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O espanto da atriz: efeitos éticos e estéticos no
encontro com mulheres ingenas Guarani Mbya,
na cena da Cia Livre
cia Regina Vieira Romano
Para citar este artigo:
ROMANO, cia Regina Vieira. O espanto da atriz: efeitos
éticos e estéticos no encontro com mulheres indígenas
Guarani Mbya, na cena da Cia Livre.
Urdimento
Revista de
Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1 n. 43, abr. 2022.
DOI: http:/dx.doi.org/10.5965/1414573101432022e0118
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O espanto da atriz: efeitos éticos e estéticos no encontro com mulheres indígenas
Guarani Mbya, na cena da Cia Livre
cia Regina Vieira Romano
Florianópolis, v.1, n.43, p.1-21, abr. 2022
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O espanto da atriz: efeitos éticos e estéticos no encontro com
mulheres ingenas Guarani Mbya, na cena1 da Cia Livre2
Lúcia Regina Vieira Romano3
Resumo
Este artigo analisa duas produções da Cia Livre, apresentadas em 2019,
baseadas na peça de aprendizado
Os Horácios e os Curiácios
(1933), de
Brecht, e que tematizam a luta pela terra no Brasil hoje. Esse confronto foi
sintetizado, em
Morte e Dependência na Terra do Pau-Brasil
e
Os Um e Os
Outros
, como uma disputa entre o povo dos Um (povo que considera a si
mesmo como universal) e o povo dos Outros (todos os outros povos, com
suas culturas humanas, extra-humanas, animais, vegetais e minerais). A
crítica ao modelo estético-filosófico do teatro Euro-ocidental aqui efetivada
observa as contradições urdidas pelas presenças de intérpretes indígenas e
não-indígenas, que espelham os dissensos e coalizões entre diferentes
perspectivas das lutas emancipatórias. Como as experiências delas foram
traduzidas na cena? Que tipo de sociabilidade foi ali projetada? Que forma
teatral pode emergir da experiência de descentralização do sujeito ocidental
que o grupo indica nesses trabalhos?
Palavras-chaves: Cena contemporânea brasileira. Processos de criação.
Epistemologias ameríndias. Teatro anti-especista.
1
Revisão ortográfica e gramatical do artigo realizada por Lúcia Romano.
2 Este texto foi apresentado, em versão reduzida, no Feminist Research Working Group da IFTR, na
conferência IFTR Galway Conference "Theatre Ecologies, Environment, Sustainability and Politcs”, em 2021.
3 Doutora pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de o Paulo (ECA-USP - 2009). Mestre em
Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de o Paulo (2002). Bacharel em Teoria
do Teatro pela Escola de Comunicações e Artes da USP (1991). Professora na Universidade Estadual Paulista
"Júlio de Mesquita Filho", Instituto de Artes. lucia.romano@unesp.br.
http://lattes.cnpq.br/1085539773116789 https://orcid.org/0000-0001-8528-1793
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The astonishment of the actress: ethical and aesthetic effects in the
encounter with indigenous Guarani Mbya women, in the Cia Livre scene
Abstract
This article analyzes two productions by Cia Livre, presented in 2019, based
on the learning play
The Horatians and the Curiatians
(1933), by Brecht, and
which thematize the struggle for land in Brazil today. This confrontation was
synthesized, in
Death and Dependence in the Land of Pau-Brasil
and
The One
and the Others
, as a dispute between the people of the One (people who
consider themselves universal) and the people of the Others (all other
peoples, with their human, extra-human, animal, plant and mineral cultures.)
The critique of the aesthetic-philosophical model of Euro-Western theater
carried out here observes the contradictions created by the presence of
indigenous and non-indigenous interpreters, which mirror the dissensions and
coalitions between different perspectives of emancipatory struggles. How
were their experiences translated into the scene? What kind of sociability was
projected there? What theatrical form can emerge from the experience of
decentralization of the western subject that the group indicates in these
works?
Keywords: Brazilian contemporary scene. Creative processes. Amerindian
epistemologies. Anti-speciesist theatre.
El asombro de la actriz: efectos éticos y estéticos en el encuentro con mujeres
indígenas Guaraníes Mbya, en el escenario de Cia Livre
Resumen
Este artículo analiza dos producciones de Cia Livre, presentadas en 2019,
basadas en la obra didáctica!
Os Horácios e os Curiácios
(1933), de Brecht, y
que tematizan la lucha por la tierra en el Brasil actual. Ese enfrentamiento
fue sintetizado, en
Muerte y Dependencia en la Tierra de Pau-Brasil
y
Os Um
e os Outros
, como una disputa entre el pueblo del Uno (pueblo que se
considera universal) y el pueblo de los Otros (todos los demás pueblos, con
sus , extrahumanas, animales, vegetales y minerales.) La crítica al modelo
estético-filosófico del teatro euro-occidental realizada aquí observa las
contradicciones creadas por la presencia de intérpretes indígenas y no
indígenas, que reflejan las disensiones y coaliciones entre diferentes
perspectivas de luchas emancipatorias. ¿Cómo se tradujeron sus
experiencias en la escena? ¿Qué tipo de sociabilidad se proyectó allí? ¿Qué
forma teatral puede emerger de la experiencia de descentralización del sujeto
occidental que el grupo señala en estas obras?
Palabras clave: Escena contemporánea brasileña. Procesos de creación.
Epistemologías ameríndias. Teatro antiespecista.
!
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O espanto da atriz
Este texto nasce do espanto, termo que busca descrever a surpresa diante
do inesperado. Contudo, mesmo a intensidade do espantar-se, talvez, seja
insuficiente para expor o que motivou esta escrita. Isso, porque a percepção desse
estado diz respeito não apenas ao reconhecimento consciente de algo impensado,
mas também ao movimento que sucedeu a aquele choque inaugural, provocando
ondas de reverberação que ainda me atingem de modo irreversível.
Considero ainda mais a efetividade desse impacto, se comparado à situação
presente, em que o imprevisível foi tornado rotina, em um cotidiano distópico que
nos anuncia, momento após momento, a normalização da morte, da desigualdade
e da violência; ao lado da inabilidade conivente das instituições e tantos outros
sintomas do fim.
Então, não é de pouca monta a persistência dessa percepção profunda sobre
a qual me refiro, esse abalo agudo cuja origem localizo na criação de
Os Um e Os
Outros
(2019), da Cia Livre, montagem que se relaciona a outra criação do grupo e
que é parte do mesmo projeto, a ocupação do Museu do Ipiranga, intitulado
Morte
e Dependência na Terra do Pau Brasil
(2019), ambos apresentados em São Paulo.
Porém, antes de detalhar o que caracteriza essa consciência de ser arrastada
e sentir, de repente, o "quadro da história" explodir (Löwy, 2005), é preciso
apresentar brevemente a Cia Livre. A companhia, coletivo teatral “maduro” em
seu percurso, acumulando vinte anos de trabalho, é considerada exemplar na
criação de obras que resultam de uma investigação continuada nas artes cênicas,
com a singularidade de oferecer diferentes ocasiões de partilha dos seus
processos, que geralmente duram bem mais de um ano. Além de abrir suas
pesquisas na forma de espetáculos, a Cia Livre também desenvolve estudos
públicos e processos pedagógicos, entre outras dinâmicas de seu interesse.
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recebeu prêmios nacionais e participou de eventos nacionais e internacionais, o
que também valida sua importância no teatro brasileiro4.
No desenvolvimento dessas duas obras, partimos do texto de Brecht
Os
Horácios e os Curcios
, de 1933, em diálogo com estudos antropológicos. Contudo,
se em apresentações anteriores a companhia vinha adotando as epistemologias
ameríndias como solução filosófica para os impasses da modernidade-
colonialidade, a convocação neste projeto passou a ser outra. Além do estudo e
da experimentação cênica que realizamos sobre as teorias do perspectivismo
ameríndio (Lima, 1996; Castro, 1996), circulamos pela primeira vez mais
diligentemente em leituras da antropologia feminista (Haraway, 2004, 2009a,
2009b, 2010; Strathern, 2009) e, sobretudo, estreitamos a aproximação e parceria
com comunidades indígenas da grande São Paulo, e estabelecemos moitarás5 com
povos e lideranças da TIX - Terra Indígena Xingu6. Ao lado disso, nos motivava
responder às ações promovidas pelo governo brasileiro, recém-empossado em
2018, que teve em seu gesto inaugural, no primeiro dia de legislatura, o desmonte
do sistema de saúde indígena e da Funai, em clara afronta às conquistas dos povos
originários, garantidas na Constituição Brasileira de 1988.7
Apresentado no Museu do Ipiranga8, mais antiga instituição de acervo
histórico da cidade, que abriga pinturas e esculturas sobre a fundação da região,
Morte e Dependência na Terra do Pau-Brasil
(2019) foi oportunidade de dialogar
com o público sobre os conflitos em torno do valor da terra e do direito a ela,
4 Em 2014, a Cia Livre recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade de São Paulo pelo COMPRESP
Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo.
5 Termo que designa os rituais de troca de objetos, visitas e bens culturais entre os povos do Alto Xingu
(Fundação Oarapora, 2016). Aqui, o significado de moitará é de escambo simbólico.
6 Além do trabalho de "campo" realizado mais formalmente em imersões junto às comunidades Guarani Mbya
na grande o Paulo, para as criações da Cia Livre desde 2018, as visitas se tornaram mais frequentes a
partir de 2013 e 2014, no trabalho do grupo em parceria com a Cia Nova Dança 8, com direção de Lu
Favoretto,
Xapiri Xapiripê
, onde a gente dançava sobre espelhos (2014).
7 O avanço autorizado de madeireiros, fazendeiros e mineradores nas terras ingenas, demarcadas e em
processo de demarcação, foi consagrado no Projeto de Lei (PL) 490/2007, aprovado pela Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, em junho de 2021. Ver em: Souza e Botelho (2021).
8 Construído em homenagem às grandes personalidades históricas nacionais, o Museu do Ipiranga, também
chamado de Museu Paulista, simboliza o discurso oficial sobre o hersmo de padres, bandeirantes e demais
representantes do poder do império português na colonização do país; o que o torna um testemunho da
história única (Adichie, 2019) e do silenciamento e genocídio cometidos contra os povos originários, que se
estende, com outras formas de opressão, até hoje. Inaugurado em 1895, encontra-se atualmente em
processo de restauro e fora de funcionamento.
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assim como sobre militância ecológica, tecida à luta social. Ao mesmo tempo,
entendemos a criação como uma maneira de fortalecermos o encontro com as
comunidades indígenas com as quais nhamos trocando experiências em
processos anteriores. também preparamos a espinha dorsal do espetáculo
Os
Um e os Outros
(2019), que estrearíamos a seguir, num teatro.
Nessa nova ação, voltamos ao assunto da luta pela terra no governo de Jair
Bolsonaro, encenando a peça ditica de Brecht9. Para isso, mantivemos os textos
originais do autor, intercalados com um amplo material documental, e contando
com a presença de um coro do povo indígena Guarani Mbya, composto por duas
famílias da Tenondé Po10. A convivência com os Guarani se estendeu da cena aos
bastidores e ao cotidiano do grupo, que as duas famílias foram recebidas por
nós e moraram por cerca de quatro meses na sede da Cia Livre, mais perto do
centro da cidade de São Paulo, onde seria a peça, do que a região de Parelheiros,
onde residem.
Embora a Cia Livre trabalhe alguns anos com formas de teatro épico e
com a "questão ameríndia", o aprofundamento na cosmopolítica dos povos
indígenas ganhou outra dimensão, devido ao encontro com as duas mulheres
Guarani Mbya, Kerexu Mirim e Kerexu Poty, dia após dia no espetáculo. Atrevo-me
a dizer que isso aconteceu porque houve uma espécie de reconhecimento, que
me reposicionou como atriz de teatro, um aspecto da minha experiência social
que não havia sido tão verdadeiramente revisto, até ser colocado em perspectiva,
ou encarado em contraste (Maizza, 2017)11. Kerexu Mirim e Kerexu Poty, no palco
conosco, acabaram por retirar a posse que detinha de uma identidade social, de
uma pessoa auto-identificada como mulher cisnormativa, branca e atriz: essas
eram algumas das minhas ficções (Maizza, 2017, p.114) como "povo dos Um", com
efeitos subjetivos, poéticos e estéticos próprios. Como isso começou a
9 Na versão da Cia Livre de
Os Horácios e Os Curiácios
, os Horácios foram chamados de povo do Um,
detentores de umagica civilizatória que coloca o sujeito branco, masculino, cristão e eurocêntrico como
único, enquanto os Curiácios se tornaram o povo dos Outros , que se expande para muitos outros povos (e
o apenas grupos humanos), múltiplos em seus modos de existir.
10 Kerexu Mirim é casada com Cláudio, e mãe de Karai (Rafael) e Karai Tataendy (Ricardo, ou Kadú). Kerexu
Poty é casada com Tataendy (Germano).
11 Fabiana Maizza (2017), referindo-se a Marilyn Strathern, comenta a presença de tal oposição na trama entre
feminismo e antropologia, posições que se complementam e, assim, se apoiam na lida com temas como
corpo e pessoa.
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desmoronar na vida da cena, e como isso pode alterar ainda mais minha maneira
de agir, é sobre o que vamos divagar a seguir.
Mulheres indígenas no palco do teatro eurocêntrico
Em
Os Um e Os Outros
(2019), a forma de participação dessas duas mulheres
indígenas foi fundamental para o surgimento de uma presença cênica única, que
não se afasta de suas distintas experiências no coletivo.12 A forma cênica que
caracterizava a qualidade de
estar ali
(Coelho, 2013) foi sendo construída a partir
de conversas com a Cia Livre, logo antes das apresentações. Facilitando essas
intervenções, o coro Guarani foi posicionado na lateral do espaço nico, num
teatro com duas plateias opostas, de onde podiam observar tudo e comentar as
cenas, conforme sentissem a necessidade (Figura 1).
Em todas as intervenções que resultaram, em português e em guarani, o coro
Guarani foi autônomo: foram eles que criaram a cena de abertura, um prólogo em
que todos cantávamos a sica de saudação
Oreyvy Peraa Va'ekue
13; e foram eles
que sugeriram a narrativa do mito Guarani
sobre o
petyngua
, o cachimbo sagrado
Guarani
(História e Cultura..., s.p.), no trecho da escolha das armas, no Desfile dos
guerreiros (Figura 2). na temporada da peça, foi Kerexu Poty que se levantou,
de forma quase inesperada, entrando na cena de preparação para a luta, quando
uma coreografia sugeria a daa dos guerreiros e guerreiras Xondaro, para soprar
a fumaça de seu cachimbo sobre nossas cabeças, enquanto Kerexu Mirim falava
palavras improvisadas de encorajamento e confiança em Guarani, ao microfone
(Figura 3).
12 O jogo entre experiência singular e dimensão grupal, aqui, tenta abarcar a especificidade de uma "[...]
permanência no tempo tal que a realidade grupal transcenda as experiências individuais" (Collins, 1997,
p.375).
13 Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=1T2NZrq1K_Y&list=RDwBAiRywomOY&index=14