O uso das mídias comunicacionais na sala de aula: “não posso perder o controle”

Lhays Marinho da Conceição Ferreira

Resumo


Este texto é um recorte da minha dissertação em andamento, e tem como objetivo problematizar, sob a perspectiva de controle, o uso de mídias comunicacionais - em especial o celular - na sala de aula, por parte de alunos e professores do Ensino Médio Normal de um instituto a qual estou realizando a pesquisa, que localiza-se na periferia do Rio de Janeiro. Estou acompanhando 5 professores em 15 turmas de primeira séria; a disciplina que lecionam trata sobre a “introdução de mídias e novas tecnologias (IMNT)”. De acordo com a diretora da escola a intenção da disciplina é que os alunos saibam utilizar as tecnologias em sala de aula, em prol de atividades pedagógicas. E embora as mídias comunicacionais (celulares, smartphones, tablets, notebooks, etc) sejam proibidas durante a aula, nessa disciplina se o professor propor um projeto educacional os alunos podem utilizar. A partir de minhas observações, diário de campo e entrevistas, estabeleci relações com minha perspectiva teórica, apoiada nos estudos pós-estruturais. Entendendo cultura a partir das perspectivas de Bhabha (2013), e o celular como uma mídia comunicacional (SILVA e CURADO SILVA, 2015) que inclui os meios de conversação da internet (CALVÃO; PIMENTEL E FUKS, 2014).

Entendo que, as mídias comunicacionais favorecem novas relações sociais e novas formas de produzir significados sobre o mundo que colocam a cultura em um lugar central. Penso cultura a partir de Bhabha (2013) que a compreende como processo de significação, onde destaca os processos híbridos pelos quais as culturas se constituem; e assume uma perspectiva discursiva de cultura. Para ele, cultura é a prática da significação, dessa forma, não há fixação de sentidos de uma cultura específica, há sempre uma produção de sentidos inesperados, que a cada momento que são lidos, reapropriados, ressignificados e produzidos novamente, numa tarefa que repete sem repetir, que é performático em suas repetições. A cultura é então a produção de sentidos na ambivalência, o que é reiterado é negado ao mesmo tempo, neste sentido, a cultura é uma produção híbrida. Quando as mídias comunicacionais são utilizadas, não existem sentidos previamente estabelecidos, acabados. Trata-se, portanto, de romper com uma perspectiva de cultura estanque para operar com a ideia de cultura como fluxo. A partir disso, não podemos denominar e conceituar a cultura jovem como fixa e limitada, considero que todos os sujeitos estão inseridos no mesmo espaçotempo, fazem parte de um movimento contemporâneo e estão inseridos num fluxo global que está em constante movimento e transformação.

Ao utilizarem as mídias comunicacionais, na maioria das vezes os alunos e professores acessam sistemas de redes sociais (whatsapp Messenger e facebook, por exemplo), com o intuito de interagir, se relacionar, opinar, registrar pensamentos, informar, entre outras experiências (CALVÃO; PIMENTEL E FUKS, 2014, p.27 e 28). Com essa intensa interatividade e movimentação entre diversos espaçostempos, os professores inúmeras vezes não conseguem saber como o aluno está utilizando a mídia comunicacional, com isso a Professora L alega que para ter uma aula tranquila e que os alunos possam utilizar o celular, durante um bimestre leu textos sobre conscientização do uso do celular. Ela permite o uso do celular somente para a leitura dos textos que envia previamente via whatsapp, para suas turmas. Já a Professora A não permite em nenhum momento o uso de nenhuma mídia comunicacional, afirma que: “Os alunos não sabem usar e desviam a atenção da aula quando pegam o celular, para entendermos sobre as possibilidades da tecnologia na sala de aula, leio textos e debato sobre o assunto com eles”. O professor M utiliza seu próprio material (leva datashow, celular, computador, rede Wi-fi do seu celular) e usa para lecionar, permite o uso do celular, mas na maioria das vezes o uso é dirigido em prol da atividade pedagógica que propõe. Não cabe aqui categorizar qual ação está correta ou errada; entendo que, a maneira a qual o professor se relaciona com as mídias comunicacionais, envolve formação, acesso à rede, entre outros fatores.

O que fica evidente, em todos os casos de observação e entrevistas, é que os professores veem a necessidade de controlar o que e como o aluno está utilizando o celular. A Professora L permite o uso do celular para leitura dos textos, mas no final do bimestre o aluno deve ter todos os textos lidos durante as aulas, impressos, colados no caderno ou copiados à mão. Reconheço isto como uma tentativa de controlar o “incontrolável”. Controle entendido como a tentativa de evitar os escapes que o uso das mídias pode ocasionar, embora a transição entre diversos espaçostempos se faça presente, por meio da própria dinâmica que as mídias comunicacionais e sistemas de redes propõem. Creio que toda atividade humana precisa de regulação, mas regulação é diferente de controle, ao controlar entende-se que nada escapará do “olhar do professor”, o que é inevitável. 


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Referências


BHABHA, Homi. O local da cultura. 2. Ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2013.

CALVÃO, Leandro Dantas; PIMENTEL, Mariano; FUKS, Hugo. Do email ao Facebook: Uma perspectiva evolucionista sobre os meios de conversação da internet. Rio de Janeiro: Ed. UNIRIO, 2014.

SILVA, Maria Abádia (Org.); CURADO SILVA, Kátia Augusta Pinheiro Cordeiro (Org.). Pensamento político e pedagógico na formação do pesquisador em educação. 01. ed. Belo Horizonte: Fino Traço, 2015. v.01. 331p.


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