Sala de aula invertida: possibilidades de outras relações com o conhecimento na área de Biologia.

Ana Paula Batalha Ramos, Rafael dos Anjos Mendes Tavares

Resumo


O presente trabalho se dedica discutir aspectos que compõe a proposta da sala de aula invertida e as possibilidades de relação com o conhecimento advindas dessa prática, no contexto das aulas de Biologia da 2ª série do Ensino Médio. Para tal, faremos alguns apontamentos em defesa do argumento de que é no processo de transformação da informação em conhecimento que a aprendizagem é consolidada.      

            Pautamos nosso trabalho em diálogos teórico-metodológicos com Charlot (2000) para problematizar a relação com o saber em convergência com a proposta de sala de aula invertida defendida por Moran (2015).

Inspirados nesse diálogo, redimensionamos a ação pedagógica nas aulas de Biologia, considerando que a informação está apenas sob a primazia da objetividade e o conhecimento é consolidado por meio da experiência pessoal que traz a marca de apropriação do sujeito. Nas palavras do autor “não há saber senão para um sujeito[..] não há saber em si mesmo” (CHARLOT,2000 p. 62), pois implica o conhecimento requer a relação consigo mesmo, com os outros e com a atividade desenvolvida.

            Desse modo, adotamos a proposta de desconstruir a perspectiva de ensino-aprendizagem linear e “inverter” qualquer posição consolidada, ou seja, tornar a sala de aula um espaço de produção de conhecimento escolar. Nossa pratica consiste em reunir no ambiente virtual o que é informação, previamente pesquisada pelo aluno e deixar para as “aulas” as atividades de problematização a respeito do objeto estudado. Tal prática permite “a combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendem juntos” (MORAN, 2015 p.23)         

            Nessa direção, reconfiguramos as aulas de Biologia, na 2ª série do Ensino Médio, deslocando o grupo para um ambiente em que o mobiliário é diferenciado e permite diversas configurações: individual, duplas, grupos, plenária.... Além disso, cada aluno tem acesso ao computador para fazer seus registros em ambiente virtual dedicado à produção da turma, as telas de LCD localizadas em ilhas de produção, permitem que cada grupo possa visualizar e colaborar com a produção dos demais. Esse ambiente favorece a colaboração, coautoria e ampliação das conexões entre conhecimentos de diferentes disciplinas escolares.

            De forma mais específica, uma das ações que compõem o trabalho é instigar os alunos a respeito de cada tema a ser estudado. Para tal, pautadas no conhecimento prévio e no interesse do grupo são levantadas questões acerca do tema para serem pesquisadas previamente em diferentes fontes. As informações coletadas são compartilhadas em ambiente virtual e por meio delas, nas “aulas” presenciais o grupo desenvolve narrativas mais aprofundadas e conectam a cientificidade à outras dimensões do conhecimento. Nesse momento, o grupo faz intervenções no material postado tanto pelo professor quanto pelos colegas instituindo a prática de produção autoral. Em outras palavras, a aula é um espaço em que acontece a transformação da informação em conhecimento, um processo que se dá no duplo movimento: coletivo e individual.       

            A prática de fazer o levantamento prévio de interesses e lançar mão de pesquisa, traz desdobramentos interessantes e inesperados pelo professor. A medida em que o aluno vai se familiarizando com o tema a ser estudado sob as nuances da pesquisa, enreda por outros caminhos que não aqueles que foram necessariamente, limitados pelo conhecimento disciplinarizado, previsto para ser ensinado no currículo escolar.

            Nesse sentido, temos percebido que outras questões têm sido fomentadas tangenciadas pelo interesse e, têm estreita relação com o conteúdo escolar. Vislumbramos que sem essa a adoção dessa prática, possivelmente, não seriam incorporadas, no cabedal de conhecimentos produzidos nas aulas de Biologia. Um exemplo dessa afirmação é a inserção de discussões a respeito da anorexia, dieta de jejum intermitente, dieta da proteína, suplementação alimentar congregada o conteúdo curricular “sistema digestório”.

            Entendemos que o recurso tecnológico permite o registro e acompanhamento de todo o processo, desde o movimento de coletar dados, passando inclusive, pelas as trilhas de aprendizagem construídas no percurso individual e coletivo, tornando a sala aula um espaço legítimo de produção de conhecimento.

            Considerando as afirmações feitas a partir da experiência relatada, nos permite defender o argumento de que nesse ambiente os movimentos de significação de conceitos da área permitem a transformação da informação em conhecimento e redimensionam a relação com o saber nesta disciplina escolar. 


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Referências


CHARLOT, B. (2000). Da relação com o saber - Elementos para uma teoria. Porto Alegre: Editora Artmed.

MORAN, José. Mudando a educação com metodologias ativas. Coleção Mídias Contemporâneas. Convergências Midiáticas, Educação e Cidadania: aproximações jovens. Vol. II Carlos Alberto de Souza e Ofelia Elisa Torres Morales (orgs.). PG: Foca Foto-PROEX/UEPG, 2015.


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