Diferença no currículo e desenvolvimento curricular

Amarildo Inácio dos Santos, Gicele Maria Cervi

Resumo


Conforme escreve Cervi (2010) a escola enquanto instituição é inventada na Modernidade. Desde o seu surgimento, o cotidiano escolar tem mudado mais e mais a cada ano. A estrutura clássica permanece, entretanto, os sujeitos que lá transitam são outros e parecem promover um verdadeiro baile das diferenças. Na verdade, as diferenças sempre estiveram lá, mas não dançavam, ficavam sentadas no canto, discretamente cantarolando as canções e imaginando como seria dançar ao seu modo na pista. Eram bailarinas sem par, invisibilizadas sob o peso dos discursos que as faziam silenciar, camuflavam-se, conformavam-se. Atualmente, porém, as diferenças aprenderam a dançar sozinhas, parecem ocupar o seu lugar no tablado, o silenciamento já não lhes cabe, já não aceitam ser apenas o oposto, o outro, o diverso. Diversidade, discurso com verniz vanguardista que esconde, sob a homilia palavrosa da tolerância, a manutenção da estrutura normativa em todos os sentidos, raça, gênero, classe social, etc. Os discursos sobre diversidade atravessam o currículo escolar e promovem a inclusão, mas incluem para evidenciar quem são os diversos, quem são os outros, que são sempre outros em relação a determinadas identidades apresentadas como norma, o padrão, o normal. Diante disso, podemos nos perguntar como as escolas lidam com as diferenças atualmente? A mudança nos sujeitos que circulam pelo cotidiano escolar pressupõe o desenvolvimento de novos currículos. Corazza escreve que “Ao falar, um currículo é levado além de si próprio, pois o sentido do que diz encontra-se na linguagem de sua época e lugar, na qual está enredado” (CORAZZA, 2001, p. 11). O currículo está alinhado à mentalidade de sua época, nesse sentido, como propõe Cervi (2010), o currículo escolar produz subjetividades correlatas ao seu tempo, subjetividades que corroborarão e manterão o sistema funcionando. Diante disso, cabe perguntar, por que esse festival de diferenças desfilando pela escola, instituição de disciplinamento e normalização de corpos e comportamentos? O currículo falhou? O currículo não responde mais às necessidades de produção de subjetividades alinhadas ao seu tempo? Não foram só os corpos bailantes que se transformaram, a música que embala a dança também mudou. Considerando as mudanças sociais, no caso do Brasil experimentadas principalmente nas últimas décadas, sobretudo após o período do Regime Militar, é possível perceber que a abertura democrática possibilitou certa elasticidade comportamental. Em certa medida, a Constituição Federal de 1988 foi responsável por isso ao determinar, em seu artigo quinto, o princípio da isonomia, garantindo direitos e tipificando condutas que agridam as expressões não normativas (BRASIL, 1988). Com a carta magna há uma judicialização dos preconceitos que promove um controle, uma limitação das violências. Contudo, isso não significa que elas tenham desaparecido. Tal qual um vírus, ficaram incubadas, esperando as condições propícias para espalharem-se novamente pela corrente sanguínea do organismo social, como observamos acontecer atualmente.  Os movimentos sociais e suas reivindicações por direitos iguais também tiveram papel importante na mudança da mentalidade, pois, à medida que conseguiram implementar, pela via política, muitas leis garantindo direitos, promoveram, gradativamente, uma relevante modificação na trama discursiva que passou a constituir subjetividades tolerantes às diversidades. Isso foi, sem dúvida, um avanço, mas é preciso pensar além, e pensar além significa não tolerar, mas considerar as diferenças em si mesmas, e não apenas como o oposto da norma, como as identidades outras, marginalizadas, pois isso as classifica e exclui. Isto posto, propomos pensar para esse tempo, não mais um currículo, não um currículo diferente, mas um currículo com a diferença, como propõe Paraíso (2010), a partir de uma perspectiva deleuzeana. “Um currículo é diferença por natureza; é pura diferença; é diferença em si” (PARAÍSO, 2010, p. 588). Apesar de todo o ordenamento curricular, todo o aparato de captura dos corpos, há linhas que escapam, borram as fronteiras aparentemente intransponíveis da norma. Pensar um currículo com a diferença implica potencializar essas linhas, pensar um currículo no qual o outro possa surgir em sua “outridade”, em sua singularidade, e não como o oposto do ordenamento normativo. Um professor alinhado a um currículo com a diferença trabalharia com seus estudantes no sentido de desenvolver uma nova ética de existência que possibilite às diferenças bailar livremente sem a necessidade de um par. Trata-se de romper a lógica binária que impõe o “isto ou aquilo” para assumir o “isto, e isto, e isto...” É um baile onde a multiplicidade dança sem um par que lhe atribua significado e função social. Trata-se de liberar a potência das diferenças em vez de classificá-las e atribuir-lhes significados que as capturarão e produzirão efeitos de poder.


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Referências


CERVI, Giceli Maria. Política de gestão escolar na sociedade de controle. Rio de Janeiro: Achiamé, 2013.

CORAZZA, Sandra Mara. O que quer um currículo?: pesquisas pós-críticas em educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

FEDERAL, Senado. Constituição da república federativa do Brasil. Brasília: Senado, 1988.

PARAÍSO, MARlUCY AlVES. DIFERENÇA NO CURRÍCULO. Cadernos de Pesquisa, v. 40, n. 140, p. 587-604, 2010.


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