O lugar do tempo presente na aula de história: limites e possibilidades

Daniel Pinha Silva

Resumo


Reconhecendo a importância do tempo presente na conformação da história ensinada e da concepção moderna de história como um todo, o texto delineia a história desta centralidade, associada à tensão entre aproximação inevitável e necessidade de afastamento do enunciado historiográfico em relação à experiência política presente na qual está inserido. Em um segundo movimento, é feita uma análise das perspectivas contemporâneas sobre a questão, levando em conta 1. a ampliação do repertório de sujeitos, objetos e métodos da história, desde a segunda metade do século XX, questionando o paradigma eurocêntrico e a ideia de Civilização que lhe é intrínseca; 2. a ênfase no conceito de cidadania como mola mestra da historiografia escolar, cuja elasticidade é tributária deste novo arsenal de experiências e narrativas históricas; e 3. a cultura histórica da atualidade e sua ênfase presentista, desconfiada da possibilidade de projeção de futuros estáveis, mas com apreço pela memória e pelo passado em circulação social. Em suma, em face deste contexto de elaboração, difusão e usos de narrativas históricas, o artigo problematiza o lugar ocupado pelo tempo presente em aulas de história na escola, em seus limites e potencialidades. Por um lado, o tempo presente é tido como fundamental para conferir condições de inteligibilidade e produção de sentido histórico, adequado aos objetivos pedagógicos da história e seu propósito formador; por outro, apontam-se os limites de uma ênfase exclusivamente centrada no presente, incapaz de permitir a experiência do descentramento no tempo e a compreensão das permanências, da dimensão cumulativa e da longa duração histórica.

 

Palavras-chave: História – Estudo e Ensino. Historiografia. Tempo presente.

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DOI: http://dx.doi.org/10.5965/2175180309202017099

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