O currículo na perspectiva neoliberal de estado

Amarildo Inácio dos Santos, Gicele Maria Cervi

Resumo


O neoliberalismo avança globalmente imprimindo suas marcas nas grandes potências e impondo seu ritmo aos países ditos de terceiro mundo. No caso do Brasil observa-se uma tentativa de alinhar interesses neoliberais das grandes corporações internacionais a interesses nacionais. Desde que o atual governo, de tendências marcadamente neoliberais assumiu, em 2016, esse processo acelerou-se consideravelmente e tem-se buscado abrir as portas do Brasil a essa nova perspectiva alavancada pelo mercado internacional. Em uma lógica neoliberal de estado os direitos tornam-se serviços e serão comercializados. Os trabalhadores tornam-se empreendedores e negociarão com o patrão suas relações de trabalho. O trabalhador desaparece e, em seu lugar, surge o empresário de si, um prestador de serviços para as empresas, não um trabalhador. Isso não acontece por acaso, desaparecendo a figura do trabalhador, desaparecem os direitos que lhe assistiam, o que desonera o empresariado. Além disso, pensar os sujeitos como empreendedores de si fomenta a concorrência, o motor do neoliberalismo, como assinala Foucault (2008), pois se cada um é um empresário de si, as empresas podem selecionar os que tem melhor formação. A ideia de que cada um é um empreendedor de si faz desaparecer as classes sociais e enfraquece a força de resistência da população. Promove-se uma mentalidade meritocrática que serve também para excitar a competição. Aqueles que não conseguem se destacar é por que não se esforçaram o suficiente. Dessa competitividade gesta-se um individualismo que constrói no sujeito a vontade de ser sempre melhor que o outro, portanto, competitivo. Dissolvem-se os direitos sociais e de acesso à serviços básicos como educação e saúde. Acessa esses bens, quem por eles pode pagar, os que não podem, devem se esforçar mais. Surge um mercado de formação e os sujeitos precisam estar constantemente formando-se, desenvolvendo-se, tornando-se competitivos, do contrário estarão obsoletos e ficarão sem espaço no mercado. Essa formação para uma nova lógica sugere novos currículos, pois para que tal projeto de sociedade funcione é preciso pôr em circulação uma ideologia alinhada a esses interesses, a fim de produzir subjetividades necessárias para sustentá-lo. Diante disso, a escola é um lugar privilegiado, pois como aponta Cervi (2013) é, por excelência, o local de captura e docilização dos corpos e de produção de subjetividades correspondentes a cada tempo histórico. Torna-se imperioso desenvolver um currículo que produza em série essa mentalidade neoliberal, que produza os sujeitos necessários para sustentar essa nova realidade. Um currículo cujos objetivos pedagógicos e conteúdos programáticos estejam ajustados ao novo paradigma e voltados a fabricar o sujeito neoliberal, o homo oeconomicus, cujos interesses coincidem com os interesses neoliberais, portanto, o sujeito dócil, útil e governável como escreve Foucault (2008), o empreendedor de si, que acredita ser parte do aparato estatal, parceiro do laissez-faire e não um trabalhador subordinado a ele. Ante o exposto, pode-se inferir que esse novo currículo, atualmente em desenvolvimento no Brasil, visa produzir subjetividades individualistas e competitivas, haja vista que a concorrência é a mola propulsora do neoliberalismo. O interesse do atual governo brasileiro no currículo escolar como produtor dessa nova subjetividade ficou evidente, pois uma das primeiras medidas tomadas com urgência e prioridade pelo governo de Michel Temer foi a reforma do Ensino Médio por meio de uma medida provisória. A reforma empreendida e amplamente difundida na sociedade por meio de milionárias campanhas publicitárias, que pretendem convencer a população de que a reforma, além de necessária, é boa por permitir aos estudantes elaborar um plano de estudos alinhado a sua “vocação”, visa, na verdade, produzir especialistas. Trata-se de um currículo fragmentado cuja pretensa inovação só existe na publicidade. O que se pretende é direcionar os jovens para determinadas áreas de saber nas quais há uma demanda do mercado por mão de obra, não por acaso, o foco é o ensino técnico. Ou seja, trata-se de um currículo para cada tipo de público e tudo isso é mascarado pelo discurso vocacional que se torna atrativo aos jovens à medida que vende a ideia de que eles poderão escolher o que querem estudar, o que é uma inverdade. Trata-se do desenvolvimento de um novo currículo voltado a responder aos interesses de grandes corporações que precisam de mão de obra qualificada. Portanto, mesmo dentro de uma lógica neoliberal a investida do atual governo brasileiro parece não encontrar amparo. Foucault (2008) aponta que numa perspectiva neoliberal o Estado deve interferir o mínimo possível, contudo, o que se assiste é o Estado interferindo, mas para atender aos interesses das grandes corporações. Trata-se de um aparelhamento da máquina estatal a esses interesses. O Estado deixa os cidadãos desassistidos para assistir quem comanda o mercado e os currículos são desenvolvidos e mobilizados para convencer os jovens, e a população, de que isso representa o avanço, a ordem e o progresso necessários ao pleno desenvolvimento da nação.

 

 


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Referências


CERVI, Giceli Maria. Política de gestão escolar na sociedade de controle. Rio de Janeiro: Achiamé, 2013.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.


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