em três partes, quais sejam: 1) Discussão sobre os modos de criação
dos vídeos cômicos no TikTok e os recursos mais utilizados; 2) Investigação do
conceito da gag na palhaçaria e indagação sobre as possíveis aproximações com
os modos de criação da plataforma digital; e, 3) Descrição e análise de três vídeos
criados no perfil da palhaça Hipotenusa, em observância aos conceitos aqui
discutidos.
A imitação e a criação cômica no
TikTok
No artigo intitulado
Extending the internet meme: Conceptualizing
technological mimesis and imitation publics on the TikTok platform
, Zulli e Zulli
(2020), autores estadunidenses e pesquisadores em comunicação e tecnologia
digital, observaram que a plataforma em comento promove a criação segundo os
princípios da mimese, incentivando a imitação e a replicação de vídeos o que faz
com que a plataforma conte com uma intensa circulação de vídeos, sendo
massivamente replicados, como parte do complexo mecanismo de interação e
socialização da rede. Isso ocorre a partir de alguns recursos da plataforma, como,
por exemplo, o modo como os vídeos são catalogados e as opções de uso de som.
Ao assistir um vídeo no
TikTok
, o usuário pode clicar no ícone de som, que
pode ser tanto uma música ou uma fala, a reprodução de uma notícia ou um efeito
sonoro, entre outros. Uma vez clicando no referido ícone, o usuário é redirecionado
para um catálogo de vídeos produzidos com o mesmo som, podendo observar ali
as diversas formas de criação a partir de um som.
Grande parte dos vídeos consiste na imitação de um vídeo original, sendo
este, em geral, classificado como tal e posicionado no topo da mesma lista. Além
disso, cada vídeo conta com o ícone "usar este som", como uma sugestão, onde o
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usuário poderá criar um vídeo fazendo uso do mesmo som do vídeo assistido – o
que acaba incentivando a imitação. Com base nesta e em outras características,
Zulli e Zulli (2020) observaram que o
TikTok
estende o conceito do meme da
internet
ao nível da própria infraestrutura da plataforma.
No artigo intitulado
Memes in a digital world: Reconciling with a conceptual
troublemaker
, Limor Shifman (2013, p.367), autora israelense e pesquisadora em
mídia digital e cultura popular, define os memes da internet como "unidades de
cultura popular que são circuladas, imitadas e transformadas por usuários da
Internet, criando uma experiência cultural compartilhada no processo"
13
. Na
prática, isso pode ser percebido na propagação de itens de conteúdo, tais como:
piadas, rumores, vídeos ou sites de um indivíduo para outro, via
internet
.
Os conteúdos em questão são replicados no meio digital principalmente via
compartilhamento e opções de
linkar
14
e copiar Segundo Shifman (2013, p.365),
tem-se ainda uma opção fortemente utilizada na rede, que pode ser traduzida
como "dar uma nova roupagem"
15
, ou seja, quando os usuários criam suas próprias
versões dos memes – o que pode ser feito através "do mimetismo e do remix". O
primeiro envolve o processo onde uma pessoa se faz passar por outra com o seu
corpo, ao passo que, o segundo, está voltado para as possibilidades de reedição –
que, com o avanço das mídias digitais, tem se tornado cada vez mais viável.
No
TikTok
, tais estratégias são utilizadas pelos usuários de modo bastante
fluido, uma vez que as ferramentas de edição também foram projetadas para
facilitar o processo de imitação. São muitas as possibilidades de reprodução de
cenas criadas por outras pessoas (pela repetição de gestos e expressões faciais,
pela sincronização labial com a voz de outra pessoa e pelo uso de texto, por
13
[...] units of popular culture that are circulated, imitated, and transformed by individual Internet users,
creating a shared cultural experience in the process (Shifman, 2013, p.367). (Tradução nossa)
14
Termo em inglês, que significa criar links que redirecionam o usuário para outro lugar.
15
O termo utilizado por Shifman é "repackaging", retirado do original: A second attribute of memes is that they
reproduce by various means of imitation. In oral communication, people become aware of memes through
their senses, process them in their minds, and then ‘‘repackage’’ them in order to pass them along to others
(Dawkins, 1982). In the digital age, however, people do not have to repackage memes: They can spread
content as is by forwarding, linking, or copying. Yet a quick look at any Web 2.0 application would reveal that
[...] people do choose to create their own version of Internet memes, in startling volumes. Two main
repackaging strategies of memes are prevalent on the web: mimicry and remix (Shifman, 2013, p.365).
(Tradução nossa)
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exemplo). Além disso, os vídeos também podem envolver montagens em forma
de dueto ou de costura, onde é possível até mesmo a coexistência entre a obra
original e a imitada em um mesmo vídeo.
O processo de imitação na plataforma em questão margem para uma
grande quantidade de versões de um mesmo tema ou ideia, que resulta, em
grande parte, na produção de vídeos cômicos. Sobre a questão, o filósofo francês
Henri Bergson, em sua obra intitulada
O riso: Ensaio sobre o significado do cômico
(2018), assevera que o próprio ato de imitar alguém é torná-lo cômico, uma vez
que tal ação gera uma percepção sobre a coisa imitada, como algo mecânico ou
automatizado. Portanto, imitar o gesto de alguém, por exemplo, serviria para
"extrair a parte do automatismo que ele deixou introduzir em sua pessoa",
reforçando, assim, a ideia de um mecanismo funcionando por trás do vivo
(Bergson, 2018, p.50).
A imitação no discurso de Bergson (2018) também é analisada quando ele
associa tal ação ao recurso da repetição. Ali, é possível reforçar a ideia de
automatismo na reprodução de um mesmo gesto, de uma situação ou de uma
personagem, gerando, assim, o efeito cômico. No
TikTok
, por exemplo, embora o
fenômeno da comicidade também possa ser observado em vídeos originais – que,
em geral, trazem em seu contexto alguma piada relacionada à alguma situação
cotidiana –, é no processo de repetição dos mesmos memes que se percebe como
esses efeitos cômicos acabam "dando cria" e se multiplicando na rede.
Contudo, é importante observar que, ao contrário da ideia de Bergson sobre
a imitação ser cômica por natureza, a repetição
de per si
somente não o é, mas, o
modo como se a ação ou situação repetida é que produzirá determinado efeito
cômico. No caso da repetição de uma expressão, por exemplo, "Ela s
ó
nos faz rir
porque simboliza um determinado jogo particular de elementos morais, símbolo,
ele próprio, de um jogo totalmente material" (Bergson, 2018, p. 67). Esse jogo se
encontra na própria relação de contradição entre o mecânico e o vivo, onde a ação
– que é primeiramente executada como algo "vivo" – é, posteriormente, posta em
xeque por outra ação que, ao reproduzi-la, revela o seu lado "mecânico". É,
portanto, na ação repetida que se tem algum tipo de transformação ou revisão da
ideia inicial.
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Ao analisar as alterações de perspectivas das mensagens geradas pelos
memes do
TikTok
, Úrsula Albo-Cos (2020), doutora em Ciências Sociais pela
Universidad Autónoma Metropolitana
do México, observa que os mesmos tendem
a se tornar uma situação cômica a partir dos mecanismos de reapropriação e
ressignificação.
A pesar de que se conozca la forma en la que concluir
á
!
el procedimiento
cómico de la repetición, es la reapropiación del meme a partir de la
creatividad, la que crea las modificaciones necesarias para sorprender
(Albo-Cos, 2020, p. 58).
A partir dessa ideia, é possível considerar que, embora a repetição seja um
elemento forte na criação de vídeos, é a reapropriação e ressignificação de ideias,
temas, situações e personagens, que contribui para a produção de diferentes
efeitos cômicos relacionados ao mesmo tema ou à mesma ideia, na criação de
vídeos no
TikTok
. Tal fenômeno se a partir do momento em que os criadores
trazem suas próprias perspectivas e visões sobre os memes, sendo a base dessa
recriação o seu próprio corpo. Logo, são diversas as microcenas amplamente
replicadas dentro da plataforma, por diferentes indivíduos, com qualidades de
ritmo, expressividade e gestualidades variadas, além do uso criativo de efeitos,
edição e textos, resultando em diferentes versões do mesmo tema.
Diante do exposto, observar esse modo de criação de vídeos cômicos no
TikTok
me chamou a atenção por duas razões principais, a saber: 1) Pela
capacidade de se transmitir uma ideia, mensagem ou piada em uma duração
mínima de tempo; e, 2) Por essa característica de releitura e ressignificação por
parte daquele que imita, tendo em vista os diferentes modos de fazer. Assim, ao
tomar em consideração tais características, comecei a perceber uma aproximação
dessa forma de criação de vídeo com o conceito de
gag
comumente abordado na
palhaçaria.
Aproximações entre a
gag
e a criação de vídeos cômicos no
TikTok
Paul Bouissac (2015), autor e professor da Universidade de Toronto, em sua
obra intitulada
Semiotics of the clown
, dedica um capítulo ao estudo da gag,
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investigando seus aspectos semiológicos, a partir da análise de algumas obras de
palhaçaria clássica. O termo “gag”, que vem do inglês e significa "mordaça", que,
diferentemente de seu significado original, começou a ser utilizado na gíria teatral
do século XIX, se referia às "palavras ou frases que um ator ou uma atriz inseria
espontaneamente no texto de uma parte que ele ou ela deveria ter memorizado
exatamente" (Bouissac, 2015, p.76)
16
. Também tinha relação com gestos e/ou ações,
ao passo que quando tais inovações deliberadas ou casuais obtivessem sucesso,
muitas vezes, por meio do riso, o artista repetiria os(as) mesmos(as) em
apresentações posteriores.
Associada principalmente à resolução de problemas em cena, o fenômeno
que constituía a gag apresentava estreita relação com o riso, uma vez que a
decisão de repeti-la ou não dependia dessa reação da plateia. Mais tarde, no século
XX, tornou-se comum fazer uso do termo em questão para tratar de determinados
efeitos cômicos em comédias do cinema, séries televisivas, palhaçaria e desenho
animado, principalmente.
Nos estudos da palhaçaria, a gag também é frequentemente associada a
outros termos. Demian Reis (2013, p.298), palhaço, diretor e doutor em Artes
Cênicas, em sua obra intitulada
Caçadores de risos: O maravilhoso mundo da
palhaçaria
, observa que termos como, por exemplo, “gag”, “rotina”, “número”,
“esquete”, “cena”, “quadro”, “entradas” e “reprises”, em geral, servem para se referir
"a uma unidade dramatúrgica de palhaçaria, cuja extensão e qualidade varia".
Nesse viés, o presente estudo optou pelo termo “gag” por considerá-lo mais
próximo de uma unidade mínima de efeito cômico (objeto aqui em análise).
Para Bouissac (2015, p.76), as
gags
são "unidades identificáveis em uma
performance do ponto de vista do criador e do público. Para um palhaço, as gags
são os alicerces de seu ato circense; para os espectadores as gags são os eventos
que provocam o riso"
17
. E embora aquele autor também reconheça que, em geral,
um trabalho de palhaçaria não é apenas uma mera sucessão de gags, é possível
16
[…] words or sentences an actor spontaneously inserted into the text of a part he or she was supposed to
have memorized exactly (Bouissac, 2015, p. 76). (Tradução nossa)
17
[...] identifiable units in a performance from the point of view of both the creator and the audience. For a
clown, gags are the building blocks of his/her circus act; for the spectators, gags are the events that trigger
laughter (Bouissac, 2015, p. 76). (Tradução nossa)
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considerá-las como a substância principal da sua comicidade.
Como um evento de efeito cômico, a gag transmite informação por meio da
surpresa, partindo de premissas culturalmente aceitas como padrão vigente, a fim
de subverter o senso comum e revelar verdades reprimidas. "As
gags
são eventos
cognitivos dotados de fortes estruturas lógicas, uma lógica que corre solta à
medida que se emancipa das restrições pragmáticas ditadas pelas regras vigentes
no contexto cultural" (Bouissac, 2015, p.90)
18
.
Essa característica da gag pode ser explicada a partir da teoria da
incongruência, que tem sido discutida por diferentes autores, sendo também
conhecida como teoria da inconsistência, contradição, ambivalência ou
bissociação. Para Sabina Tabacaru (2015), pesquisadora e doutora pela
Université
Charles de Gaulle
, a teoria em questão tem por base a noção de contraste, ao criar
uma incompatibilidade de significados a partir da sobreposição de duas leituras
distintas, provocando, assim, o riso o que pode ser observado em alguns
exemplos de Bouissac, sendo um deles, uma cena empreendida pelos
Colombaioni
19
, onde os palhaços, ao realizarem uma releitura de Hamlet, associam
a personagem Ofélia à um cabideiro metálico ornamentado com uma peruca e
um lenço. A
gag
provoca risos ao criar "uma metáfora que traz um artefato
inanimado para uma relação de equivalência com uma das mais famosas jovens
heroínas trágicas da tradição literária dramática" (Bouissac, 2015, p. 93).
Algumas
gags
podem ser totalmente físicas, podendo contar com as
habilidades corporais do artista (movimentos acrobáticos, dança, mágica, entre
outras). Outras podem incluir a fala, sendo associada também à piada. E ainda, é
possível observar na gag diferentes recursos cômicos, como, por exemplo, a
paródia, o exagero, a repetição e a ação que falha em seu objetivo, conforme o
contexto no qual se desenvolve.
Como eventos de curta duração, as
gags
devem pertencer a um contexto
18
[...] gags are cognitive events endowed with strong logical structures, a logic that runs wild as it emancipates
itself from the pragmatic constraints dictated by the rules prevailing in the cultural context” (Bouissac, 2015,
p. 90). (Tradução nossa)
19
Família de artistas italianos, de carreira internacional, que empregam técnicas seculares da palhaçaria
tradicional. Leris Colombaioni é filho de Nani Colombaioni (falecido em 1999) e atua junto aos seus dois
filhos em seus espetáculos.
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maior, ditado, em geral, pela dramaturgia de um espetáculo, pelo jogo do palhaço
e da palhaça ou pelo tema vigente. E apesar disso, elas possuem um certo nível
de autonomia, uma vez que, "[...] podem ser movimentadas e inseridas em
momentos estratégicos na partitura da narrativa. São também transportáveis
dentro da variedade de narrativas que a tradição circense preservou ou que os
palhaços criativos inventam"
20
(Bouissac, 2015, p.77).
Tal fenômeno pode ser percebido nos trabalhos de diferentes palhaços, bem
como nas diferentes obras cinematográficas. Anthony Balducci (2014), autor e
pesquisador de rotinas cômicas em filmes, em sua obra intitulada
Funny parts: A
history of film comedy routines and gags
, observa a recorrência das mesmas gags
em diferentes filmes cômicos ao longo dos tempos, bem como a adaptação aos
diferentes contextos. Uma das gags pesquisadas por aquele autor tem por base a
ideia de que um manequim ou qualquer cópia humana pode ser facilmente
confundida com uma pessoa, conforme os seguintes exemplos:
Na comédia de Georges Méliès,
Robert Macaire and Bertrand
(1907), um
soldado pendura seu chapéu e casaco em uma estaca no quintal. Um
fugitivo, confundindo a estaca com um soldado, é rápido em sacar uma
faca e atacá-la. Um boneco de boxe tem um papel fundamental na
comédia Keystone
Mabel's Married Life
(1914). Um marido (Charlie
Chaplin) fica bêbado, para encontrar coragem para lutar contra um
homem que ofendeu sua esposa (Mabel Normand). Enquanto isso, Mabel
comprou um boneco de boxe para Chaplin para que ele pudesse
construir seus músculos. [...] Mais tarde, seu cônjuge bêbado confunde o
boneco de boxe com o homem e lança um ataque ao intruso ousado. [...]
Em
Fighting Fluid
(1925), Charley Chase bebe água de um refrigerador de
escritório sem perceber que a água foi enriquecida com álcool. É
embriagado que, momentaneamente, confunde um manequim com a
namorada. Quando a perna do manequim cai, ele a pega e depois
confunde a namorada ao tentar devolvê-la (Balducci, 2014, p. 17-18).
21
20
The gags can be moved around and inserted at strategic moments in the score of the narrative. They are
also portable across the range of the various narratives that the circus tradition has preserved or that
creative clowns invent (Bouissac, 2015, p. 77). (Tradução nossa)
21
Many routines were based on the idea that a mannequin, or other facsimile of the human form, could easily
be confused for a man. In the Georges M
é
li
è
s comedy Robert Macaire and Bertrand (1907), a soldier hangs
his hat and coat on a stake in the yard. A fugi- tive, mistaking the arrayed stake for a soldier, is quick to pull
out a knife and attack it. A boxing dummy has a key role in the Keystone comedy Mabel’s Married Life (1914).
A husband (Charlie Chaplin) gets drunk in order to find the courage to fight a masher who has offended his
wife (Mabel Normand). Meanwhile, Mabel has bought Chaplin a boxing dummy so that he can build up his
muscles. [...] Later, her drunken spouse mistakes the boxing dummy for the masher and launches an attack
on the bold intruder. In Fighting Fluid (1925), Charley Chase drinks water from an office cooler without
realizing that the water has been spiked with alcohol. It is while intox- icated that he momentarily confuses
a mannequin for his girlfriend. When the mannequin’s leg falls off, he picks it up and later puzzles his
girlfriend when he tries to return it to her (Balducci, 2014, p. 17-18). (Tradução nossa)
Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria
Ana Cristina Vaz
Florianópolis, v.2, n.44, p.1-26, set. 2022
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Conforme o exposto, a premissa é a mesma para cada cena, diferenciando-
se pelo contexto onde é inserida. E ainda, é possível observar um pouco de sua
linha do tempo, marcada pelas datas das obras analisadas. Em outro exemplo,
que se refere à representação de um indivíduo escorregando em uma casca de
banana, Balducci (2014) identifica esse elemento cômico em diversas obras
cinematográficas no período 1910-1995. Tais exemplos confirmam a adaptabilidade
da
gag
às diversas narrativas desenvolvidas, bem como aponta para a capacidade
de cada artista de trazê-la para o seu próprio universo, ofertando-lhe uma nova
roupagem ao efeito cômico que se deseja produzir, tendo em vista que ela
também pode ser adaptada "para definir a personalidade específica de um
comediante" (Balducci, 2014, p.7).
Na palhaçaria é comum a noção de que cada palhaço possui um
modus
operandi
próprio de agir e de se relacionar com o mundo ao seu redor, pois, o
desenvolvimento dessa figura tem relação com a pessoa do ator. Sobre a questão,
Ana Lúcia Martins Soares (2007, p.108), atriz, diretora, professora e pesquisadora
em teatro, em sua tese de Doutorado intitulada
Palhaço de hospital: Proposta
metodológica de formação
, observa o seguinte:
De fato, antes de se tornar um personagem, o palha
ç
o
é
uma vis
ã
o de
mundo. Ele se organiza numa l
ó
gica particular que olha, pensa e realiza
a realidade num sentido que lhe
é
aut
ê
ntico,
ú
nico e original. N
ã
o se pode
separar o palha
ç
o da pessoa, seu criador, pois se trata dele mesmo,
apenas revelado numa esp
é
cie de segunda vers
ã
o da pr
ó
pria exist
ê
ncia.
Desse modo, parte-se do pressuposto de que a ação cômica na palhaçaria
também é, de certo modo, única, mesmo quando desenvolvida a partir de um
repertório de comicidade clássica.
Ana Carolina Carvalho Torres Barbosa (2010), atriz, palhaça, educadora e
pesquisadora, reflete, em seu artigo intitulado
Discussões sobre noção de autoria
no palhaço
, sobre a noção de autoria na palhaçaria, com base na repetição das
mesmas gags em diferentes trabalhos, onde discute a diferença entre a cópia e a
apropriação. Ao analisar uma
gag
clássica executada pelo palhaço Avner
Eisenberg
22
, aquela autora observou que o modo como ele executa a
gag
produz
22
Artista americano de
vaudeville
, palhaço, mímico, malabarista e mágico de prestidigitação.
Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria
Ana Cristina Vaz
Florianópolis, v.2, n.44, p.1-26, set. 2022
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efeito diferente daquele produzido por outros palhaços. Isso ocorre devido à forma
como o palhaço se apropria da
gag
, desenvolvendo-a a partir de uma lógica
particular, que, neste caso, se apresenta via gestualidade e modo único de
estabelecer contato com algum voluntário da plateia. Desse modo, tem-se o
lançamento da seguinte hipótese: "[...] a repeti
çã
o dos mesmos n
ú
meros possui
resultados t
ã
o diferentes porque sempre ser
á
uma atua
çã
o singular, gra
ç
as
à
l
ó
gica pessoal que rege a atua
çã
o'' (Barbosa, 2010, p.3).
Também vale destacar que o caráter de atuação singular das gags também
pode ser relacionado ao contexto específico da palhaçaria feminina, uma vez que
as tradicionais cenas cômicas, majoritariamente interpretadas por homens,
passaram a ser questionadas e atualizadas para o contexto da mulher palhaça.
Sobre a questão, Kátia Maria Kasper (2004, p.283), pedagoga e autora da tese de
Doutorado intitulada
Experimentações clownescas: Os palhaços e a criação de
possibilidades de vida
, atenta que "o repertório clássico do palhaço tem a ver com
o universo masculino, várias mulheres que atuam como palhaças têm buscado
uma criação de gags e espetáculos em torno de temáticas femininas, ou de seu
universo".
Nesse movimento recente que traz uma atenção para a existência de uma
comicidade feminina, não ditada pelas regras do masculino, tem-se ainda um
processo de releitura das gags clássicas no trabalho de artistas e grupos de
mulheres palhaças. Na dissertação de Mestrado intitulada
Comicidade feminina:
As possibilidades de construção do cômico no trabalho de mulheres palhaças
, a
autora e pesquisadora Elaine Cristina Maia Nascimento (2014, p. 74) traz, como
exemplo, o seguinte relato:
Dois palha
ç
os, um de um lado e outro de outro de uma moldura, a roupa
é
a mesma, ou pelo menos parecida. Simulam estar em frente ao
espelho, onde um deles tenta trapacear o outro, fazendo com que ele
acredite que realmente est
á
em frente a um espelho.
É
uma gag cl
á
ssica,
recontada de v
á
rias formas dentro de espet
á
culos diversos.
Normalmente os dois palha
ç
os se olham, tentam limpar o espelho e at
é
enganar o que julgam ser sua imagem refletida. Mas ser
á
que o
comportamento de uma mulher diante de um espelho seria o mesmo?
No espet
á
culo “A Fant
á
stica Baleia Engolidora de Circos” da Cia. Frita do
Rio de Janeiro, por mais que n
ã
o assumam uma aten
çã
o especial para
quest
õ
es femininas no espet
á
culo, ao realizar essa gag as palha
ç
as se
Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria
Ana Cristina Vaz
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olham como mulheres: conferem o corpo, olham como est
ã
o, at
é
se
viram para conferir o bumbum. No espet
á
culo “Eu Floro, Tu Floras, Eles
Floram” do Coletivo D’elas, de Fortaleza, as palha
ç
as n
ã
o resistem ao
espelho, tamb
é
m conferem, e at
é
gostam da sua composi
çã
o corporal.
Diante do exposto, os estudos e exemplos supramencionados convergem
para um entendimento de que a criação cômica na palhaçaria, associada à gag,
envolve processos de releitura e reapropriação de elementos tradicionais, que se
atualizam a partir do contexto onde se insere aquele que a executa.
A partir de tais reflexões, vale retomar a discussão sobre o
TikTok
, observando
os pontos de convergência entre o modo de criação de vídeos cômicos na
plataforma e as gags, por ambos desenvolverem ideias que pertencem ao
imaginário coletivo, cuja construção atende a determinados padrões do discurso
cômico e que podem ser adaptados a diferentes contextos.
Seja pelo mecanismo de som ou pelos
challenges
, na plataforma em
comento, um usuário pode criar um vídeo fazendo uso de uma ideia pronta,
ofertando-lhe uma nova roupagem – o que pode ser feito pela sua maneira única
de se relacionar com o tema. E ainda, por se tratar de uma ferramenta digital, além
de sua ação gestual, o usuário também pode contar com outros mecanismos
(texto, cortes de edição, efeitos etc.) fundamentais em determinados vídeos,
para estabelecer o contexto necessário para que a mensagem seja devidamente
transmitida.
É importante ressaltar, no entanto, que não se pretende aqui estabelecer
relação direta entre as
gags
clássicas e os vídeos do
TikTok
, pois, o trabalho do
artista cômico envolve técnicas específicas e tradição, além de estudo, prática e
investigação, ao passo que as plataformas digitais apresentam um universo
totalmente novo, utilizado por qualquer pessoa usuária da rede, com linguagem e
estética ainda carente de teorias. Além disso, as ações de criação e apropriação
observadas na releitura das gags, em geral, se dão em função de uma obra, e não
de um
modus operand
i isolado como os vídeos ali são apresentados.
Assim, na presente pesquisa, interessa refletir sobre as semelhanças entre
os dois fenômenos, a fim de embasar uma experiência de palhaçaria na criação
de vídeos e discutir sobre os possíveis caminhos para a criação cômica no meio
Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
na palhaçaria
Ana Cristina Vaz
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digital. Para fundamentar essa discussão, a seguir, tem-se o relato de três
experiências de criação via
TikTok
, a partir dos conceitos aqui abordados.
Relato de experiências
A seguir, tem-se a exposição do relato de três vídeos/três experiências
criados/vivenciadas no período 2020-2022, que têm como base outros vídeos,
memes e
challenges
que circulavam no
TikTok
no momento da criação/vivência
dos(as) mesmos(as).
Tratam-se de vídeos caseiros, empreendidos com câmera de
smartphone
na
posição vertical, criados e editados dentro da plataforma
TikTok
. Para a criação
destes, as cenas originais eram previamente selecionadas e, posteriormente, por
meio de anotações e
brainstorm
, eram pensadas e reelaboradas antes da
gravação.
A escolha dos temas se deu pelas possibilidades de jogo que poderiam surgir
no cruzamento entre a lógica particular da palhaça e a situação dada. Para fins de
‘ambientação’, Hipotenusa é uma palhaça desajustada, que está sempre em busca
da perfeição. Suas conquistas são frequentemente contraditórias e seus fracassos,
em geral, resultam da sua incansável tentativa de se encaixar nos padrões
vigentes. Tais características foram trabalhadas a partir da gestualidade da palhaça
e da escolha do elemento surpresa de cada cena, sempre levando em
consideração o modo como a palhaça agiria ou reagiria ao tema proposto.
Como o fluxo de compartilhamento de vídeos é muito intenso, nem sempre
se tem acesso ao vídeo original, mas, apesar disso, ainda é possível encontrar via
hashtags
outros vídeos produzidos a partir das mesmas ideias. Para facilitar a
compreensão e pesquisa dos vídeos descritos, incluo, portanto, as
hashtags
e
organizo o relato em três partes, quais sejam: 1) Descrição da ideia base, que se
refere ao vídeo utilizado como referência para a criação; 2) Descrição de outras
versões da mesma ideia, que também serviram como inspiração para a criação; e,
3) Descrição da versão criada por mim, como palhaça Hipotenusa. E ainda, tem-
se uma análise dos elementos cômicos predominantes no vídeo a partir do
Diálogos entre a criação de vídeos cômicos no
TikTok
e o conceito de
gag
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conceito de gag aqui discutido.
Vídeo 1 (#swandace #balletchallenge)
23
Descrição da
ideia base
: um grupo de quatro bailarinas posicionadas em uma
fila em posição básica do
ballet
(primeira posição). As bailarinas realizam o
movimento de erguer uma perna na direção lateral do corpo, cada qual em um
nível específico, subindo gradativamente, conforme o ritmo da música.
Começando da primeira que está na frente de todas, apenas arrastando o no
chão e mantendo em posição de
tendu
24
, as outras seguem conforme sua parte
na música, erguendo suas pernas cada vez mais altas até chegar na última
bailarina que, finalmente, eleva a perna até a altura da cabeça. Posteriormente,
tem-se a segunda sequência dos mesmos movimentos, mas dessa vez elevando
a perna para trás do corpo.
Outras versões encontradas
: um grupo de amigos fazem as mesmas
sequências, sendo que o último, ao invés de levantar a perna, levanta o braço com
a mão vestida em um sapato, simulando o pé. Um ballet de dedinhos fazendo os
mesmos movimentos da ideia base, sendo as pernas substituídas por dedos. Um
bailarino profissional fazendo a sequência completa, apenas alternando as
posições das pernas.
Versão da Hipotenusa
: a palhaça encontra-se vestida com uma roupa de
ballet
, que brinca com os estereótipos da bailarina em treinamento, com um
short
grande, colã, meias e sapatilhas rosa, e com um enorme laço de tule ao redor do
coque. No início da cena, a palhaça faz uma breve preparação para a câmera,
arrumando seu cabelo, para, em seguida, aparecer em posição de
balle
t. A palhaça,
então, levanta a perna à frente do corpo, subindo conforme o ritmo da música,
como na ideia base, e no último deles, a câmera fecha em um close, mostrando
uma perna visivelmente falsa, que atinge a altura máxima, enquanto a palhaça
segue a perna com o olhar e compartilha sua "incrível habilidade" com a câmera
23
Vídeo disponível em https://vm.tiktok.com/ZML9sjFeL/ Acesso em: 19 mar. 2022.
24
Movimento do
ballet
clássico onde se arrasta um pé no chão, afastando uma perna da outra (que sustenta
o corpo), encontrando seu limite na ponta do pé, com apenas os dedos encostando no chão.