Sentidos de tempo e de escrita escolar em práticas de docentes da Educação Básica

Maria Aparecida Lima dos Santos

Resumo


Time and school writing senses in basic education teaching practices

Maria Aparecida Lima dos Santos*

Palavras-chave: Ensino de História. Escrita escolar. Currículo.

 

Linha Temática:  Desenvolvimento Curricular

 

A análise da escrita escolar nas aulas de História tem sido adensada com estudos que, no viés das teorias da enunciação e pautados pelo paradigma narrativista, configuram a produção escrita do estudante como narrativa histórica inserida em um processo interlocutivo que se instaura na sala de aula, ambiente complexo, fortemente marcado por aspectos da cultura escolar e perpassado por determinações sócio-histórico culturais (CUESTA, 2008, 2012; ANHORN & COSTA, 2011; AZEVEDO & MONTEIRO, 2013).

Sabemos que as concepções de escrita que o sujeito docente aciona em ação entram em jogo na constituição desse mosaico que compõem a cena enunciativa em que as produções escritas dos educandos são elaboradas. No entanto, o forte viés prescritivo que marca alguns estudos do campo de pesquisas sobre o ensino de História, realça a necessidade de estabelecer parâmetros de abordagem das práticas em sala de aula que evoluam da mera constatação de um cotidiano rotineiro, no qual a escrita figura como transparente e mero veículo de informação, e o ensino de História configura-se apenas em sua dimensão de narrativa histórica escolar.

A perspectiva se torna ainda mais necessária no contexto de uma reflexão sobre práticas de formação docente regidas por princípios de decolonialidade e que se propõem a investigar as características desse emaranhado discursivo em que a aula se efetiva, destacando os sentidos móveis, fluídos e híbridos do currículo que se configuram em práticas de significação (OLIVEIRA & CANDAU, 2010) .

Ganha destaque neste contexto o fato de que a prática docente ser compreendida neste estudo em sua complexidade, como manifestação de saberes de diferentes ordens mobilizados em contextos dinâmicos e abertos (TARDIFF, 2000), movida não só por demandas restritas ao espaço da sala de aula, mas externas e relacionadas aos sentidos que os diferentes sujeitos, atores sociais, atribuem ao tempo em sua busca por orientação da vida prática e à escrita em suas características de prática social.

Considerando tais pressupostos, nesta comunicação apresento os primeiros apontamentos sobre práticas de escrita escolar nas aulas de História, Geografia e Língua Portuguesa, de uma escola pública municipal situada na cidade de Campo Grande (MS). Os dados analisados foram coletados a partir de observações realizadas no período de fevereiro a agosto de 2017 no contexto do desenvolvimento de um projeto didático interdisciplinar elaborado coletivamente pelas equipes do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino de História (GEPEH/UFMS) e da Escola Municipal Vanderlei Rosa, situada na cidade de Campo Grande/MS.  

A intenção é sublinhar a pregnância de mecanismos de exclusão inscritos na História ensinada, destacando que aquilo que aparentemente se manifesta (ou é interpretado) como não-saber escrever pode ser interpretado como sintoma de saber(es). Para isso, defendo a hipótese de que, mesmo imersos em lógicas de silenciamento e imposição de representações do tempo hegemônicas, os escritos dessas crianças revelam-se como respostas de sujeitos inseridos em complexas relações discursivas.

As conclusões apontam para o fato de que, exacerbar os elementos que aclaram a História ensinada como prática inserida na forma escolar de aprendizagem (LAHIRE, 2000; VINCENT, LAHIRE & THIN, 2001) no contexto da análise dos sentidos de tempo e de escrita acionados pelos professores, pode contribuir para o fortalecimento de um olhar decolonial, o que significa questionar a ideia de acesso à escrita como um direito humano pensado na perspectiva hegemônica de dignidade. A retórica que estabelece de saída uma condição de não-dignidade às classes populares por não “dominarem” a variante convencional da língua materna , bastante presente nos sentidos atribuídos ao ensinar a ler e a escrever nas disciplinas de História e Geografia, parece-me situada em uma perspectiva pós-moderna que reafirma relações de poder de exclusão e dominação fundadas pela modernidade (SANTOS, 2010), a qual tem subsidiado práticas que se utilizam da escrita e da História para doutrinar mais do que para formar.


 

 


*Professora adjunta da Faculdade de Educação (FAEd) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino de História (GEPEH/UFMS), e componente das equipes do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI/UFMS) e Oficinas da História (UERJ).


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Referências


Referências

ANHORN, Carmen T. Gabriel & COSTA, Warley. Currículo de História, políticas de diferença e hegemonia: diálogos possíveis. Revista Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 36, n.1, p. 127-146, jan./abr., 2011.

AZEVEDO, Patricia B. de & MONTEIRO, Ana Maria F. da C. A sala de aula e a produção de sentido em práticas de letramento na história ensinada. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 8, n. 2, p. 559-580, jul./dez.2013

CUESTA, Virginia. Una mirada a las prácticas de enseñanza de la historia desde el enfoque narrativo. in: Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 3, n. 2, p. 169-181, jul-dez. 2008.

OLIVEIRA, Luiz Fernandes de & CANDAU ,Vera Maria Ferrão. Pedagogia decolonial e educação antirracista e intercultural no Brasil. Educação em Revista | Belo Horizonte | v.26 | n.01 | p.15-40 | abr. 2010

SANTOS, Boaventura Sousa. Se Deus fosse ativista dos direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2014.

TARDIF, Maurice. Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários: elementos para uma epistemologia da prática profissional dos professores e suas consequências em relação à formação para o magistério. Rev. Bras. Educ. [online]. 2000, n.13, pp. 05-24.

WALSH, Catherine. Interculturalidad y (de)colonialidad: perspectivas críticas e políticas. Visão Global, Joaçaba, v. 15, n. 1-2, p. 61-64, jan/dez.2012. (p. 61-74).


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