Hastag Fora Bullying: desenvolvimentos para além do currículo escolar.

Pamela Cristina dos Santos

Resumo


 presente trabalho apresenta resultados preliminares de uma pesquisa desenvolvida pelos/as estudantes do Programa Mais Educação de uma Escola da Rede Estadual Ensino localizada na região da grande Florianópolis. O Programa Mais Educação é uma estratégia do governo federal que objetiva “a melhoria da aprendizagem por meio da ampliação do tempo de permanência de crianças, adolescentes e jovens matriculados em escola pública, mediante oferta de educação básica em tempo integral (BRASIL, 2010).”

Sem perder o horizonte os objetivos do referido programa, mas entendendo currículo como um instrumento social e histórico e em constante movimento (PASSOS, 2014) devenvolvemos uma proposta pedagógica a partir do tema de interesse dos/as estudantes do programa. O tema escolhido em unanimidade foi o bullying. A palavra de origem inglesa, bullying, não possui tradução literal para o português, caracteriza-se como sequências de comportamentos agressivos de um sujeito sobre o outro com intuito de legitimar uma possível superioridade através das mais diversas formas de violências (ZEQUINÃO, MEDEIROS, PEREIRA e CARDOSO, 2016).

A partir do tema problematizador, levantado pelas crianças, elaboramos um projeto de investigação entitulado “hastag fora bullying”, em que intentamos investigar se todas as crianças da escola já sofreram bullying. Elaboramos um questionário dividido em três sessões: 1. Dados pessoais; 2. Sobre o Bullying; 3. Conte-nos a sua história.

As vinte e uma crianças protagonistas do projeto “hastag fora bullying” pertencem a uma turma multiseriada com idades entre 8 e 14 anos. A aplicação dos questionários envolveu estudantes do 3º ao 9º ano do Ensino Fundamental totalizando 215 participantes. Dos primeiros resultados apurados temos que 29% (63 estudantes) dos/as entrevistados/as registraram nunca terem sofrido Bullying, nos restando mais de 70% dos/as participantes como vítimas de algum tipo de violência dentro da escola.

Embora se manifeste na escola com certa regularidade, seria ingenuidade considerar este como um problema tipicamente escolar, concordando com Voeten (2004) pensamos o bullying a partir de angulos macros de política e contextos sociais. Ressaltamos que com a crescente veiculalação desta temática na mídia o bullying ganha espaço no vocabulários das crianças, mas que vem sendo ressignificado a partir das vivências dos contextos escolares. Das nossas investigações, grande parte das respostas, apresentam relatos pontuais de de violências não sendo, portanto, caracterizado como bullying.

Compreendemos que o usufruto do bullying nos últimos tempos aparece como eufemismos para suavizar a violência que ocorre dentro das escolas e que já vem sendo apontado pelas literaturas acadêmicas de SOUZA (2003), Andrade (2000), Adam e Ferreira (2008) e Longo (2015), desde o início do século XXI. Nesse sentido, respeitaremos o conceito trazido pelas crianças, protagonistas deste projeto, no entanto registramos discordância acerca desta importação conceitual que suaviza os impactos do discurso acerca das violências dentro do espaço escolar.

Destacamos através do projeto hastag fora bullying, as crianças inscritas no programa mais Educação tem aprendido conteúdos currículares obrigatórios. Através dos questionários temos nos utilizado da modelagem matemática, confeccção de gráficos, tabulação de dados, quatro operações básicas entre outras. Na língua portuguesa através dos relatórios semanais as crianças tem aprimorado a leitura, escrita, oralidade, diferentes tipos de textos, revisão e correção das produções. Além disso, existem conteúdos outros que envolvem as subjetividades dos sujeitos e que o currículo por si só não contempla, mas que nesse processo de interação com outras turmas tem se materializado no cotidiano das crianças. Por fim, compreendemos que o desenvolvimento curricular quando interdisciplinar transborda para além da sala não sendo necessáriamente é linar, mas que exige continuidade e reflexividade de todos/as envolvidos.

 


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Referências


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PASSOS, Joana Célia dos. AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NAS LICENCIATURAS: O QUE DIZEM OS CURRÍCULOS ANUNCIADOS. Poiésis, Tubarão. V.8, n.13, p. 172 - 188, Jan/Jun, 2014.

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