EGLÊ MALHEIROS E ENSINO DE HISTÓRIA: APROPRIAÇÃO DO CURRÍCULO PRESCRITO NA LEI ORGÂNICA DO ENSINO SECUNDÁRIO

Maristela da Rosa

Resumo


Eglê Malheiros graduou-se em Direito, mas escolheu ser professora de História. Em suas memórias, a militante comunista e modernista afirma que entre 1947 e 1964, apropriou-se do currículo prescrito para o ensino dessa disciplina de forma singular, optando por um viés teórico-metodológico crítico fundamentado no marxismo histórico dialético, enquanto o texto normativo prescrito pela legislação nacional tinha como marca o conservadorismo estadonovista que vigorava através da Lei Orgânica do Ensino Secundário. Para compreender como a professora ressignificava o currículo posto, movimentam-se os conceitos de apropriação e currículo. O primeiro a partir de Roger Chartier, e o segundo de Tomaz Tadeu da Silva e Thomas Popkewitz. A partir deste aparato teórico, analisa-se o currículo prescrito para o ensino de História como um texto que foi lido, interpretado e ressignificado pela professora de forma sui generis. Por meio de alguns exemplos rememorados por Eglê Malheiros, em entrevistas semiestruturadas, é possível perceber como sua opção teórico-metodológica foi traduzida em sala de aula, quando questionava conteúdos dos livros didáticos oficiais e acrescentava reflexões que não faziam parte do currículo prescrito. Inspirada em autores marxistas, principalmente em Caio Prado Junior, problematizava conceitos como o de Pacto Colonial e a atuação de Calabar quando da invasão holandesa em Pernambuco. Ela procurava fazer com que os alunos refletissem sobre a História de uma forma crítica, atentando para a condição de submissão que a colônia brasileira vivia em relação às suas metrópoles. Filha de uma professora e de um advogado, ambos militantes políticos, Eglê Malheiros fez do magistério sua principal atividade, cuja prática docente cruzou a sua forma de ser com a sua forma de ensinar e desvendou, na sua forma de ensinar, a sua forma de ser.


Texto completo:

PDF