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Salamandra
: Filosofia-Performance, corpo
e saúde holística
Alba Pedreira Vieira
Para citar este artigo:
VIEIRA, Alba Pedreira.
Salamandra:
Filosofia-Performance,
corpo e saúde holística.
Urdimento
Revista de Estudos
em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1 n. 43, abr. 2022.
DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573101432022e0202
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: Filosofia-Performance, corpo e saúde holística
Alba Pedreira Vieira
Florianópolis, v.1, n.43, p.1-28, abr. 2022
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Salamandra
: Filosofia-Performance, corpo e saúde holística
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Alba Pedreira Vieira
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Resumo
A partir da Prática Artística como Pesquisa e da Filosofia-Performance, problematizo
como o corpo performático constrói, reconstrói e cambia sentidos de fenômenos
diversos, ampliando entendimentos do movimento e do gesto como exercício
filosófico e aliados a dimensões de saúde holística. Compartilho trabalhos em que
seres se movem enquanto geram autoconhecimento, potência energética e
espiritualizada relacionadas à qualidade de vida. A Performance “Salamandra” (2018)
e o projeto de intercâmbio artístico “Salamandra” (2020), foram realizados em
momentos de doenças, dores e aflições. Reflexões complexificam conexões teórico-
práticas e alargam pensamentos sobre cura, ciência, realidade, corpo, filosofia,
performance, cognição, imaginação e arte.
Palavras-chave
: Corpo. Cura. Performance. Prática Artística como Pesquisa.
Salamandra
: Performance Philosophy, body and holistic health
Abstract
From Artistic Practice as Research and Performance Philosophy, the question is how
the performing body constructs, reconstructs and changes meanings of diverse
phenomena, which expands understanding of movement and gesture as a
philosophical exercise and related to holistic health dimensions. I share works in
which beings move while generating self-knowledge, energetic and spiritualized
power related to quality of life. The Performance “Salamandra” (2018) and the artistic
exchange project “Salamandra” (2020) were carried out in times of illness, pain,
affliction. Reflections complexize theoretical-practical connections to broaden
thoughts about healing, science, reality, body, performance, philosophy, cognition,
imagination and art.
Keywords
: Body. Healing. Performance. Artistic Practice as Research.
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Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Mariana De-Lazzari Gomes. Doutorado em Letras
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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Pós-doutorado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutorado em Dança pela
Temple University (EUA). Mestrado em Educação Física/Educação pela Valdosta State University (EUA).
Graduação em Educação Física pela Escola Superior de Educação Física de Goiás. Professora fundadora,
associada e pesquisadora dos Cursos de Licenciatura e de Bacharelado em Dança do Departamento de
Artes e Humanidades da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professora e pesquisadora nos Programas
de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, e em Artes da Universidade
Federal de Minas Gerais. albapvieira3@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/2204010991291958 https://orcid.org/0000-0002-7622-1622
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Salamandra: Filosofía-Performance, cuerpo y salud holística
Resumen
A partir de la Práctica Artística como Investigación y Filosofía-Performance, yo
problematizo cómo el cuerpo actuante construye, reconstruye y cambia significados
de diversos fenómenos, lo que amplía la comprensión del movimiento y el gesto
como ejercicio filosófico y aliado a las dimensiones de la salud holística. Se
comparten trabajos en los que los seres se mueven generando autoconocimiento,
poder energético y espiritualizado relacionado con la calidad de vida. La Performance
“Salamandra” (2018) y el proyecto de intercambio artístico “Salamandra” (2020) se
realizaron en tiempos de enfermedad, dolor, aflicción. Las reflexiones complejan las
conexiones teórico-prácticas para ampliar pensamientos sobre curación, ciencia,
realidad, cuerpo, filosofía, performance, cognición, imaginación y arte.
Palabras clave
: Cuerpo. Cura. Performance. Práctica Artística como Pesquisa.
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Tempestade Corporal 1
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Muito/as pesquisadore/as (e.g., Bond, 2019; Halprin, 2000), e me incluo (Lima,
Vieira, 2007, 2013; Vieira, 2019), têm investigado relações entre dança e aspectos
da Qualidade de Vida/QV, incluindo saúde física, espiritual, social e psicológica. Na
pandemia causada pelo corona vírus, diante do perigo iminente da doença
altamente contagiosa e da morte, gozar de plena saúde se revelou como uma das
maiores vontades. Além de minimizar o risco de se contaminar com a Covid-19,
algumas pessoas têm ampliado a consciência sobre a necessidade de investirmos
em QV para todes os seres vivos. Uma situação complexa no nosso país em que
enorme desigualdade socioeconômica, e cujo cenário é agravado pela ‘peste do
século XXI’: “A qualidade de vida dos grupos menos favorecidos tende a não ser
das melhores, levando à maior prevalência de doenças crônicas que fragilizam o
organismo e enfraquecem o sistema imunológico” (Estrela, Cruz, Gomes, Oliveira,
Santos, Magalhães, Almeida, 2020, p.4).
Serafina e Vaicekauskaite (2014) propõem QV como um conceito subjetivo
que existe na consciência mental individual de cada sujeito. Possíveis e múltiplos
significados de QV podem ser mais bem compreendidos por pesquisadore/as via
palavras orais e escritas expressas, por exemplo, em pesquisas por meio de
questionários e/ou entrevistas. Expando esse pensamento, pois entendo que a
consciência é multidmensional (mental, corporal, espiritual, social) e constrói
significados de QV no constante fluxo relacional dos ‘entres’, das trocas entres
consciência pessoal e coletiva. Além de palavras, podemos elaborar, (re)significar,
expressar, ampliar a compreensão de QV por fontes e meios diversos, tais como
desenhos, pinturas, performances, movimentos, gestos e assim por diante.
Um exemplo de íntima relação entre arte e cura pode ser visto no
documentário
Psychomagic
,
A Healing Art
(“Psicomagia, uma arte de Cura”,
tradução livre da autora) de Alejandro Jodorowsky (2020). Sua percepção de cura
se por meio da ecologia profunda da natureza humana e ele abraça a arte
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Tempestade Corporal foi um conceito que criei durante minha pesquisa de doutorado (Vieira, 2007) ao
discutir corpo, cognição, consciência e somática.
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performática como veículo para combater o sofrimento psíquico e debilitante.
Alguns dos seus atos de confrontação são apresentados no filme, tais como
mulheres que pintam com o sangue da menstruação, e um casal que caminha
lado a lado pela cidade com correntes nos seus respectivos tornozelos e depois
as enterram.
Outro exemplo das relações arte e cura ‘performam’ no documentário
Espaço
além
-
Marina Abramović e o Brasil
(“The Space In Between - Marina Abramović
and Brazil”, 2016), que revela jornadas de sua cura pessoal pelo país que
culminaram em uma performance artística. “Nessa peregrinação, a artista viaja por
regiões do Brasil experimentando rituais sagrados e explorando os limites entre
arte, imaterialidade e consciência” (Balász, 2020, p.6).
Neste texto
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discuto percursos de Prática Artística como Pesquisa (Haseman,
2015) que, por alguns anos, tenho relacionado aos estudos da performance e
embasado minha imersão no campo de pesquisa e prática artística identificada
como Filosofia-Performance (ou Filo-Performance), Filosofia como performance
(ou Performance como filosofia) e a Fenomenologia-hermenêutica (van Manen,
1997). Destaco o potencial da performance em relação à cura holística, e conexões
dessa com perceções de QV que transitam entre pensamento individual e coletivo
por meio de possíveis relações entre arte, cura, qualidade de vida, espiritualidade
e senso comunitário. Problematizo possibilidades do corpo performático construir,
reconstruir e cambiar sentidos de fenômenos diversos, ampliando entendimentos
do movimento e do gesto como exercício filosófico e aliados a dimensões de saúde
holística.
Ao invés de buscar significados de QV e cura na pandemia em teorias
abstratas, tentei compreender como pessoas os re(elaboram) e expressam por
meio de suas experiências diretas, vividas e materializadas corporalmente via
performances. Como procedimentos metodológico-artístico-performáticos,
virtualmente lancei, no início da quarentena no Brasil (meados de março de 2020),
um convite a várias pessoas (artistas e não artistas) para que me enviassem vídeos
de 2-3 minutos do que a pandemia lhes significava, qual o papel da arte em suas
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Este artigo contém trechos da pesquisa de doutorado da autora, cuja tese, na íntegra, nunca foi
publicada (vide Vieira, 2007).
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vidas naquele momento, o que mais lhes afligia (por exemplo, doença de cunho
psicológico, físico, espiritual, social; situação econômica, política, e assim por
diante) e seus processos subjetivos de cura. Recebi vários vídeos caseiros
(gravados em celulares) tanto no Brasil (incluindo Belém, Natal, Porto Alegre, Minas
Gerais: Ponte Nova, Divinópolis e Cataguases, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo)
como do exterior (Portugal, Colômbia, Alemanha). Duas pessoas preferiram gravar
suas vozes recitando trechos de poemas (Fernado Pessoa) ou textos de Ailton
Krenak (
Ideias para Adiar o Fim do Mundo
, 2019) e de Davi Kopenawa e Bruce Albert
(
A Queda do Céu
, 2015). Um amigo cacique de fronteiras, Francisco Hyjnõ Krahô,
me enviou da sua aldeia Manoel Alves Pequeno, na Kraolândia/TO, imagens (fotos
e vídeos) de situações do dia a dia durante a pandemia.
Filosofia-Performance como mote para a criação artística em
relação com processos de cura a partir da Fenomenologia-
hermenêutica: destruição, transformação e renovação
Por várias décadas, discutiu-se e foi realizada a transposição de pensamentos
filosóficos para e pelos corpos dos performers, assim como os seus
desdobramentos e efeitos durante a construção (nos processos de criação) e
apresentação de performances. Considerava-se que o/a criador/a necessitava se
relacionar com a obra para que essa conseguisse traduzir um pensamento, uma
visão de mundo e um modo de enxergar a realidade.
Mais recentemente, surge uma proposta diferenciada: a que defende a
Filosofia-Performance, ou Performance-Filosofia, ou ainda Performance como
Filosofia. Como afirma Laura Cull (2014, p.24-25)
5
, independente de como é
chamada, o importante é a busca por se romper lacunas entre performance e
filosofia. Tais hiatos, para a pesquisadora, são inúteis e obstrutivos. Destruição de
uma antiga concepção para renovação das formas de pensar. Em vez de continuar
5
Minha tradução e paráfrase de: “In contrast, the position of the ‘performance as philosophy’ argument is that
performance can be understood as doing its own kind of philosophical work, without it being illustrative of
concepts or arguments already outlined by traditional’ philosophy. Resisting any fixed or reductive definitions
of what constitutes (proper) ‘philosophy’ or ‘philosophical activity’ in the first place, this view suggests that
performance. Performance Philosophy conducts it own specific manner of philosophical investigation in and
as performance in ways that might be fruitfully employed to expand existing definitions of what counts as
philosophy” (Cull, 2014, p.24-25).
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a separar as duas áreas, ela propõe seguir resistindo a qualquer definição fixa ou
redutiva do que constitui filosofia ou atividade filosófica
adequada
(grifo meu). A
pesquisadora sugere que a performance conduz uma maneira própria, específica
de investigação filosófica, e essa forma particular de pensamento pode tensionar
e expandir entendimentos existentes do que se considera como filosofia.
A Filosofia-Performance tem uma premissa fundamental: o pensamento ou
conhecimento do corpo, que vem sendo expresso de diferentes formas, tais como
na performance de 1968 de Yvonne Rainer, “A mente é um músculo”, e em
expressões que sintetizam tais conceitos como as usadas por Foster (1976)
“conhecendo nos seus ossos”, por Adler (2006) “conhecendo em nossos corpos”,
por Anttila (2007) “conhecimento do corpo como forma de cognição” e por Cohen
(2003) “conhecimento interno”.
Ao defender o conhecimento e a filosofia gerados pelo corpo, em suas várias
relações/entres, não como fugir de uma questão fundamental colocada por
Hollingshaus e Daddario (2015, p.52): estamos preparados para reconhecer que
práticas artísticas constituem tipos de pesquisa (e acrescento, tipos de ‘exercícios’
filosóficos) que são qualitativamente pareados com as práticas acadêmicas
legitimadas e consideradas típicas, tais como visitar arquivos, fazer fichamentos,
escrever e apresentar palestras, artigos, livros? Acredito que sim.
Eu mesma já havia feito uma performance em 2018, Salamandra
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, no Centro
Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro/CCBB- RJ, logo após ter me submetido
à uma cirurgia em que foi retirada parte do meu dedo indicador direito para conter
a doença que se alastrava corporalmente alguns anos, devido à uma infecção
viral. Essa performance (figura 1) foi parte essencial do meu ciclo de cura, por isso
apresento um breve relato da mesma a seguir. Tal experiência foi ainda o mote do
projeto de intercâmbio artístico que desenvolvi na pandemia (2020) e que resolvi
nomear, igualmente à performance de 2018,
Salamandra
.
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A performance da Salamandra foi feita no Centro Cultural Banco do Brasil/CCBB no Rio de Janeiro, em
agosto de 2018, e um curto vídeo com fotos que a registraram está postado em:
https://www.youtube.com/watch?v=O2JmIwdiEyQ&feature=youtu.be
A edição é da comunicadora social Marcela Figueiredo Coura.
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Figura 1 - Performance
Salamandra
. CCBB, Rio de Janeiro.
Agosto de 2018. Foto: Laina Vieira
A blusa é vermelha, lembrando a cor do fogo. A posição inicial é agachada
devido ao estado corporal de desconforto, durante e após a cirurgia, que trouxe
também dores e incertezas. Confusão. Os movimentos e gestos são tímidos a
princípio; dúvida do quanto posso e consigo mover o dedo recém-operado. Uma
parte dele se foi. Ofereci ao cosmos. Aos poucos a confiança toma conta e o corpo
fica mais ágil. Dançar basicamente com o dedo. Deixar um dedo orientar e
reverberar tudo o mais que acontece no corpo. Novidade para minha arte, dançar
com o dedo. O dedo curioso se enfia em uma fenda da instalação artística de
madeira do CCBB (busca algo da natureza no prédio de concreto? Figura 2);