Educar para o empreendedorismo: projeto piloto “Educação Coempreendedor@” em escolas da rede do ensino básico do Estado do Rio Grande do Sul

Gladis Falavigna, Bento Silva

Resumo


Vivemos num tempo de “vida líquida” (Bauman, 2006), em que em tudo muda rapidamente, quadros de referência, conhecimentos, estilos de vida, relações, convicções, todas as coisas tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas e flexíveis. Este novo tempo exige rapidez das respostas, das relações e das exigências profissionais. Manuel Castells, referindo à economia e aos negócios na era da Internet da sociedade em rede, considera que  “os trabalhadores devem ser capazes de reciclar-se em termos de habilitações, conhecimentos e maneiras de pensar, de acordo com uma série de havendo sendo necessidade de existir, para tal, uma “cultura empreendedora”, levada a cabo por indivíduos “empreendedores, capazes e dispostos a transformar projetos inovadores em empresas inovadores” (idem, p. 132). Perante este momento de grandes mudanças, as empresas buscam constantemente por profissionais multiqualificados que auxiliem a trabalhar com visão sistêmica, atuando e interagindo entre equipes de diferentes setores. Para isso, segundo Silva, Duarte e Souza (2014, p. 170), o profissional precisa ser: “criativo, inovador, instigador, original, persistente, comunicativo, bom ouvinte, flexível, equilibrado, intuitivo e que tenha autoconfiança para buscar novas inovações, ou melhor, que seja um indivíduo, acima de tudo, empreendedor ou que possua um comportamento empreendedor”. Vivendo em plena era da Sociedade em Rede, globalizada, os jovens deparam-se com inúmeros questionamentos sobre seus futuros.  Os autores supracitados elencam alguns desses questionamentos:

Vou conseguir exercer minha profissão de fato? Existe espaço no mercado? Agora que me graduei e com conhecimento adquirido em meu curso de graduação, posso ser promovido em meu trabalho? É hora de abrir meu próprio negócio? Sou capaz de desenvolver habilidades empreendedoras no ambiente profissional? (idem, p. 170-171).

Como resposta a esses desafios consideram os autores citados que é hora das instituições educativas se preocuparem com o sentido de uma educação empreendedora, desde as etapas iniciais da escolaridade. Uma educação empreendedora que mobilize para a transformação social, com uma visão que crie oportunidades, potencialize características psicológicas e emocionais diversas, para se envolver em projetos sociais, éticos e cidadãos.

Existem várias recomendações para que a educação voltada para empreendedorismo esteja presente nos curriculos, de natureza formal (escolares) e não formal, contemplando todas as etapas de formação, desde as iniciais do ensino básico (Fayolle, 2007).  Este foi o espírito deste projeto  intitulado “Projeto Piloto “Educação Coempreendedor@ em escolas do rede do ensino básico do estado do Rio Grande do Sul (Brasil)”, em o prefixo “Co” (empreeendedor) traduz o sentido colaborativo entre escolas e entre os alunos das escolas, e o símbolo “@” o envolvimento das tecnologias digitais nos projetos a realizar.

A ideia de desenvolver um projeto no âmbito da Educação Empreendedora nasceu de um convite da SDECT - Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, em agosto de 2015, quando a autora (Gladis Flavigna), docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) no município de São Francisco de Paula, passou a integrar a equipe da SDECT. O objetivo geral do projeto foi desenvolver atitudes empreendedoras entre docentes e discentes da rede de ensino básico do estado do Rio Grande do Sul, visando também oferecer metodologias e recursos tecnológicos que possibilitassem aos professores do ensino fundamental de escolas municipais aderentes (da 4° série e 2º ano do Médio) a  realização de projetos que despertassem em  seus alunos, ações  inovadoras  e empreendedoras, respeitando a sua base curricular. Além disto, pretendia-se planejar ações para os professores baseadas em metodologias ativas de colaboração em rede, estimulando a coaprendizagem, o coempreender, a parceria dos alunos,  o uso das tecnologias digitais, dos ambientes virtuais de aprendizagem,  da aprendizagem ubíqua (pela partilha de saberes oriundos de lugares diversos), o conhecimento da arte e cultura locais, o trabalho de pesquisa, o ensino de idiomas, entre outras ações. Como procedimentos metodológicos do projeto privilegiámos a pesquisa-ação, conjugada com a pedagogia empreendedora, em que as etapas do ciclo da pesquisa-ação (planejamento, ação, observação e reflexão) e do ciclo da pedagogia empreendedora (sonhar, conceber, desenvolver, implementar e avaliar) se cruzam e interagem (Souza e Silva, 2016). No 1° semestre de 2016 houve a qualificação de professores das sete escolas partícipes do projeto piloto, num total aproximado de quinze professores, para desenvolverem atividades de estímulo ao empreendedorismo junto aos alunos de suas respectivas escolas. No 2º semestre, então, as escolas aderentes desenvolveram os seus projetos com forte pendor de uma educação empreendedora. As escolas do município de São Francisco de Paula desenvolveram um projeto sobre repelente ao mosquito a partir de plantas nativas e um projeto sobre trilhas ambientais. A escola de Gramado concebeu um projeto para inclusão da língua alemã e italiana nas atividades diárias de sala de aula. As escolas de Cambará do Sul planejaram um projeto de Horta Comunitária. Todos estes projetos envolveram professores e alunos na capacidade  de conceber e realizar ações inovadoras, agindo a partir do conhecimento das comunidades locais. É de destacar, também, como fator de sucesso para a realização destes projetos o forte apoio dos das prefeituras locais, através das secretarias de educação dos municípios, apesar das dificuldade de recursos financeiros para ampliação do projeto para outras localidades, bem como  o forte comprometimento de Instituições parceiras que aderiram ao projeto, tais como: UFRGS, PUCRS, Instituto Liberato Vieira da Cunha, UERGS, Uminho (Portugal), SEDUC (Ceará e Sergipe), Incbac da República Tcheca e Consulado Honorário da República Tcheva em Porto Alegre. Tal significa que quando as entidades diversas agregam esforços fazem acontecer projetos de valioso alcance para a educação, fomentando uma “cultura empreendedora” nas escolas.

Neste III COLBEDUCA apresentamos as principais etapas e realização do Projeto Piloto 2016, o qual será publicado em livro, em fase de revisão final, permitindo aos potenciais interessados conhecer os fundamentos e a metodologia da educação coempreendedora aplicada pelas escolas do rede do ensino básico do estado do Rio Grande Sul com potencial para ser realizado em escolas de outros estados. 


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Referências


BAUMAN, Z. Vida líquida. Barcelona: Planeta, 2006.

CASTELLS, M. A Galáxia Internet - Reflexões sobre Internet, Negócios e Sociedade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 20034.

FAYOLLE, A. (ed.) (2007). Handbook of Research in Entrepreneurhip Education, vol. 2. Contextual perspectives. Cheltenham: Edward Elgar.

SILVA, B., DUARTE, E., & SOUZA, K. Tecnologias digitais de informação e comunicação: artefactos que potencializam o empreendedorismo da geração digital. IN: MORGADO, J.C.; SANTOS, L.; PARAÍSO, Marlucy (Org.), Estudos curriculares. Um debate contemporâneo. Curitiba: Editora CRV, 2013, p. 165-180.

SOUZA, K., & SILVA, B. Um encontro possível entre as TIC e o Empreendedorismo: competências para o empreender na sociedade em rede. In: Hetkowski, T & Ramos, M. A. (orgs). Tecnologias e Processos inovadores na educação. Curitiba: Editora CVR, 2016, pp. 177-200.


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