Escrita reflexiva na formação de professores da Educação de Jovens e Adultos: experiências e desafios no campo de estágio

Alexsandra de Souza Münich, Wanderléa Pereira Damásio Maurício, Simone Ballmann de Campos

Resumo


Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Formação de professores. Campo de estágio. Linha Temática: Desenvolvimento Curricular

 

Partindo de alguns pressupostos teórico-metodológicos sobre Educação de Jovens e Adultos, Formação de Professores e Campo de Estágio, este artigo tem como objetivo situar o horizonte teórico-metodológico do campo da EJA, discutindo e refletindo as práticas pedagógicas de estágio nos contextos formativos dessa modalidade.

Para tanto, optamos pela análise do estágio curricular na Alfabetização de Jovens e Adultos que compõe a matriz curricular do Curso de Pedagogia no Centro Universitário Municipal de São José (USJ). Refletir sobre os aspectos envolvidos nesta prática nos parece relevante para nos aproximarmos de nosso objetivo.  O que nos levou a pesquisar sobre esta temática é a vivência das pesquisadoras como professoras nesse curso e a intenção de refletir a formação de professores na EJA. Nesse sentido, algumas questões se fazem presentes para estarmos refletindo nossa prática/atuação juntamente com os/as acadêmicos/as em formação, a saber: como efetivar atualmente os planejamentos nessa modalidade de ensino para que o público por ela atendido tenha suas necessidades sociais, afetivas e cognitivas contempladas, visto que os alunos de EJA provêm de realidades díspares? Como as palavras geradoras propostas por Freire ganham sentido no projeto de estágio? Qual o papel do professor orientador de estágio? Essas, portanto, são algumas inquietações que nortearão este estudo.

Esta pesquisa foi iniciada em agosto de 2013 e desenvolvida a partir de três etapas: na primeira, o período da coleta foi previamente determinado, logo depois que definidos o tamanho e proporções relacionados ao número de participantes envolvidos na amostra.  Na segunda, construímos 06 (seis) questões para a entrevista. As entrevistas foram realizadas com acadêmicos/as estagiários/as, enviadas por e-mail, e posteriormente transcritas e analisadas. A terceira, e última etapa, consistiu na discussão e análise dos dados coletados nas entrevistas.

A experiência de estágio em EJA no Centro Universitário Municipal de São José parte da proposição de que necessitamos estudar sobre a prática antes e enquanto tivermos contato com ela. Assim sendo, iniciamos nosso trabalho com discussões em grupo embasadas em referências bibliográficas sobre a temática. A organização do cronograma de observação e intervenção na realidade com a qual se trabalhará inicia-se a partir do conhecimento da unidade de ensino e do Projeto Político Pedagógico (P.P.P.) da mesma pelos estagiários e pelo contato com a direção e o (a) professor (a) da classe de alfabetização em EJA, nosso foco de estudo. A realização de observações participativas em sala de aula aproximam os estagiários dos alunos jovens e adultos em fase de alfabetização e o registro, bem como posterior análise dos mesmos, oportuniza as checagens entre o que perceberam in loco e o que estudaram teoricamente sobre a referida realidade. As intervenções, ou aulas dadas pelos (as) estagiários (as), só ocorrem após esse processo se efetivar e buscam considerar o que foi coletado em sala de aula, no que diz respeito aos interesses do grupo de alunos, ou pistas e sugestões de conteúdos dadas pelo (a) docente.

E a palavra geradora do interesse pela alfabetização, a qual Freire se referiu? Cada grupo de estagiários costuma eleger uma palavra para desenvolver um projeto interdisciplinar sobre o tema, e que servirá como norteador das intervenções realizadas. As palavras são estudadas considerando as hipóteses de escrita, de acordo com Ferreiro (2010). Nesse afã, vários recursos didáticos, metodológicos e tecnológicos são utilizados para que a aula se torne atraente, dinâmica e produtiva.

Mas, como o orientador de estágio intervém? A mediação entre a escola, professor e os estagiários cabe ao professor orientador de estágio. Suas indagações e sugestões no processo de construção do projeto coletivo e colaborativo, no planejamento das aulas, na chamada para encorajar os estagiários, no diálogo contínuo entre a norma culta e a linguagem coloquial dos sujeitos da EJA, na proposição de alternativas e ferramentas para lidar com os diferentes níveis de conhecimento, hipóteses de escrita e ritmos de aprendizagem existentes em sala de aula, são algumas das funções deste profissional que interferem na qualidade da construção do conhecimento de todos os envolvidos no processo: professores e alunos, da EJA e da universidade.

Finalizamos o presente artigo afirmando que o estágio na Educação de Jovens e Adultos como campo de atuação dos acadêmicos e professores no Curso de Pedagogia comunga a reciprocidade da teoria com a prática. Percebemos que os estagiários assumem as concepções pedagógicas com um olhar crítico, pois ao mesmo tempo em que falam da importância de compreender a realidade dos sujeitos estudantes, afirmam que o discurso do professor de sala de aula não se manifesta em sua prática cotidiana no processo de aprendizagem.

 

 

 


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Referências


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