Herzer, a autobiografia de um dissidente nas tramas do “sexo rei”: quando gênero-sexualidade-geração inventam destinos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5965/2175180315382023e0107

Palavras-chave:

história do tempo presente, interseccionalidade, Herzer, cisgeneridade

Resumo

Do interior da Febem da Vila Maria, em São Paulo, emergiu a autobiografia de Anderson Herzer no início dos anos 1980. Foi um jovem branco, institucionalizado, vítima de abusos sexuais na adolescência e protagonista de uma transição que o tornaria um dissidente sexual, ao ter se desviado da identidade de gênero e do nome colado à sua pele desde o nascimento como Sandra Mara. O artigo analisa as condições de emergência dessa autobiografia, problematizando as práticas e as disputas para que tal “relato de si” fosse possível em termos editoriais no momento em que tanto se discutia a “questão do menor” e as formas de ressocialização de jovens na imprensa, movimentos sociais e instituições do Estado. Pelas lentes do pós-estruturalismo de Michel Foucault e Judith Butler, assim como as da crítica feminista interseccional de Kimberlé Krenshaw e Carla Akotirene, deslindam-se as tramas do poder e os jogos do saber que atuaram nas formas de nomear e constituir a figura de Herzer. Toma-se a autobiografia como monumento atravessado por políticas da autoria e da memória, demandas sociais e políticas editoriais que (in)viabilizaram a constituição do relato em sua forma e conteúdo. Aponta-se, dessa maneira, como os modos de constituição de si podem ser lidos na narrativa autobiográfica como efeito de políticas de subjetivação que fomentam ou criticam hierarquias balizadas pelas diferenças de gênero, raça e geração.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

José dos Santos Costa Júnior, Universidade Estadual da Paraíba

Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor Substituto no Departamento de História e Pesquisador do Núcleo de História e Linguagens Contemporâneas da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Referências

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro: Pólen, 2019.

ALVAREZ, Marcos César. A emergência do código de menores de 1927: uma análise do discurso jurídico e institucional da assistência e proteção aos menores. 207 f. 1989. Dissertação (Mestrado em Sociologia)  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.

BAZÍLIO, Luiz Cavalieri. O menor e a ideologia de segurança nacional. Belo Horizonte: Vega-Neto Espaço, 1985.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (coord.). Usos e abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. p. 183-192.

BUTLER, Judith. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do sexo. São Paulo: n-1 edições: Crocodilo Edições, 2019.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017a.

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017b.

CARDOSO, Lourenço da Conceição. O modo de pensar da razão dual racial: a branquitude e o mestiço-lacuna. Revista Debates Insubmissos, Caruaru, Ano I, n. 2, p. 33-48, maio/ago. 2018.

CHAVES, Leocádia Aparecida. A queda para o alto: a experiência de Anderson Herzer na construção de seu corpo, de seu gênero, de sua sexualidade. Letras Escreve, Macapá, v. 7, n. 4, p. 59-77, 2. sem. 2017.

COSTA JÚNIOR, José dos Santos. O que pode um relato? a presença de um ex-interno do SAM e da Funabem na Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988). Revista Sociais e Humanas, Santa Maria, v. 33, n. 3, p. 92-117, 2020.

DAMINELLI, Camila Serafim. Uma fundação para o Brasil Jovem: Funabem, menoridade e políticas sociais para a infância e juventude no Brasil (1964-1979). 305 f. 2019. Tese (Doutorado em História) – Centro de Ciências Humanas e da Educação, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. São Paulo: Editora 34, 2012. v. 5.

DUQUE-ESTRADA, Elisabeth M. Devires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. Rio de Janeiro: NAU: Editora PUC-Rio, 2009.

EAKIN, Paul John. Vivendo autobiograficamente: a construção da identidade narrativa. São Paulo: Letras e Voz, 2019.

FAVERO, Sofia. Cisgeneridades precárias: raça, gênero e sexualidade na contramão da política do relato. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, Natal, n. 20, p. 170-197, 2019.

FOUCAULT, Michel. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão...: um caso de parricídio do século XIX apresentado por Michel Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 2013.

FOUCAULT, Michel. Herculine Barbin: o diário de um hermafrodita. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

FOUCAULT, Michel. Não ao sexo rei. In: MACHADO, Roberto. (org.). Microfísica do poder. São Paulo: Graal, 2012. p. 344-362.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: MOTTA, Manoel Barros (org.). Ditos e escritos III: estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. p. 264-299.

FOUCAULT, Michel. O verdadeiro sexo. In: MOTTA, Manoel Barros (org.). Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2017. p. 81-90.

FOUCAULT, Michel. Retornar à História. In: MOTTA, Manoel Barros (org.). Ditos e escritos II: arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015. p. 296-310.

FRANCO JÚNIOR, Arnaldo. Experiência autoritária e construção da identidade em “A queda para o alto”, de Herzer. Revista Brasileira de Literatura Comparada, Salvador, n. 12, p. 239-251, 2008.

GAUDÊNCIO, Edmundo de Oliveira. Sociologia da maldade & maldade da sociologia: arqueologia do bandido. 439 f. 2004. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande, 2004.

GOMES, Nilma Lino; LABORNE, Ana Amélia de Paula. Pedagogia da crueldade: racismo e extermínio da juventude negra. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 34, p. 1-26, 2018.

HENNING, Carlos Eduardo. Interseccionalidade e pensamento feminista: as contribuições históricas e os debates contemporâneos acerca do entrelaçamento de marcadores sociais da diferença. Mediações, Londrina, v. 20, n. 2, p. 97-128, jul./dez. 2015.

HERZER, Anderson. A queda para o alto. Petrópolis: Vozes, 1983.

HIRATA, Helena. Gênero, classe e raça: interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais. Tempo Social, revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 26, n. 1, p. 61-73, jun. 2014.

LEJEUNE, Phillipe. O pacto autobiográfico: de Rosseau à internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2020.

MACHADO, Roberto. Introdução: por uma genealogia do poder. In. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. São Paulo: Graal, 2012. p. 7-34.

McCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

MOREIRA, Camila. Branquitude é branquidade? uma revisão teórica da aplicação dos termos no cenário brasileiro. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros - BPN, Niterói, v. 6, n. 13, p. 73-87, mar./jun. 2014.

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 11, n. 2, p. 263-274, jul./dez. 2008.

RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, [s. l.], v. 4, n. 05, p. 17-44, 2012.

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.

SALLA, Fernando; GAUTO, Maitê; ALVAREZ, Marcos César. A contribuição de David Garland: a sociologia da punição. Tempo Social, revista de Sociologia da USP, [São Paulo], v. 18, n. 1, p. 329-350, jun. 2006.

SILVA, Felipe Cazeiro da; SOUZA, Emilly Mel Fernandes de; BEZERRA, Marlos Alves. (Trans) tornando a norma cisgênera e seus derivados. Revista Estudos Feministas, Florianópolis: UFSC, v. 27, n. 2, p. 1-12, 2019.

STECANELA, Nilda; CRAIDY, Carmen. Intérpretes de si: narrativas identitárias de jovens em conflito com a lei, Linhas Críticas, Brasília, DF, n. 36, p. 299-318, maio/ago. 2012.

WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Revista Estudos Feministas, Florianópolis: UFSC, v. 9, n. 2, p. 460-482, 2001.

Publicado

2023-04-10

Como Citar

COSTA JÚNIOR, José dos Santos. Herzer, a autobiografia de um dissidente nas tramas do “sexo rei”: quando gênero-sexualidade-geração inventam destinos. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 15, n. 38, p. e0107, 2023. DOI: 10.5965/2175180315382023e0107. Disponível em: https://periodicos.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180315382023e0107. Acesso em: 20 abr. 2024.

Edição

Seção

Artigos