Como alunos concluintes da Licenciatura em Matemática compreendem o ensino

Elizabete Volkman, Ana Lúcia Pereira, Ana Lúcia Pereira, Gabriele Granada Veleda, Gabriele Granada Veleda

Resumo


A formação inicial em cursos de licenciatura constitui a base de um processo formal e sistematizado de aprendizagem do ensinar e da profissão docente, sendo ainda um período importante de (re)construção e consolidação de práticas e concepções em torno do ensino e do "ser professor". Segundo Fiorentini (1995, p. 4), o modo como o professor concebe a matemática e o ensino da matemática influencia diretamente na sua forma de ensinar, “[...] por trás de cada modo de ensinar se esconde uma particular concepção de aprendizagem, de ensino, de matemática e de educação”. Nesse sentido, analisamos as concepções dos licenciandos da Matemática sobre o ensino desta disciplina. A investigação realizada é caracterizada como uma abordagem qualitativa de pesquisa. Para a coleta de dados foram utilizados questionário e entrevistas semiestruturadas realizadas com 39 licenciandos do quarto ano do curso de Licenciatura em Matemática de duas universidades públicas estaduais do Paraná. Os dados foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin (2011). Em nossas análises identificamos quatro concepções de como os licenciandos compreendem o ensino: Transmissão de conhecimento; Mediação do conhecimento; Construção do conhecimento e Ensino como atividade complexa. Na categoria Transmissão de conhecimento foram agrupadas as falas dos licenciandos que conceituam o ensino como transmissão de conteúdos aos alunos e engloba as compreensões que revelam que o papel do professor é transmitir aquilo que sabe. Essa concepção de ensino se enquadra no enfoque tradicional ou artesanal, no qual a finalidade do ensino é a transmissão do conhecimento (PIMENTA; ANASTASIOU, 2002). Encontramos também, a partir das respostas dadas pelos licenciandos, os que consideram que o ensino está atrelado a Mediação do conhecimento. Esta perspectiva de ensino se aproxima do enfoque humanista, que considera o professor um facilitador da aprendizagem do aluno (MIZUKAMI, 1986). Na concepção de ensino  como Construção do conhecimento os licenciandos entendem que o ato de ensinar requer diferentes saberes, entre eles os conhecimentos pedagógicos e saberes experienciais (TARDIF, 2012). Nas respostas dos licenciandos encontramos, ainda, discursos que revelam uma concepção de ensino como Atividade complexa. Alguns licenciandos consideram que o ensino extrapola a sala de aula e vai muito além do ensinar conteúdos matemáticos. Para esses licenciandos o professor assume tarefas que vão muito além de apenas ensinar os conteúdos aos alunos. O professor precisa lidar com situações muito complexas e imprevisíveis. As respostas dos licenciandos revelam uma concepção de ensino coerente com o enfoque hermenêutico ou reflexivo, que considera o ensino como “uma atividade complexa que ocorre em cenários singulares claramente determinadas pelo contexto” (PIMENTA; ANASTASIOU, 2002, p.185). A análise das concepções sobre ensino aqui identificadas nos permitem inferir que elas advém do processo formativo dos licenciandos ao longo de sua trajetória escolar, ou seja, a compreensão de ensino desses futuros professores está atrela a forma como sua formação educacional ocorreu, desde os primeiros anos de escolaridade, até o presente momento, final de um curso de formação docente. Diante do exposto inferimos que os licenciandos trazem preconcepções (MIZUKAMI, 2013)  sobre o ensino advindas de seu processo formativo, isto é, o futuro professor tende a ensinar matemática do mesmo modo como foi ensinado. Isso, de certo modo, justifica a pouca dinamicidade nas mudanças do processo educacional escolar no que diz respeito ao ensino da matemática, uma vez que ainda é recorrente uma prática que se alinha mais a concepção de transmissão do conhecimento.

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Referências


Referências

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.

DINIZ-PEREIRA. Júlio Emílio. As licenciaturas e as novas políticas educacionais para a formação docente. Educação e Sociedade, Campinas, v. 20, n. 68, p.109-125, dez. 1999.

FIORENTINI, Dario. Alguns modos de ver e conceber o ensino da matemática no Brasil. Revista Zetetiké, Unicamp, Campinas/ São Paulo, ano 3, n. 4, p.1-38, 1995.

MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. ENSINO: As abordagens do processo. São Paulo:EPU, 1986.

MIZUKAMI,Maria da Graça Nicoletti. Escola e desenvolvimento profissional da docência. In GATTI, B.; SILVA JUNIOR, C.; PAGOTTO, M.; NICOLETTI, M.(Org.) Por uma política nacional de formação de professores. São Paulo: Unesp, 2013.

PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos. Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2002.

SOARES, Sandra Regina; CUNHA, Maria Isabel da. Formação do professor: a docência universitária em busca de legitimidade. Salvador: EDUFBA, 2010.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 13.ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2012.


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